quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sermões

Não se deve esperar das pessoas mais do que a sua essência recoberta por grossas camadas de hipocrisia. Certos indivíduos, todavia, desinteressam-se de esconder suas essências, conscientes das conseqüências disso. Pode-se dizer que o padre M. fosse um destes seres conscientes de si, convicto o suficiente da sua própria identidade para não precisar chafurdar na lama do “tudo é permitido”.

Jesus andou entre as prostitutas e os cobradores de impostos? Sim. Ele pregou às suas ovelhas que se comportassem como prostitutas e cobradores de impostos? Não. Jesus disse “Amai ao próximo como a ti mesmo” e também disse “o corpo é o templo do espírito”, Ele não disse para amarmos o próximo em sua promiscuidade ou erro e não disse para seguirmos os desígnios do corpo e ignorarmos os desígnios do espírito. Jesus não disse para os homens irem às putas e amá-las em sua devassidão, ele disse para amarmos os devassos como amamos aos nossos filhos, irmãos, pais. Quem vê um filho cair na devassidão e o aplaude? Acaso um bom pai não é aquele que procura guiar seu filho pelo caminho da retidão? 

É certo que o velho padre M. não era a favor de um Estado onde se aprovassem Leis que restringissem o direito das pessoas fazerem suas próprias escolhas, porque a Deus não interessa a obediência forçada e hipócrita. A liberdade que Deus nos concede é a liberdade para seguirmos por caminhos retos e colhermos os bons frutos da nossa bondade ou a de seguirmos pelos caminhos tortos e sofrermos com o amargor de nossos maus frutos.

Por isso não são censuráveis as censuras do velho padre M., são frutos de seu amor pelo próximo e seu sofrimento pelos que são causa de seu próprio infortúnio. Feliz é o homem que não é causa de seu próprio infortúnio, este pode se considerar inocente.


(Trecho de um de vários sermões que escrevi para um antigo personagem padre. Mal creio que a cristandade sobreviva sem mim.)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A sombra das horas

Começou com a instalação do dispositivo sonoro na torre da igreja. Duvidou do que ouvia. Sinos, como? Quando? Não tivera notícia de qualquer obra nesse sentido. De fato, não houve obras, tratava-se apenas de uma saída de som ligada a um computador. Muito mais simples e barato do que um pesado sino metálico. O "para quê" ou o "por quê" não saberia explicar, sequer ousou perguntar. A existência de uma aparelhagem de som que imitava sinos, pior, imitava uma curta melodia executada por sinos seguida por respectivas batidas indicativas do número de horas dos dias, isso tudo enfim, não devia lhe dizer nada. Não devia, mas, desgraçadamente, dizia.

Hora a hora, hora a hora, o som invadia a sua privacidade e a lembrava de que mais uma hora havia passado. O tempo não corria mais livre e solto, incalculado, ele passou a saltitar, fazendo pausas contemplativas. Curto silêncio intercalado por marcações escandalosas. É tempo, é tempo. Já passou, já passou. As horas ficaram curtas após aquela marcação invasiva, curtas demais para o seu gosto. Sentia que estava desperdiçando o seu dia em coisas inúteis. Não podia se sentar para assistir TV, assim que o bater lento e metódico dos falsos sinos a alcançasse, sentiria culpa. A leitura de um livro  nunca lhe pareceu demorar tanto. Absurdo, cem páginas apenas, e se passaram quatro horas! 

Aquele peso sobre o peito, aflição antecedente de compromissos importantes, iniciava muito antes. Seus dias tornaram-se curtos, muito curtos. E estéreis. A passagem do tempo agora  só lhe trazia sentimentos negativos. Estava muito velha, não haveria mais tempo para correr atrás de felicidade ou realizações, não sobrava tempo durante o dia para se dedicar aos sonhos, as obrigações começaram a ocupar todo o tempo. As suas esperanças receberam um toque de recolher, conformava-se pouco a pouco com a aproximação inevitável da morte.

Queria chorar, sem razão, porém, até este simples extravasamento parecia luxuriante demais  para aqueles dias tão curtos. Como desejava que o tempo passasse enfim, inteiro e definitivo, corresse, que o enredo da sua vida disparasse de uma vez para um ponto mais à frente, onde não sentisse a angústia daquele arrastar macilento das horas sobre seus ombros.

A sombra das horas corria ligeira por sua vida em branco. Faltava-lhe tinta para preencher  o vazio.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Criação

Para que me criaram, pergunto. Sou obra de algum arquiteto, há propósito na minha preparação  para o mundo, quero saber. Nasci, como dizem, para ser feliz, ou nasci, como dizem, para penar. Tenho liberdade para decidir a que vim, talvez, escolher o que devo ser. Talvez não, posso ter sido criada por acaso, sem razão, fruto de um desejo incerto, largada ao léu, tornei-me o que quis, sem querer, não sei.

Qual seu sonho? perguntou a menininha. Tão inocente, quer saber o que eu sonho, mas eu não sonho, lamento. Realizei todos os meus sonhos, só que cedo demais, sobrou tempo para pensar, devia ter me demorado mais no processo, assim restaria pouco para a apreciação de mim, esta obra, sem arquiteto, sem propósito, despreparada para o mundo.

Perdi os objetivos, aliás, cumpri-lhes. O que me resta? Matar o tempo, matar o tempo, matar o tempo...

E se eu fizer, disser, quiser algo novo, que me dirão? Que não. Devo contentar-me com o realizado, estancar qualquer vontade, estacionar ali e deixar de estúcia.

Obedecerei, é claro, a mim, não a outro, não há outro, hei. Resto-me. Criei-me.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Chamada perdida

O telefone celular dava sinal de ocupado o tempo todo. Devia estar na estrada, por isso fora de área. Também tinha o hábito de desligar o celular durante as aulas, para não interromper os professores. Desistiu de tentar. Ela retornaria a ligação quando estivesse disponível.

Era um dia de agosto, o vento fazia com que aquele dia quase na primavera ficasse tão frio quanto um dos dias de junho, mas sem chuva. As nuvens escuras no céu sinalizavam o mau tempo que se aproximava. Ao que parece, a frente fria passaria por eles para ir se despejar em locais mais propícios a precipitações climáticas. Ali chovia quase nunca, as chuvas sempre passavam direto, com pressa.

A revoada de urubus ao norte combinava perfeitamente com o cinza daquela manhã. Ao menos, os jardins da praça estavam sendo bem regados, garantindo assim um verde revigorante para os seus olhos no caminho para o trabalho. A quantidade de cães vadios rasgando sacolas de lixo, contudo, denunciava o desleixo dos moradores do bairro para com a limpeza pública. O vento soprava e todos os papéis daqueles malditos sacos colocados fora do horário do recolhimento suspendiam-se sobre as cabeças dos passantes, prendiam-se aos fios de eletricidade e sinalizavam terrenos com capins altos. No meio daquele capinal da esquina, certa noite, havia erguido a saia dela às pressas, pela primeira vez, com medo de serem vistos ou ouvidos pelos bêbados do bar de seu tio.

Depois daquele dia ela foi sua sempre, onde quer que escolhesse, não importava quão perigoso fosse. Mas assim que casaram tudo mudou, ela decidiu fazer aquelas viagens estúpidas, todas as noites, sem ele. O que havia para ser feito naquele fim de mundo sem ela? Vinha tentando convencê-la de que em breve ganharia o bastante para pagar uma escola particular para ela, sem sucesso, porém. Ela desejava ser independente, se formar, ganhar tão bem quanto ele. Gostaria de vê-la contentar-se com aquilo que já possuíam, não era muito, mas era o suficiente para ele. Esse vazio de achar que não era o bastante para ela preenchia os pensamentos dele todo o tempo. Às vezes, preferia ter escolhido outra para ser sua, uma mulher com a cabeça menos cheia de caraminholas sobre independência, profissão, sonhos, viagens. Por que havia escolhido aquela mulher preocupada em subir na vida, quando a maioria delas contenta-se com roupas novas pela ocasião das festas?

Havia aquela de quadris muito largos, vivia dando mole para ele, devia achá-lo muito interessante. Tinha 5 anos mais que a sua mulher, jamais colocara os pés para fora da cidade. Não tinha cara de quem sonhava com nada, mas jeito de quem põe as mãos onde precisa e se lhe pedem.

O dia passava lento demais para ele, sempre preocupado com o que passava pela cabeça dela. Talvez ela não o quisesse mais em breve, porque ele não tinha sonhos como os dela. E se depois de formada ela arrumasse um emprego bom longe dali, em um lugar que não precisassem dos serviços dele? Não desejava ser encosto dela, muito menos gigolô. Um homem precisa ser o provedor, indispensável. Ser casado por ser não faz durar casamento. A vida seguia, assim, cheia de incertezas e medo de perdê-la.

O celular vibrou quase no final do expediente na loja. Era ela. Atendeu com um sorriso. Do aparelho saltou uma voz masculina, perguntando se ele a conhecia, qual era o parentesco e avisando que ela estava morta. Um tiro, na beira da estrada, assalto. O policial que atendia a ocorrência usava o celular da vítima para tentar localizar a família.

Era o fim de todas as dúvidas.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Vexame

Tenho raiva de pessoas que escrevem versos de amor, as desprezo. O que elas pensam? Que são belos? Belos como seus amores remelentos.

Das pessoas que se fazem passar por loucas tenho pena. Pena dessa necessidade boba de estar na moda do último século literário. Os loucos saíram de moda. Quer ser fora de moda? Seja então, mas sem fingir loucura. Acorda, loucos não escrevem em blogs, a não ser que seja para passar receitas de bombas.

Fico enjoada com quem vomita suas perversões na folha em branco. Peitos, coxas, ânus. Tem algo novo? Inventaram novas perversões? Existe ainda quem não tenha lido cú em qualquer parte? Sem falar que perversões foram moda no século XIX. Quer dar uma de Bruna Surfistinha, esquece. O Marquês de Sade veio primeiro, e ele tinha ideias políticas ao menos.

É preciso que seja tudo tão descompromissadamente tolo? Banal? Vulgar.

Vou lhes ensinar o que ainda vende em literatura.

MENTIRAS.

Sabes contá-las? Sabe fingir? Não me dê uma de Pessoa, finja apenas.

Eu gosto de fingir que mato as pessoas que odeio. Sublimação pura. Ritual sacrossanto. Morrem todas, feito formigas esmagadas.

Mas não ache que sou perfeita. Eu tenho dos meus vexames. Eu faço versos solitários, do ser pálido que espia o abismo. By Fausto, Goethe, ultrarromantismo canalha de quem não sabe mentir lorotas alegres.

Porque alegria e boas esperanças, mensagens brancas em pés de pombas, poupem-me, ficaram para as donas de casa.

RACIOCINAR.

Racionalizar, desenhar com régua, medir com compasso. Eis o que nos falta. Sem nos fazer passar por psiquiatras ou loucos. Vamos tentar nos fazer passar por Cristo, Júlio César, Gandhi e ver no que alteramos o curso da história.

MODO DE FAZER.

É o que vende. Ninguém mais sabe fazer nada, ensinar os burros parece que vai ser a profissão dos próximos dez séculos.

NÃO SE PERMITA SONHAR.

Apenas minta, ok? Ou isto aqui começa a virar diário de infância, cápsula do tempo, viagem de LSD. Focalize a ilusão, tudo novo e diverso, de preferência desagradável e plausível, ou agradável mas implausível, e não retire a pena do papel até finalizar o mito.

NÃO SEJA DEMOCRÁTICO.

Isso não rende, não vende, não edifica. Pregue a obsessão pelo futuro. Nada de aderir às novas correntes estéticas. Morra velho e gagá.

CALA-TE.

A melhor forma de não dar vexames é ficar calado. A boca aberta é chamariz do demônio.


Claustro

O mundo nunca foi tão grande quanto se supõe que seja para ela. Havia cercas em toda parte erguidas sob as mais variadas desculpas. A violência das grandes cidades, a marginalidade dos subúrbios paulistanos, a superproteção materna.
Depois teve a timidez, o horror às multidões, a dificuldade em fazer amizades, aliás, a dificuldade em cultivar amizades. Um pequeno príncipe às avessas, jogava sal em todas as raízes fraternais que pudesse perceber. Poucos a cativavam, na verdade, contentava-se com a observação dos outros mantida certa distância mínima de segurança.

Assim, o mundo ia tomando o restrito tamanho das obrigações inadiáveis, estreitado pelas relações sempre evitadas. Duas linhas retas traçadas no chão da cidade resumiriam todo o seu universo de movimento. Não havia, portanto, pessoa mais previsível.

Isso se não levarmos em conta que o mundo é bem maior do que se revela na matéria. Acima do espaço existe o tempo, e nele o tempo psicológico, no qual anos podem ser vivenciados em minutos. Tempo cujo conteúdo não se deixaria resumir por poucas laudas de explicação. E havia o espaço dentro do tempo, aquele capaz de nos levar à toda parte, atrás dos sons e formas insinuadas; imaginação, arriscariam. Pensamento, liberdade, sonho. Itens tão escassos no mundo de hoje, acorrentados pelas ideias preconcebidas apregoadas por todos os meios comunicativos. Mortas a curiosidade e a criatividade do mundo moderno, quem as consegue cultivar em vasos escondidos é dono de inestimável fortuna.

Ela as possuía. Guardava em segredo esses portais para outros mundos dentro de seu silêncio, mesquinha, como sempre, com aquilo que deveria revelar aos outros.

Quem a via, contudo, não podia supor. Deixava transparecer apenas o silêncio mudo, os passos lentos e repetitivos, o ir e vir cronometrado das obrigações cumpridas a contra gosto. Mas, por dentro, ela sabia. O mundo não tinha limites.

A casa da morte



Pra encher a barriga
voltava do mercado com sacolas recheadas de verduras brancas.
A médica recomendava usar calcinhas brancas e passá-las com ferro branco.
Pra evitar as doenças brancas que a chuva traz.

Mas o destino branco não falha,
desaba branco sobre os telhados sem cor.

É inverno e a neve e o frio chegam como sempre, negros
Secam os olhos dos velhos chorosos,
de lágrimas brancas mortiças,
e as levam para o norte na direção da morte.

A casa da morte, velha morada úmida, cercada de raízes ocas
abriga a todos os desgarrados da vida,
a terrível e malvada que a ninguém perdoa.

Abriga também as lágrimas brancas, coletadas pela neve sempre negra que veio do sul.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A voz

Devíamos ser livres para dizer o que quiséssemos. Mas, se nem o nosso pensamento é livre como a nossa voz pode ser? Volta e meia nos pegamos tendo medo das nossas ideias, por serem diferentes demais, ousadas demais. Achamos que a regra é pensarmos todos igual. E assim não somos livres para dizer o que desejamos, sob pena de sermos tomados por loucos.

Então nos calamos, permanecemos fechados com nossas próprias ideias. Por que tudo o que dizemos e pensamos precisa estar certo? Por que não podemos estar errados? Será que é tão difícil sermos aceitos com nossos erros, nossas dúvidas, nossas maluquices ao ponto de não merecermos atenção?

É essa a individualidade perdida, eu acho. Se é que o que eu acho é importante. Dizem que não é. Mas eu sigo achando. Penso tudo ao contrário, penso torto, contradigo por vingança, repenso desnecessariamente. Não me dão a voz e eu me vingo com o silêncio. Ou eu digo o que desejo ou digo nada. Assim está bom para vocês? Falta a liberdade para discordar, exerço a liberdade de não reforçar.

Vocês não acreditam em mim, não acreditarei em vocês. Vocês riem de mim, rirei de vocês. O seu desprezo me concede a liberação de que preciso para construir uma alternativa ao desprezo. A fuga. Sim, agora eu entendo os silêncios e ausências de Lispector, as pseudo-fugas. Aquelas eram pessoas que não eram, por isso precisavam fugir. Mas, fugir não é covardia? Eu não quero ser covarde. Muito pelo contrário. Eu vou ficar e confrontá-los com meu desprezo. Manter-me-ei sã, lúcida, inteira, presente, produtiva. Quando vierem me perguntar o que achei de tudo, crentes de que eu responderei satisfatoriamente, eu direi a verdade. Nada me agradou.

Não me deixaram falar, duvidaram de mim, pensaram que eu tinha deixado de pensar, mas estavam todos enganados, eu ainda pensava, escondida, sem que vocês soubessem. 

Eu os enganei, mantive meu exterior camuflado conforme a moda do tempo, e ninguém foi capaz de dizer que eu estava achando tudo ridículo. Ou perceberam, mas fingiram não ter percebido, porque isso os incomodava demais.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

As Três Torres ou Os desenhos de Alice

Capítulo anterior ao anterior, em que nossa heroína sem dedos projeta o embosteamento de uma Torre de Marfim

- Muito bom você perguntar a minha sugestão. Antes de mais nada, gostaria de parabenizar pela iniciativa, Chevalier, a intenção é muito boa. Apenas os meios que são por demais modestos. Está certo que a internet é uma ferramenta de grande visibilidade, mas ao mesmo tempo é um local onde todos são anônimos. Para manter viva a chama do teu movimento é necessário mais do que uma centena de simpatizantes que venham a lhe dar um retuíte ou distribuam a campanha em outras redes sociais. Um grupo de ativistas se faz com pessoas unidas sob uma forte convicção e identificação. E, especialmente, a ação física, o agir-interagir no mundo é o que dará ao movimento a notabilidade necessária para alçar a atenção da imprensa internacional. Sim, porque a visibilidade local não é o suficiente. Edward Shaw está acostumado com pessoas apontando os seus podres, tenho quase certeza de que ele considera essas pessoas quase como amigas suas, pois elas ajudam a manter seu nome em relevância. Precisamos de um grande ato simbólico que atraia os olhos do mundo sobre nós, que faça o mundo se sentir responsável por nossa desgraça e solidário com a nossa indignação.

Alice tirou do bolso um desenho feito a lápis. A gravura possuía capricho de desenhista mesclado ao zelo do projetista cujo conteúdo perturbava pela idéia em si mais do que pela inverossimilhança dos meios disponíveis para realizá-lo. O desenho dispensava explicações, era feito em forma de história em quadrinhos, com três cenas distintas. Tratava-se da Torre do Marfim em primeiro quadro, um monte de esterco no segundo quadro e no último quadro a Torre de Marfim coberta pelo esterco de alto a baixo, colorido este último quadro de um marrom bem sujo, próximo ao vermelho, com uns pintassilgos amarelos muito suspeitos.

- Vamos bostear o prédio do Shaw de alto a baixo. Depois disso ele não terá onde enfiar a cara de vergonha, vai se desculpar diante do público e se entregar para sofrer as sanções da Justiça. Promoveremos três dias de ocupação, pelos meus cálculos, umas 3 mil pessoas reunidas por três dias produzirão insumo mais do que suficiente para cobrir a superfície externa do prédio centímetro por centímetro.

A explicação de Alice estava apresentada, somente um imbecil não a entenderia, pois se até ilustração ela se deu ao trabalho de fazer para os menos favorecidos de inteligência não ficarem fora do assunto.

 Restava saber se o Chevalier era homem de audácia e visão e estaria disposto a elevar o grau de comprometimento com a causa ou se era ele mais um blogueiro cheio de papo que tem medo da tropa de choque. E claro Alice ia testar se a vampira de salto alto era uma lambe-saco do Príncipe.


O poder das massas by Alice C.

Capítulo em que a nossa heroína vampírica, negando qualquer correlação com as xaropadas dos crepúsculos por aí vigentes, mostra-se uma animada organizadora de manifestos públicos.


Se *Alice C. fosse dessas pessoas extremamente inseguras teria ficado incomodada por ninguém elogiá-la pela perfeição daquele desenho feito pelas “mãos” de uma mulher sem dedos. Mas não, Alice entendia perfeitamente o desconforto das pessoas de falarem na sua deficiência, mesmo que para elogiar a sua perícia de desenhar segurando o lápis entre os lábios ou clicando com o toco do dedo indicador no botão do mouse. A palavra de ordem nos meios educacionais é “inclusão”, a qualquer custo boa parte das vezes, mas não deixa de ser inclusão. A nossa heroína estava grata por este sentimento de recebimento e inserção de seus futuros companheiros de ocupação, afinal, estava claro que daquelas cabeças subalternas e viciadas em só dizer SIM para tudo que o sistema lhes impunha não poderiam sair ideias lá muito revolucionárias.


A empolgação do **CHE-valiê, em especial, era animadora. Ele tinha uma cara simpática e que transmitia confiança, e tinha dedos, o mais importante de tudo, o público tende a prestar mais atenção e credibilidade a quem tem dedos para lhe falar. Até quando essa pessoa não é boa em fazer story board das manifestações futuras.

Mas ainda havia o problema de se criar problema onde não há problema. E foi o que Alice disse aos seus companheiros.


- Não criem problema onde não há. O único obstáculo é o de nos dispormos a fazer e acharmos outros 2.997 dispostos ao mesmo. O poder das massas é intransponível, somente a ignorância impede que o povo comande. Chegaremos em silêncio, de maneira pacífica, de dois a dois. Quando pedirem para sairmos, nos sentaremos no chão e diremos que vamos esperar. Levaremos comida, água, agasalhos. Quando não caber mais gente na recepção, sentaremos no jardim do lado de fora. Então comeremos e beberemos e cantaremos – e nesta parte Alice estava sendo sincera, ela podia muito bem comer e gastar uns pontos de sangue para fazer a comida chegar até a saída para fazer parte do movimento como todos os outros – e a imprensa estará lá para nos filmar. E comeremos mais, até que o milagre aconteça e nossos intestinos comecem a funcionar. Então, cada um de nós, um a um, ou vários de uma vez, defecaremos, em jornais ou no que estiver disponível e passaremos os nossos excrementos para os que estiverem do lado de fora. Estes por sua vez, começarão o trabalho de decoração da Torre, a fachada embaixo. Olharemos a rua através de nossa obra.

 Continuaremos a comer e a esperar que os nossos intestinos funcionem – também podemos levar algum excremento conosco, só pra fazer volume, ninguém vai reparar na quantidade, o que importa é o simbolismo do ato. É claro que ***Shaw lavará a fachada depois, ninguém está dizendo que ele não vai. É claro que muitos de nós seremos presos. Então, alguém acha que a liberdade é impune? Talvez nos batam, torturem, prendam, caluniem. Mas não se enganem, nossas ações não serão esquecidas. As palavras ditas nunca são em vão. É conformismo achar que devemos nos calar porque seremos censurados pelo que dissermos. Não somos crianças que esperam que Edward Shaw nos aplauda por nossa coragem, ou que a sociedade nos dê uma medalha. O que faremos terá conseqüências. Somente os irresponsáveis não preveem as conseqüências de seus atos. Seremos punidos, mas a punição não apaga o ato em si. O que fizermos estará feito e o que dissermos estará dito.

Alice estendeu a mão para o CHE-valiê, queria cumprimentá-lo mais uma vez por sua iniciativa corajosa de se rebelar contra o que achava que estava errado.

- Vamos arregimentar, não somos os únicos que enxergam as coisas como são. Outros vão aparecer. Manterei contato por email. A-l-i-c-e-c.@gmail.com.
E olhando para a ****vampira loira:


- Você tem Facebook?


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* Pra quem não conhece, Alice C. é personagem-narradora de vários enredos aqui do Literatices. É uma vampira recém transformada que luta para se adaptar a sua nova condição de não estar viva.

** CHÊ-valiê é um personagem deste trecho em específico, um ser humano muito distinto pelo visto, destes com ideologias e tudo. Gente fina.

*** Shaw é o vilão desta trama. Príncipe entre os vampiros, manipulador da mídia, da indústria da construção, da indústria química e tudo o mais que houvesse para ser dominado naquela região geográfica. Leia-se: tirano a ser combatido.

**** A vampira loira é um personagem super interessante, que porém, neste trecho é completamente negligenciado empatado de se desenvolver pelo discurso inflamado da Alice.