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sábado, 15 de junho de 2013

Quem tem vintém?

Quando a barriga dói
a garganta chia
seu grito de ódio
seu lema de ordem
e as cabeças explodem,
os braços sacodem
seus socos no ar.

Quem tem vintém?
Quem tem vinte?
Vinde companheiros,
vambora lutar.

Cacetete desce
o pau sacode
sobre as costelas
que querem brigar.

Capacete verde
sangue-vermelho-da-morte
a fome roxa do povo a chorar.

Olha a mãe que cai
sobre o filho grogue
é mãe de um maio em junho esmaecido
brigador de ombros caídos
que esqueceu como é reivindicar.

E a platéia agradecida
aplaude o espetáculo que não pode parar
é show da vida (?)
do telespectador otário que não sabe brigar.

Só sabe chiar, só sabe chiar
barriga vazia, da fome roxa

Não sabe gritar, não sabe gritar
cabeça vazia de sonhos ocos

Capacete verde do sangue-vermelho-da-morte
E a triste mãe de maio em junho a chorar.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dedos podres ou Os eleitores que não sabem escolher

Conhecem aquela história de pessoas que possuem os dedos podres? Como as mulheres que dentre dúzias de opções escolhem somente os homens mais complicados, ou o consumidor pé frio que escolhe sempre as verduras estragadas, quem só compra gato por lebre e os que escolhem sempre as piores amizades.

Pois é, o Brasil é um país de eleitores com os dedos podres. Para nós, brasileiros, não basta sair nos jornais que um político candidato às próximas eleições está envolvido em falcatruas para que não votemos neles. A cada nova eleição a população elege e reelege figuras suspeitas com ficha corrida, histórico de pilantragem e até mesmo criminosos perigosos, acusados de pedofilia, tráfico e o diabo a quatro.

Está sendo aprovado o "Ficha limpa", medida jurídica para impedir os brasileiros de se tornarem vítimas de um dos seus maiores defeitos, o dedo podre na hora de escolher seus representantes políticos.

Eu me pergunto qual classificação dar a este eleitorado míope, aparentemente desprovido de qualquer senso ético e inapto a julgar por si mesmo quais candidatos não merecem confiança. Nossa incapacidade de escolher direito obriga-nos a criar leis para garantir que se cumpra o óbvio: não escolhamos o pior à disposição.

Pergunto-me ainda até que ponto os nossos veículos de comunicação em massa estão cumprindo seu papel de alertar a população sobre a ficha corrida dos candidatos em todas as partes do país. Pelo que vejo, a realidade do nosso país não está bem retratada em nossos jornais e telejornais. Os mistérios sobre o nosso sistema eleitoral, sobre os jogos de interesse que decidem as eleições, sobre os currais eleitorais e trocas de favores permanecem omitidos pela imprensa, esquecida de sua responsabilidade social para com os telespectadores, provavelmente comprometida por seus patrocinadores.

Imagino que daqui para frente os políticos de "Ficha suja" serão obrigados a procurar substitutos submissos e sem ficha corrida para indicarem como seus sucessores. Aí é que está, se não somos capazes de escolher bem sequer quando o óbvio salta-nos sobre os olhos, quanto mais em ocasiões em que os defeitos estejam mascarados.

Daqui para frente seremos obrigados a prestar a atenção no que nos dizem os candidatos durante o horário eleitoral para sabermos se estão dizendo coisa com coisa? Sim, pelo que parece, precisamos quitar este débito com a nossa democracia.

sábado, 5 de junho de 2010

"A Copa do Mundo não acabou ainda?"

Essa é a pergunta que faço e refaço todas as noites quando desperdiço alguns minutos da minha vida em frente à televisão. O meu marido, pacientíssimo, responde-me: "Faltam tantos dias para ela começar." Pfff! Então, por misericórdia, por que o noticiário vem me incomodar com obsessivas notícias sobre este assunto tão desinteressante para mim? Será, meu Deus, que eu sou a única pessoa dentre as milhões neste país que não está nem aí para o que vai acontecer nesta Copa ou em qualquer outra? Serei a única opiniosa pessoa a julgar a "paixão" pelo futebol uma total falta do que fazer e do que pensar do nosso povo?

Justamente em ano de eleições presidenciais, os jornais estão mais preocupados em discutir e entrevistar as pessoas sobre o que elas acham sobre os craques da bola. Engraçado é que eu não vejo ninguém colocar o microfone na cara dos transeuntes para saber o que eles acham sobre Serra, Dilma e Marina. Será que o povo possui opinião formada sobre quem deva governar este país nos próximos 4 anos? Mas a taça do Mundo, todo mundo sabe para quem deve ir...

Entre uma bola e outra já ouvi rápidas declarações de alguns presidenciáveis que os descartaram de minhas opções de voto. Mas, e os eleitores mais indecisos do que eu? Estão conseguindo entender que cargas dágua estão falando os candidatos na televisão e no rádio? Creio eu que as frases cáusticas do técnico da seleção causam mais sensação entre o eleitorado nacional. Aliás, só pelo fato do Dunga não fazer doce com a imprensa brasileira, ele já ganharia o meu voto.

Nem vou falar dos candidatos ao legislativo, estes não existem e pronto. Vão se eleger na base da boca de urna, das dentaduras e dos outdoors. Ganhar pela propaganda, porque se depender das propostas... Nada neste país causa estranhamento, pois se ex-presidente tirado por impeachment consegue se eleger senador da república nada se deve estranhar, nada.

O verde amarelo segue enfeitando o nosso ano eleitoral, preenchendo com sons de cornetas e gritos  de hola os noticiários.

sábado, 10 de abril de 2010

Reflexões educacionais

A educação em nosso país, o Brasil, é deficitária. Conseguimos ‘escolarizar’ os nossos jovens, o que não é o mesmo que educá-los com excelência. Há gente por aí creditando essa deficiência no ensino básico de língua e matemática às escolas públicas, são os mesmos que se posicionam contra a inclusão no ensino superior de alunos da rede pública, afrodescendentes e indígenas. Eu, como educadora graduada em Língua Portuguesa e Literatura por uma instituição pública e estadual, chamo esse tipo de posicionamento de retrógrado, preconceituoso e infundado.
O problema da educação em nosso país não é só econômico – poder pagar uma escola particular ou depender da pública. O problema da educação em nosso país é metodológico, cultural e social, especialmente no que se refere ao ensino da língua.

Metodológico porque os educadores em geral são conservadores, fechados para as inovações sugeridas pelos pesquisadores e pensadores da educação. Ouve-se muito nas conferências sobre o método Paulo Freire, sobre inovação, sobre Piaget, mas na prática, tanto na rede pública quanto na rede privada, o número de educadores realmente capacitados para acolher metodologias novas é pequeno. As mudanças necessárias para fugir do feijão com arroz de “copiar do quadro” e “seguir o livro didático” estão longe de serem oferecidas pelos sistemas educacionais. Inclusive, neste ponto de dar liberdade ao professor de optar pela adoção de metodologias diferentes, a escola pública dá de dez a zero na rede particular. Escola particular é empresa com fim lucrativo, quer resultados imediatos e tem medo de ousar. Com exceção de umas poucas instituições que se propõe a oferecer uma proposta “alternativa”, restaurantes e bares também são capazes de fazer isso, a maioria se repete no inquestionável e inabalável “método tradicional”. Para mostrar uma ponta do que as não tão recentes pesquisas indicam: o estudante para aprender a escrever e ler com fluência não precisa decorar terminologia gramatical. Sujeito, Aposto, Predicado, Advérbio, Transitividade, isso tudo tem mais a ver com filosofia lingüística do que com o ato de escrever em si. Pois é, mas qual é o professor que não obriga sua turma a decorar as classes gramaticais? As questões de concursos estão mudando um pouco a cobrança de terminologias, mas nem todas as empresas adotaram a prática ainda. É perder uma vida escolar inteira para decorar uma coisa inútil.

O problema é cultura e social porque para escrever bem a pessoa precisa ler muito, não só quando está no cursinho ou já passou no vestibular, ela precisa começar a ler ainda na infância. Uma criança vai adquirir o hábito de ler se os pais não abrem nem um jornal em casa? A população não tem poder aquisitivo para comprar livros, aliás, nem para comprar gibis. Dá para escolher entre comprar um revista em quadrinhos e uma dúzia de ovos? Qualquer pai escolherá comprar a dúzia de ovos. A barriga é órgão mais essencial do que os miolos. O ministério da educação manda livros para as bibliotecas, nem sempre os professores fazem bom uso destes "quase" espaços. Nas escolas particulares não estou ciente se estes espaços chegam ao menos ao "quase".

Então, sonhamos com uma educação do futuro, com estudantes leitores e produtores de texto, capazes de argumentar e contra-argumentar, de ler os jornais e saber quando estes estão dizendo verdades ou mentiras. Mas esta educação do futuro ainda está em germe, falta adubar, regar e proteger a fragilidade de suas raízes das ervas daninhas. Para que, no futuro, não precisemos ouvir gente que se diz doutorada e mestrada discriminar os nossos estudantes por uma coisa da qual eles não tem culpa.

Estou certa de que estes estudantes, os discriminados, irão se tornar melhores doutores e mestres do que os que aí estão, porque educação não depende de nascimento ou de status social, depende de dedicação e superação de desafios.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ato de fé


Eu acredito que todo ser humano pode aprender, mesmo depois de crescido, a respeitar os outros e a lutar pelos seus direitos e interesses.

Eu não acredito em autoridades estabelecidas, não acredito em regras criadas por comissões que não sentem na pele as questões envolvidas na pauta.

Eu acredito na educação que transparece no ato das pessoas conscientes e supera as manifestações contrárias.

 Não acredito no ensino obrigatório e tendencioso das escolas, não  acredito na informação da mídia vendida. Não acredito em propaganda política eleitoral. Eu não acredito em outdoors. Eu não acredito em slogans, muito menos em gritos de guerra.

Eu acredito que colocar o meu lixo no lugar correto, reciclar e respeitar o espaço dos meus vizinhos não é ser certinha exagerada.

Não acredito em telenovelas, não acredito nos jornais nacionais; não acredito nos líderes religiosos marketeiros, não acredito em curas milagrosas, não acredito em livros de auto-ajuda, não acredito em discursos repetidos e nunca ampliados.

Eu acredito nas pessoas.

Não acredito que a aparência é tudo; não acredito em vendedores, não acredito em pregadores, não acredito em relações públicas, não acredito que vou enricar com facilidade, não acredito em profissionais sem concorrência, não acredito em anúncios institucionais; não acredito em governo sem oposição, não acredito em oposição que não se manifesta, não acredito em pessoas que  só falam bem de si mesmas.