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segunda-feira, 29 de julho de 2013

Claustro

O mundo nunca foi tão grande quanto se supõe que seja para ela. Havia cercas em toda parte erguidas sob as mais variadas desculpas. A violência das grandes cidades, a marginalidade dos subúrbios paulistanos, a superproteção materna.
Depois teve a timidez, o horror às multidões, a dificuldade em fazer amizades, aliás, a dificuldade em cultivar amizades. Um pequeno príncipe às avessas, jogava sal em todas as raízes fraternais que pudesse perceber. Poucos a cativavam, na verdade, contentava-se com a observação dos outros mantida certa distância mínima de segurança.

Assim, o mundo ia tomando o restrito tamanho das obrigações inadiáveis, estreitado pelas relações sempre evitadas. Duas linhas retas traçadas no chão da cidade resumiriam todo o seu universo de movimento. Não havia, portanto, pessoa mais previsível.

Isso se não levarmos em conta que o mundo é bem maior do que se revela na matéria. Acima do espaço existe o tempo, e nele o tempo psicológico, no qual anos podem ser vivenciados em minutos. Tempo cujo conteúdo não se deixaria resumir por poucas laudas de explicação. E havia o espaço dentro do tempo, aquele capaz de nos levar à toda parte, atrás dos sons e formas insinuadas; imaginação, arriscariam. Pensamento, liberdade, sonho. Itens tão escassos no mundo de hoje, acorrentados pelas ideias preconcebidas apregoadas por todos os meios comunicativos. Mortas a curiosidade e a criatividade do mundo moderno, quem as consegue cultivar em vasos escondidos é dono de inestimável fortuna.

Ela as possuía. Guardava em segredo esses portais para outros mundos dentro de seu silêncio, mesquinha, como sempre, com aquilo que deveria revelar aos outros.

Quem a via, contudo, não podia supor. Deixava transparecer apenas o silêncio mudo, os passos lentos e repetitivos, o ir e vir cronometrado das obrigações cumpridas a contra gosto. Mas, por dentro, ela sabia. O mundo não tinha limites.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Solidão

Família. Sons conhecidos, visões estranhas. Teve uma família um dia e a perdeu. De quem era a culpa? Sua? O que podemos fazer para evitar os outros de seguirem seus próprios caminhos?

Fazia falta, muita falta, ter alguém para ouvir a sua voz. Os outros fingiam estar ouvindo, mas não ouviam. Ficavam parados escutando, só escutando. Olhar para a pessoa enquanto ela fala não significa compreender. Andavam todos ocupados com coisas passageiras e sem importância, mesquinharias pessoais, projetos financeiros.

Ninguém para ouvir a solidão na voz desesperada. Ninguém para dividir os sonhos inúteis, rir das brincadeiras sem fundamento, planejar revoluções que não sairiam do papel. Alguém para segurar a sua mão dentro da noite fria e passar um pouco de calor desinteressado.

Queria sair e bater nas pessoas. Tirar sangue daquelas criaturas dormentes e sem horizontes. Olhavam para os pés, olhar para o céu era pedir demais. Paravam, olhavam um segundo para o céu e voltavam a olhar para os pés. Medo de tropeçar, parecia. Ausência de curiosidade.

Não conseguia se aproximar deles. Eram cheios de pensamentos confusos.

Em si havia o vazio de idéias e sentimentos. Sem memórias. Sem planos. Solidão apenas.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Embriaguez

Deixou o estabelecimento e seguiu reta até a primeira esquina, local onde se deu conta da sua embriaguez. Cinco litros de vinho tiram uma pessoa dos eixos! A sua cabeça havia esquecido o álcool agindo sobre os reflexos, mas o seu corpo não foi capaz de ignorá-lo. Zanzou, cambaleou e só não caiu porque achou a escora do poste de iluminação. Ingratamente brindou o pé do poste com esguichos de vômito e esqueceu-se de lembrar o quão disciplinado era o seu suco estomacal, que poderia muito bem ter se exteriorizado após os rodopios no restaurante, mas não o fez. Prova incontestável da seletividade de sua bílis, escolhia sempre os locais mais limpinhos para se espalhar e adivinhava as opções éticas e políticas de sua dona, recusando misturar-se com a gentinha filadora de bóia do restaurante de esnobes. Sem dúvida o seu estômago era mais elitista do que ela própria.
 

Ainda apoiada ao poste e vendo o mundo girar lembrou-se do milagroso “torradinho” que levava sempre consigo no embornal. Não era nenhum alucinógeno, não se preocupem. Era só uma receita de família que levava imburana, gergelim, ginsen, barbatimão e erva-doce, tudo muito bem tostado em um braseiro para retirar o óleo e pilado em seguida para obter o pó, que ia amarrado em forma de patuá. Uma cafungada só no odorífico balsâmico daqueles extratos naturais e a zonzeira passou.
 

Nesse momento de lucidez que procedeu a embriaguez, luminosa como um raio cruzando o céu noturno e terrível como a descoberta de um novo mundo, uma monstruosa realidade apresentou-se aos seus sentidos. Os rompantes de euforia que antecederam a sua saída do restaurante desembocavam agora em rios de desespero. Um segundo de realidade é capaz de esmagar o indivíduo, e naquele segundo específico e especial, fatidicamente, Alice foi esmagada pela contemplação de nada além da mais verídica e factual verdade: ela estava completamente só. 

Restavam apenas dez quilômetros de caminhada até sua casa, para encontrar o último de seus parentes recém-morto enterrado em uma cova de terra ainda fofa e uma máquina de escrever que datilografava sozinha frases inúteis.

Para não cair no patético de arrancar os cabelos, tomar veneno ou virar freira seu cérebro deu ordem para ir pensar em coisas mais amenas. 



(Da mesma personagem de "Estudos Cerebrais" , "Jantar" e "Fuja")

quinta-feira, 22 de abril de 2010

De volta à raíz do medo




Eu sempre alimentara, desde criança, aquele mórbido hábito de imaginar que o pior sempre estava para acontecer, e fantasiava o telefone tocando para avisar-nos do cadáver jogado em algum beco. Eu tentava simular a dor que sentiria tendo que assistir ao enterro de minha mãe, imaginava o caixão dela baixando na cova. Era esta a visão de justiça que o mundo me inspirava, porque todos os dias nos noticiários eu ouvia crimes horríveis serem relatados e na nossa própria família já haviam acontecido crimes violentos. Na minha recém formada concepção de mundo, os maus eram sempre fortes e conseguiam vencer os fracos. Não havia quem castigasse as coisas erradas, e a única maneira de reverter esse quadro era criar um novo mundo para substituir o obsoleto.

O medo é uma coisa horrível de sentir, porque a vítima sente-se invariavelmente impotente para reagir. Eu sentia uma bolha no peito que se movia conforme eu respirasse, e tinha uma outra sensação, igual àquela que sentimos quando enchemos várias bexigas e ficamos sem ar. Sempre que esta sensação tomava conta de mim, eu apertava um crucifixo de ouro que havia sido presente da minha avó, e implorava a Deus que ele protegesse a minha mãe. Eu estava no segundo ano da catequese, e acreditava em todas as palavras que me eram ditas sobre Deus e sobre a Bíblia. Por isso mesmo, na minha lógica nascente, eu não achava impossível que Deus permitisse a morte da minha mãe, pois, afinal, ele mandara seu filho ao mundo para ser crucificado, e a minha mãe não era mais importante do que o Salvador dos Homens. Classifiquei minha mãe no time dos fracos, e seu oponente no time dos fortes: fatalmente, ela seria derrotada.

O tempo passava, e o medo enveredava por períodos de adormecimento. Nós mudávamos de casa, e os vestígios de que alguém nos vigiasse desapareciam, então, um pouco de sossego se instaurava. Como quando se está no meio de uma guerra, e as balas inimigas cessam de zumbir em nossos ouvidos. São destas tréguas que os homens aproveitam-se para imaginar que o mundo seja um lugar bom, e projetam sociedades utópicas onde reine a paz. Os menos ingênuos enxergam que trata-se apenas de uma trégua, e as guerras sempre reiniciam quando se reestabelecem as forças inimigas. Sempre éramos encontrados, e a bolha voltava a mexer-se no meu peito.

Eu aprendera a odiar, porque já me era insuportável temer. Depois que o ódio brotou, eu não me sentia mais na condição de vítima, mas na de defensora e vingadora. Nas minhas imaginações, sempre que um de nós estivesse em risco, eu surgiria grande e forte para defender-nos. Nada mais me assustava, porque o tamanho da minha raiva me fazia sentir potente como um Hércules que arrastaria o cão de Hades pelo Tártaro a fora, sem necessitar de nenhuma melodia hipnótica da flauta de Orfeu.
É sempre doloroso recordar esse período da minha vida, tudo que houve de bom se apagou, porque as coisas boas são assim, facilmente esquecemo-nos delas, enquanto que as más estão sempre voltando ao centro das atenções.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Ratos


Dividi-as em maços de dez notas amarradas por elásticos, enfiados em pacotes de dez maços de dez. Uma parte no criado mudo, segunda parte no guarda roupa, terceira parte dentro do frigobar, quarta parte no lustre do quarto, quinta parte numa tábua sob o assoalho. Dormi. O barulho do dia transcorrendo lá fora não me incomodava, eram os ruídos internos que iam me arrancar dos sonhos. Umas batidinhas ritmadas sobre o forro, correndo para lá e para cá. Uns encontrões dentro das paredes ocas, esganiçar de fibras sendo roídas por mandíbulas esfomeadas.

O vento empurrava a cortina, revelando o interior do meu quarto às árvores que cercavam a casa. Levantei irritada, batendo forte os pés no assoalho para espantar os roedores, com o cabo do rodo espanquei o forro e as paredes, tentativa de afugentar aquelas pragas domésticas, naturalmente interessadas em roer o MEU DINHEIRO. Amarrei as cortinas e fechei a vidraça, o vento podia atrapalhar a calma do santuário em que me refugiei com meus pertences. Chequei cada um dos esconderijos e voltei a deitar. Em sonho (ou pensamento?) os roedores desciam pela fiação de luz para despedaçar as notas em pedacinhos pequenos que lhes servissem de ninho. O vento arrebentava a vidraça para estraçalhar os maços em folhas verdes voando junto com as amarelecidas folhas das árvores.

Apesar de o céu nublado encobrir o sol, seus raios iam se enfiar dentro das gavetas do criado mudo para incinerar uma a uma as cédulas. Imaginem se o meu dinheiro tivesse o encanto de atrair os ratos, e alguém resolvesse pagar por cada rato que eu matasse? Tornar-me-ia uma exterminadora de ratos, andaria carregando uma enorme gaiola para pegá-los de dúzias em dúzias, fascinando-lhes com uma cédula amarrada a um cordão. Depois esmagaria suas cabeças com um porrete e jogaria os corpos no pântano. Poderia também ajuntá-los em um buraco, regar seus corpos com álcool e incendiá-los. Já vi um ninho de ratos pelados queimar-se, erguendo uma chama transparente e uma fumaça branca, um fogo bonito e calmo, os corpinhos passando do rosa ao preto feito mágica. E o melhor de tudo! Neste sonho ímpar, todos os meus lucros chegavam limpos, sem propina ou impostos aos médicos que tratavam de Alice, e todos os dias eles me diziam: ela está muito melhor, melhor do que estava antes de adoecer, melhor do que quando esteve no ventre da senhora, melhor do que se estivesse no Céu participando do coro celestial.

Mas o maldito ruído recomeçava, das pragas cobiçando os meus rendimentos. Ajuntei todos os maços novamente, enrolados numa única fronha serviram de travesseiro. Construíssem os ninhos com os valores de outra! O rico travesseiro atravessou a tarde e quase toda a noite aparando meu sonhos de inquietação e morte.

domingo, 18 de abril de 2010

FUJA.


O silêncio é impossível. Vivia a dez anos em uma casa no meio de uma plantação, rodeada pelo nada, montanhas e adjacências, somente essa certeza trazia da experiência, o silêncio é impossível.

A mudança para o ermo fazia parte dos grandes planos dos pais de proporcionar uma vida tranqüila para os filhos, viver da terra, ouvir os grilos e os sapos. Uma grande e panorâmica mentira para disfarçar o indisfarçável. Escondiam-se no campo para evitar que um dia a mais na cidade roubasse os últimos lampejos de sanidade da família.

Os circuitos elétricos e aparelhos eletrônicos emitiam ondas que confundiam o pensamento, as lâmpadas e tomadas podiam conter escutas e câmeras de monitoração, os telefones continham radium e causavam tumor cerebral. Os vizinhos dos apartamentos fronteiriços eram agentes da CIA ou da KGB, prontos para invadir a casa e matar as crianças. Toda a comida sempre podia estar envenenada, a água em definitivo já estava. Cada novo dia raiava com uma nova interdição, um objeto inofensivo transfigurado em arma mortal, um velho amigo que pertencia agora às forças inimigas. Cada sussurro disfarçava um universo de possibilidades incríveis e absurdas escondidas no meio da noite, e o silêncio nunca reinava.

Sua mãe era uma mulher mediana, desejava manter a família unida. Em lugar de procurar tratamento para o marido, transformou a todos eles reféns de uma mente perturbada.

Por algum tempo a tranqüilidade de uma vida isolada foi capaz de manter adormecidas as alucinações paternas. Se for verdade que o excesso de informações e ruídos da vida moderna é perturbador, não chega a ser mentira que o recolhimento e solidão de uma fazenda podem fertilizar a mente doentiamente criativa.

As paredes da casa velha escondiam habitantes indesejáveis que choravam e lamentavam durante a madrugada. Era possível ouvir seus passos no forro de madeira e o ranger dos dentes mastigando os ossos de roedores e répteis que dividiam a moradia. Quando a lua era cheia, as lamentações aumentavam ao ponto dele ameaçar incendiar a casa para exterminar os invasores. Talvez fossem fantasmas, talvez gente viva e amaldiçoada a viver e reproduzir-se dentro da escuridão dos vãos das paredes, aguardando o dia em que um chamado os avisasse de que a hora era chegada e os que vivem livres deveriam morrer.

Nunca lhe provaram a veracidade das suspeitas de seu pai, nem se provou o contrário. No meio do silêncio das noites existiam sons inexplicáveis, martelares e rangidos que podiam ser qualquer coisa. O movimento das folhas na plantação sob a ação do vento parecia sempre uma dança secreta, culto prestado pela vegetação ao deus oculto no solo fertilizado.

As deidades escondidas no ventre da terra sentem fome às vezes. Isso se dá porque são elas que alimentam os homens, gastam energia para fazer as plantas crescerem e frutificarem. Elas sugam a energia do sol, bebem a água e frutificam. Todavia, são deidades e carecem de reconhecimento e culto. Depois que a Terra abriu seu ventre e recebeu as oferendas da família (os corpos da mãe e do irmão, falecidos quase na mesma semana de uma febre misteriosa, poupados da intervenção diabólica dos químicos, versão que em momentos mais calmos Alice duvidava) o pai se negou a pisar no chão novamente. Não estava pronto para completar o ciclo biológico da vida e entregar seu corpo à Terra. Mudou-se para o sótão e viveria eternamente.
Alguém precisava alimentá-lo. Não havia mais ninguém para negar os seus delírios. A mentira que não encontrou negativa tornou-se verdade.

No dia anterior foi à cidade comprar condimentos. Viu um homem que tentava se matar pulando da torre de uma igreja, e pessoas que aplaudiam o feito. Viu mulheres que alugavam seus corpos nas esquinas e homens que as admiravam por isso. Viu um grupo de rapazes tentarem matar um único e desarmado jovem porque não gostaram da cor de sua roupa. Viu um homem de longos cabelos ser preso por tentar satisfazer a luxúria de uma mulher solitária. Viu a luz se esconder nas frestas e deixar a escuridão bailar ao redor dos postes como mariposa que carrega no ventre pessoas vivas e medrosas. Viu três anjos alados sorrirem para esconder as lágrimas que não escorriam.

Viu tudo isso e achou que precisava sair mais vezes de casa.

Voltou para casa e encontrou o pai de bruços no quintal da frente. Pressentira a morte e correu para frente da casa, porque não saía do sótão há três anos e não desejava apodrecer lá sem que a filha tomasse conhecimento de sua morte. Ou talvez pretendesse oferecer seu corpo ao milharal, mas morrera no meio do caminho. Alice enterrou o pai entre as covas da mãe e do irmão, sem oração, pois nunca aprendeu nenhuma.

A casa aparentava silêncio, sem o mancar dele no assoalho do sótão. Não havia mais o gemer dos viventes ocultos nas paredes. Mas ouviu o tiquetaquear da máquina de escrever. Subiu as escadas para surpreender o invasor. A velha Remmington enferrujada em cima da escrivaninha escrevia sem ter mãos que a datilografassem as teclas:

FUJA.


Adaptado da estréia de um dos meus personagens de RPG. Retirei a inspiração para este texto de elementos dos contos "A balada do projétil flexível e "Children of the Corn", ambos do Stephen King.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Medo da solidão


Por que as pessoas sentem tanto medo da solidão? Para mim, os momentos de solidão são as oportunidades de mergulhar em minhas idéias e submergir com o que há de secreto delas. É o espaço para a introspecção e reflexão. Eu sinto a necessidade do silêncio e do distanciamento das coisas para melhor apreciá-las e julgá-las.

O contato com as pessoas é importante, lógico, mas os momentos de assimilação também o são. Muitas vezes nos deixamos levar pelas idéias dos outros apenas para não desfeitear, e não nos damos conta disso. Descobrir quem nós somos em separado é fundamental para evitar essa anulação de nós mesmos.

Se eu estiver convicta das minhas idéias e souber me virar sozinha, então ficar só é um estado transitório, não necessariamente uma punição ou um suplício. Estar só é estar livre para escolher qual caminho EU quero seguir. Explorar as minhas preferências como indivíduo, assumir os meus próprios riscos.

Temer a solidão é como temer a nossa incompetência em conquistar novas pessoas para a nossa vida. Como uma idéia recorrente entre pessoas mais antiquadas de que é necessário ter vários filhos para que eles não se sintam solitários quando crescerem. O que deve unir as pessoas não é o imperativo de um laço familiar, e sim a afinidade de gênios, os interesses, as idéias.

Cercarmos-nos de pessoas com as quais não estabelecemos afinidades é uma medida desesperada se imaginarmos o tamanho e diversidade do mundo em que vivemos. Lá fora estão as mentes que entram em consonância conosco, jamais estaremos sós.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

A vida é a dor e o alívio é a morte


A velha senhora chorava alto, sentada na poltrona da sala. Choro fino, constante, convulsionado por gritos agonizantes. Não tinha fome, não sentia frio, as fraldas não estavam sujas, não havia febre, nem ferimento. O choro era a forma da velha cruciá-la, roubar-lhe o sono, trazer irritação aos seus dias, fazê-la arrepender-se do dia em que aceitou nascer daquele ventre. Desejava ser capaz de calar o choro, era incapaz.

Em um pires colorido amassava uma fruta para dar a ela, porque no meio de um pesadelo, não desistia de fazer alguma coisa, qualquer coisa, para frear o sofrimento. Diminuir a luz do abajur, abrir as janelas, ler trechos da Bíblia, beijar, rir, chorar junto. A dor lancinava as carnes idosas da sua mãe, a angústia da pobre mulher macerava a mente da filha enfermeira.

Um riso não mais se ouvia, nem mesmo os assobios que tanto alegravam a casa na época de sua infância. A doença corroera todo o amor que pudesse sentir pela mulher que lhe dera a vida. Não era capaz de expressar carinho por uma figura esquelética, ladra dos ideais e dos carinhos maternais. Odiava-a e ansiava o dia de sua morte.

Sentia a necessidade de cuidar e alimentar, seguia aquela via-crucis sem nenhuma devoção ou paixão. Apenas porque existem leis que proíbem aliviar os que já deviam estar mortos dos suplícios que os mantém presos à vida terrena.

A vida é a dor e o alívio é a morte.

Não rirás dos versos que não te pertencerem ou Elementos

O vazio preenchia o dia.
A solidão alegrava a noite.
E o sol apodrecia os frutos.

O dia estava igual ao sempre.
A noite fora entregue ao vento.
E os frutos maculavam a terra.

O dia e a noite preenchiam o sempre.
O vazio e a solidão apodreciam a vida.
O sol e o vento alegravam os seres.

Os seres vazios preenchiam a vida
- com frutos, e sol, e terra e vento.
A vida alegrava a solidão da noite
E a morte colhia a mácula dos frutos.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Noite



Inúmeras noites enquanto crescia, parou para espiar o céu. O céu não guardava as respostas às suas dúvidas, como qualquer céu noturno posava de ser completamente escuro sem o ser, traído pelas nuvens e luzes da cidade. De suas observações noturnas, aprendeu que as respostas nunca estavam na direção em que olhava, estavam sempre onde não podia achá-las; a verdade é que a vida era uma equação que só valia a pena enquanto não se desvendassem as incógnitas, assim, a linha das respostas prosseguia vazia.

Aquela era mais uma das noites em que olhava o céu para afastar a alma do chão, sentir por algum tempo que a sua vida não era sua, era de outro, os problemas eram de outro, as conseqüências e decisões pertenciam a alguém que não a sua própria pessoa. Por infelicidade, esse fingimento nunca se sustentava por muito tempo, entendia logo que a fantasia era excessivamente agradável para se aproximar da realidade, não enganava por sua falsidade, faltava nela a veracidade desagradável do real. Fingir que não existia a dor não a curava.

A última vez que olhara o céu apenas para achá-lo bonito estava perdida em sua memória, junto de outras sensações agradáveis que só nos alcançam uma vez, jamais se repetem, acontecem com o único objetivo de nos fazerem sentir falta delas e buscarmos por sua repetição. Os momentos agradáveis existiam para nos fazer sofrer com sua raridade.

Já fazia tanto tempo que o céu não era simplesmente o céu e o vento simplesmente o vento. Agora todos os elementos da natureza estavam conspirando para reavivar as suas frustrações. O vento soprava por toda a parte para deixar claro que era capaz de ir a qualquer parte. O céu era uma permanência imutável para que os insignificantes seres mutantes abaixo dele o invejassem e espiassem. Não sabia explicar a qual dos dois desejava assemelhar-se.

Era noite, o dia forçosamente renasceria lá fora. Em seu íntimo, seria sempre noite. Não para utilizar o contraste escuridão e luz, era noite porque os seus sentidos jaziam adormecidos, indiferentes aos apelos recebidos. Um sorriso de agradecimento, um pedido de desculpas, um suspiro de ansiedade, tudo ressoava opacamente em seu côncavo e morria antes de surtir algum efeito. Era noite, as reações ficavam agendadas para o amanhecer. Era noite, o negrume em sua alma empalidecia todas as cores ao redor. Era noite, as emoções atrofiavam pelas passagens trancadas e estreitas dos seus subterrâneos.

A noite não apenas ESTAVA em sua vida, temporariamente estacionada para aguardar algo vindouro. A sua vida ERA uma constante e opressora noite, um véu dividindo o seu interior do resto da existência; constituía a sua essência indecifrável e silenciosa.

Todos os barulhos estavam presos do lado de fora, sob a redoma havia somente o ruído das moléculas de ar se movendo e carregando as partículas de poeira que atravessavam multicores por entre os prismas da luz indireta que lá chegava. Os ressentimentos também lá estavam, vaporizados e condensados nas paredes de suas cordas vocais.

A noite invadiu a sua vida e prometia permanecer.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Visão cega


Muito tempo em solidão torna a pessoa mais e mais solitária, porque em seu caso, a solidão era uma forma de manter intactas as suas lembranças e seus hábitos, afastar-se de contato humano verdadeiro formava uma litania em sua própria homenagem, um modo de sacralizar-se, evitar que outras pessoas conspurcassem o seu íntimo com a tolice vã das gentes.

Explique-se que não foi uma figura saltada de páginas oitocentistas, não se refugiou nos campos bucólicos, não guardou castidade ou cultivou a tuberculose, não se envenenou com a bílis negra dos folhetins ultra românticos, tampouco suspirou por encontrar uma alma gêmea. Embebeu-se da solidão moderna, sentindo-se só em meio a multidões, falando muito sem jamais dizer nada de verdadeiro, tratando com os outros sempre assuntos que não lhe interessavam mais do que a cor dos cadarços de um João-ninguém.

Deixou crescer os cabelos até a metade das costas e os tratava com exageros cosméticos, ouvia dia e noite música alta de batidas monótonas e metálicas, que nada comunicava ao cérebro, mas fazia vibrar seu corpo. Intoxicava-se com bebidas coloridas, estrangeiras, para negar que se satisfaria com o álcool nacional. Bebia apenas para provar ao mundo que era capaz de beber, pois não sentia nenhum prazer com isso, a bebida em lugar de turvar os sentidos, aguçava-os, fazendo com que prestasse maior atenção na venialidade das pessoas ao seu redor, desprezando-as com mais força.

Mais crescia o seu desprezo pelos outros, maior se tornava forte a sua autoconfiança. Ansiava viver em um mundo em que não houvesse ninguém além de si. Não um mundo povoados por réplicas, mas um mundo de uma pessoa só. Com o sol nascendo e se pondo para si, os rios correndo por si, os pássaros cantando somente para os seus ouvidos, a vida brotando e perecendo em sua honra.

Perdoava, então, os outros viventes por suas existências incômodas, e dignava-se a sentir piedade deles. Afinal, um mundo somente seu era exigir demais.

E naquela manhã se deparou com a inconveniência de dividir o mundo com outras pessoas: precisaria pedir ajuda para realizar uma tarefa. A peça do carrossel do parque era demasiado pesada e grande para ser movida por uma única pessoa. O uso de polias e cordas não bastaria, pois o tempo demandado para erguer um apoio seria desperdiçar tempo e material. Faltava-lhe, inclusive, a chave correta para os parafusos que prendiam a peça ao todo do brinquedo. Outra pessoa seria indispensável. E a pessoa mais indicada seria o homem de rosto desfigurado.

Existiam alguns motivos para que detestasse a idéia de pedir auxílio ao outro. Poderia alegar que seu povo foi acusado injustamente de bárbaro por interesse estrangeiros em usurpar a terra de seus antepassados (mais ou menos o que houve na América, gente inculta e sem alma não precisa das riquezas da terra, vai usar como? Só para alimentar seus zilhões de filhos?); poderia ainda dizer que a gente da qual o desfigurado descendia dominavam o poder, criaram e mantiveram leis que desprivilegiaram e boicotaram a população nativa em prol dos colonizadores, promovendo um estado de miséria e atraso que até hoje mostra suas marcas nos índices de desenvolvimento humano destes povos. É claro, para a lógica dos colonizadores esse devia ser o curso natural das coisas, subjugar os supersticiosos e atrasados em benefício dos desenvolvidos e evoluídos, da nação berço de filósofos, cientistas, artistas e personalidades que marcaram toda a história da humanidade. Que fiasco! O mundo inteiro baixando a cabeça para o gigante decadente. Nosso povo é tão desorganizado, tão bárbaro, tão inculto, que somos dos poucos povos no mundo capazes de resistir politicamente ao imperialismo que se arrasta e atravessa o finado século XX, e o que os civilizados fazem com nossos emissários, representantes dos ideais libertários? Encarceram como presos comuns, negam o privilégio de presos políticos, acusam de terrorismo. Assassinatos em off, ocupação militar, direitos políticos cerceados, é esta a democracia pela qual o mundo se bate. Então partimos para o terrorismo político e nos chamam monstros. Monstros? Nosso terror pode ter embrulhado muitos estômagos sensíveis, abismado muitas associações cristãs de moços e moças e todo este choque que se abate sobre as pessoas quando enxergam até onde é capaz de ir a raça humana. Mas acima de tudo, nosso terror serviu para nos fazer ouvidos, nos tornou fortes. A gratuidade do terror, esta sim é patética. Nosso terror foi libertário.

Mas nada disso contava, logicamente não, pelo contrário. Porque por mais que o destino dos povos influísse no julgamento entre os cidadãos, acima disso, a verdadeira razão para sentir repulsa pelo desfigurado era muito mais simples. Detestava a idéia de precisar dele para algo, porque sentia-se superior a ele. Despertava-lhe pena por sua condição humilde e aquela circunstância infeliz obrigava-lhe a pedir auxílio ao homem.

Entrou no quarto de piso molhado com receio, chamara através da porta pelo lado de fora sem resultados. Obrigou-se a entrar, a encarar a miséria do outro enrolado em uma coberta vulgar que pouco tapava o frio, e obrigou-se a acordá-lo com uma sacudidela.

O outro sobressaltou-se, e talvez levado pela invasão inopinada, ou pela reciprocidade por sua inimizade e asco, avançou em fúria cega. Mas suas fúrias possuíam uma visão perfeita, esquivou-se do arremate por milímetros e despregou um chute nas costas que o tolo deixou desprevenidas. O desfigurado tombou dentro da poça de água e os dois olhares se encontraram. Um espectador atento veria piedade e pesar nos olhos metálicos da criatura solitária. O que outro enxergaria dependeria de sua mente perturbada.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Prisioneira do medo



E havia o medo. À noite, sozinha com o menino, acordava amedrontada com os ruídos das árvores e as luzes dos carros passando na avenida próxima, sentia que não estava sozinha, uma presença gelada, uma presença que a observava e a cobiçava, sim, sentia que alguma coisa dentro do escuro a desejava. Um estremecimento entrava pela planta dos seus pés e rastejava joelho acima, arranhando pelo roçar de uma coxa com a outra, repuxando o baixo-ventre, apertando os seus pulmões. Sem ar (seria medo de respirar?), os músculos começavam a doer pelo esforço de manter-se imóvel, sentia cada fibra da roupa sobre seu corpo, a garganta secava, os olhos ardiam sob as pálpebras, os lábios se apertavam, a língua parecia enorme para caber dentre os dentes, os dentes pareciam soltos e os mamilos formigavam doloridamente. Passavam-se horas nesta imobilidade exasperante, sem que criasse coragem para mover qualquer parte do corpo, sem que levantasse para certificar se a casa estava vazia, sem que averiguasse o sono do filho que dormia no quarto ao lado.
Nada disso possível. Nas noites em que aquela presença terrificante não invadia seu corpo, o filho chorava toda a noite, não havendo chás ou consolos que o calassem. Dormia as noites em que passava em claro no tapete ao pé da cama do filho, tremendo de frio, marcando a pele morena com marcas do chão duro, resfriando-se e ficando febril. E a continuidade daquela angústia era uma certeza desesperadora, nenhuma saída para fora da própria vida. Apelava para todos os paliativos morais e farmacêuticos da modernidade, nenhum resolvia em nada a sua dor. Mas aquele passo a levaria além, muito além dos limites da prisão imaginária que nos retém passivos. Seria um passo na direção da liberdade. O resto dos dias seria de liberdade e solidão, nada mais de sonhos e pesadelos, somente o vazio da existência sem reflexão. Caminhou então para o precipício de seus dias e mergulhou na calma da incerteza plena.
(imagem: Angustia, Salvador Dali)