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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sermões

Não se deve esperar das pessoas mais do que a sua essência recoberta por grossas camadas de hipocrisia. Certos indivíduos, todavia, desinteressam-se de esconder suas essências, conscientes das conseqüências disso. Pode-se dizer que o padre M. fosse um destes seres conscientes de si, convicto o suficiente da sua própria identidade para não precisar chafurdar na lama do “tudo é permitido”.

Jesus andou entre as prostitutas e os cobradores de impostos? Sim. Ele pregou às suas ovelhas que se comportassem como prostitutas e cobradores de impostos? Não. Jesus disse “Amai ao próximo como a ti mesmo” e também disse “o corpo é o templo do espírito”, Ele não disse para amarmos o próximo em sua promiscuidade ou erro e não disse para seguirmos os desígnios do corpo e ignorarmos os desígnios do espírito. Jesus não disse para os homens irem às putas e amá-las em sua devassidão, ele disse para amarmos os devassos como amamos aos nossos filhos, irmãos, pais. Quem vê um filho cair na devassidão e o aplaude? Acaso um bom pai não é aquele que procura guiar seu filho pelo caminho da retidão? 

É certo que o velho padre M. não era a favor de um Estado onde se aprovassem Leis que restringissem o direito das pessoas fazerem suas próprias escolhas, porque a Deus não interessa a obediência forçada e hipócrita. A liberdade que Deus nos concede é a liberdade para seguirmos por caminhos retos e colhermos os bons frutos da nossa bondade ou a de seguirmos pelos caminhos tortos e sofrermos com o amargor de nossos maus frutos.

Por isso não são censuráveis as censuras do velho padre M., são frutos de seu amor pelo próximo e seu sofrimento pelos que são causa de seu próprio infortúnio. Feliz é o homem que não é causa de seu próprio infortúnio, este pode se considerar inocente.


(Trecho de um de vários sermões que escrevi para um antigo personagem padre. Mal creio que a cristandade sobreviva sem mim.)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quanto mais se reza...


Vamos ser francos? Rezar resolve? Se resolve, rezem aí por mim, que eu mesma já desisti. 

Os psicólogos que se rebolem em cima de seus tamboretes por lerem esta obviedade proverbial das minhas emoções em fuga: o único remédio deste mundo é estar fora dele. Eu me lembro muito bem que este era o lance dos românticos, e quer saber? Estavam certíssimos: com este mundo, a solução é outro. Outro, outro mundo, entende? É por isso que religião faz tanto sucesso. Quer coisa mais óbvia do que constatar que o mundo é uma droga, e a solução é fugirmos?!

Agora, não me perguntem se alguém virá nos buscar, eu não ando pondo banca de missionária ou coisa e tal. Aliás, se me perguntassem, eu arriscaria dizer que ninguém vem nos buscar, no máximo, vejam bem, no máximo... Já tem outra raça pro nosso lugar. É claro! Por que outra razão as profecias religiosas nos ameaçam com o fim deste mundo, a não ser como aviso prévio de que Deus está criando coisa melhor para chamar de sua "Criação". 

E podemos culpar a Deus por isso? Eu não me atrevo! Ele está é muito do certo. Neste mundo, em que ninguém mais vale uma pipoca, em que todos querem só garantir o seu, em que vagabundo veste beca de doutor e manda dar surra em operário, em que todos acham que estão certos e ninguém assume que está errado. É difícil advogar a nosso favor, humanos irmãos meus, é difícil.

O mundo em que vivemos anda de tal forma corroído, que parece até o mesmo do qual os antigos reclamavam, e Deus fez o favor de afogar no dilúvio. E aí, cadê o dilúvio novo? Está demorando.

Pode ser, repito, pode ser, que esta minha sede diluviana venha do fato que eu venha lidando com filhos da puta demais ultimamente. Mas se até Jó se lamentou, quem sou eu para não me lamentar? 

Que venham os fins, pois estes meios já me cansaram demais.