Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador poesia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Poema de um Minuto

O desafio é escrever um poema
dentro de um minuto.
Parece difícil.
Acrescento as variações de sempre:
um poema que não fale de amor,
para ficar sempre fora de moda.
Não pode falar de flores,

porque são coloridas demais.
Gotas de sangue pra temperar.
Pronto.






Pós-escrito: A borboleta é o que brota do sonho quando este se incendeia. O resultado são nuvens de borboletas cinzentas e fugidias.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A casa da morte



Pra encher a barriga
voltava do mercado com sacolas recheadas de verduras brancas.
A médica recomendava usar calcinhas brancas e passá-las com ferro branco.
Pra evitar as doenças brancas que a chuva traz.

Mas o destino branco não falha,
desaba branco sobre os telhados sem cor.

É inverno e a neve e o frio chegam como sempre, negros
Secam os olhos dos velhos chorosos,
de lágrimas brancas mortiças,
e as levam para o norte na direção da morte.

A casa da morte, velha morada úmida, cercada de raízes ocas
abriga a todos os desgarrados da vida,
a terrível e malvada que a ninguém perdoa.

Abriga também as lágrimas brancas, coletadas pela neve sempre negra que veio do sul.

sábado, 15 de junho de 2013

Quem tem vintém?

Quando a barriga dói
a garganta chia
seu grito de ódio
seu lema de ordem
e as cabeças explodem,
os braços sacodem
seus socos no ar.

Quem tem vintém?
Quem tem vinte?
Vinde companheiros,
vambora lutar.

Cacetete desce
o pau sacode
sobre as costelas
que querem brigar.

Capacete verde
sangue-vermelho-da-morte
a fome roxa do povo a chorar.

Olha a mãe que cai
sobre o filho grogue
é mãe de um maio em junho esmaecido
brigador de ombros caídos
que esqueceu como é reivindicar.

E a platéia agradecida
aplaude o espetáculo que não pode parar
é show da vida (?)
do telespectador otário que não sabe brigar.

Só sabe chiar, só sabe chiar
barriga vazia, da fome roxa

Não sabe gritar, não sabe gritar
cabeça vazia de sonhos ocos

Capacete verde do sangue-vermelho-da-morte
E a triste mãe de maio em junho a chorar.

terça-feira, 14 de maio de 2013

o poetar da poetisa

Não sou poeta
Não quero ser poeta
Eu sou prosa, sou marcha
Sou fila, sou baia
Eu sou, no máximo, com ressalvas
poetisa.

Ainda que eu fosse A poetisa
eu não seria cantora
nem cultora
nem coreógrafa de fantasias sexuais
nem jardineira de flores que não dessem frutos
nem musa amorosa

Se eu fosse poetisa
meu ofício seria poetar
não ser musa.

Se eu fosse poetisa
queria ser conhecida como
A maldita
A boca do inferno
A inconveniente
Vate da discórdia
Vate dos diabos
Profeta da maldade
Língua de duas pontas
Língua de navalha
Voz do fim do mundo
Voz do caos
Amazona da destruição
Égua sem arreio
Cão sem dono
Anjo da perdição
Mão da Justiça
Mão do Carrasco
Corda da forca
Cobra Cascavel
Cobra patrona
Cobra do chocalho
Arco da vingança
Luva da execução...

e se assim não for, não serei eu poetisa
preferirei continuar professora de últimas letras
corrigidora de redações mal feitas
lambe tinta sem importância
e somente assim serei eu poetisa

venha o ódio
venha o rancor
venham as pancadas
matem a poetisa
crucifiquem!

mas o meu canto, o meu verso, o meu lamento, a minha lamúria, o meu dizer de maldição, o meu conjúrio, a minha confissão ao pé do cadafalso, as minhas últimas palavras, os meus últimos suspiros, neles, com eles, eu juro, eu vos destruirei.... com a verdade do meu coração.

domingo, 7 de abril de 2013

Genealogia

Eu sou filha de Zenilda
que é filha de Maria,
que é filha de Almerinda
que não soube de quem é.

Nessa sina de enzicas
Das três só uma foi rica
Até casar com um bode
que cheirava rapé.

Só maridos,
Almerinda enterrou um,
Maria enterrou dois,
Zenilda enterrou três.

De filhos foram mais covas,
que a fome é muita,
a água é pouca,
a terra é dos outros,
o dinheiro é dos homens.

Mas a Graça, essa é de Deus.

Miro-me em seus espelhos
de escassez e precisão,
por isso não fio a homem,
não empresto a mulher,
não crio filho dos outros,
Toco a vida como Deus quer.

Quando quero dar a entender aos burros
eu bato na cangaia, e se meu cavalo cansa
eu o deixo descansar.

Do meu homem eu ando atrás,
pois no meu sistema de frete,
a carga vai amarrada na frente,
pra detrás eu ditar o norte.

Sou assim e não me aprumo
Não ando em estrada sem rumo
Eu olho onde amarro meu jegue,
pra depois não me arreliar.

Pois sou filha de Zenilda de Maria de Almerinda
Não aceito nome de linda, nem de flor, nem de cheiro
Faço as contas e mando às favas,
Amarro as minhas trouxas e pego a estrada,
Sou mulher pra ver o mundo inteiro.


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Nascimento



Nasceu por acidente após uma grande explosão. Não havia ao certo qualquer planejamento para a sua acolhida, ela própria não sabia o que esperar daquela nova vida, mas nascia mesmo assim, sem convite, a fim de alegrar os ares.

Se avisassem com antecedência teria se arrumado mais, estava nascendo muito bagunçada. Sem pompa, sem circunstância, nascendo assim feito filho de pais pobres. Isso não foi desculpa, sorriu. Por que não sorriria? Quem nasce não o faz por fé e esperança? Não é a vida uma loteria sem sorte, só sina?

Fizessem festa, pois estava nascendo. Soltassem foguetes, pois hoje era o seu dia, e maior do que este outro não haveria. Cumprimentou os pais, agradeceu ao médico, e saltou num pé só até a saída. Urgia olhar para o céu que tomava por padrinho, e satisfeita constatar que este céu daqui era azul. Engraçado o céu ser azul.

O que viria depois não poderia saber, pois ainda não viera. Mas o seu coração estava cheio de esperanças e livre de qualquer medo, era jovem demais para entender que havia algo a se temer.

Nasceu pura como um bebê.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Trova I


Aprendi esta história, com pessoa nada santa
Que me disse: “Amigo, vou lhe contar este caso,
Para o acaso de algum dia, nas tristes carreiras da vida
Encontrares o Inimigo, longe de terra santa
E mesmo sem uma lança, fique livre do perigo.

Antes que nosso Senhor penasse na Cruz por nós
Andava o Diabo solto, fazendo as suas lambanças.
Sem regra nem temperança, erguia o Homem pelo cós
Fosse noite ou fosse dia, sem feriado ou descanso.

O Homem clamou ao Céu por maior reconhecimento,
Prometendo em troca da guarida oração e ornamento.
“Tá bem”, respondeu o Emissário ao humano requerimento.
“Decreto de hoje para frente o seguinte regimento:

Proibidos estão os demos de atentar no turno diurno;
Estabeleço o clarão do dia como repouso do Avesso.
Fica assim, por direito adquirido estabelecida a carga horária
De tentadores e atentados, estando sujeitos os desrespeitosos
Ao castigo justo e divino Preço”

E assim foi e seguiu sendo por muitas eras:
O Demo escondido e reinando nas Trevas,
O Homem crescendo e multiplicando na Terra,
E Deus vigilante espiando do Céu.

Mas o Homem,  criado por Deus em má hora,
De tanto aprontar e fazer marolas
Fez o Cão gargalhar  nas profundas do Inferno
Fez a Deus de desgosto chorar no  Éden.

As lágrimas da divindade despencaram diluvianas
Arrasaram babilônias e babéis desprevenidas,
Afogaram bons e maus,  pouparam só Noé
E a sua Arca da Aliança.

Ressabiado, prometeu Deus jamais punir os homens
(com afogamentos). Da próxima seria fogo,
Praga, Guerra, Fome, Peste
Tsunami ou crack da Bolsa.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Gostaria de dizer...

, gostaria de dizer, enquanto há tempo, que não há tempo. Não vejo positividade em nada, aliás, vejo sim, pontos negativos em tudo. O cinza é a cor de todas as coisas e as pessoas vão se pintando de um marrom bosta permanente. Retirei minha fé de todas as esperanças vãs; excluí meu nome das listas de boas festas dos amigos; não respondo nem os bons dias, nem os boas tardes, nem as boas noites, porque não há bons dias, nem boas tardes, nem boas noites.

Iluda-se quem quiser, eu não me iludo, não há futuro, só há essa droga de presente, negativo em tudo, sem perspectivas, repetitivo, povoada de gentinha que acha saber muito e na verdade não sabe de nada. NINGUÉM SABE DE NADA. Eu faço parte desse ninguém, e mais, nem quero passar a saber. Deixem-me em paz, eu não quero saber. 

Cuspo dos meus ouvidos os seus sonhos bestas, as suas alegrias bestas, os seus sorrisos bestas, os seus planejamentos bestas. Cuspo e cuspo outra vez. Esqueça-se de mim. Esqueça-se de todos nós. De vocês todos eu já me esqueci, de vocês, de você, de mim, de todos nós, eu já me esqueci. Já acabou. É finito. Não tem eternidade, não tem continuidade. É negativo. É nulo. 

Era isso.

sábado, 3 de novembro de 2012

Chuva de Finados

A sequidão durou o ano inteiro
Sol rachando a moleira do povo molenga.
Povo ingrato, povo fraco
Povo sem vontade de trabalhar...

- Êpa! Sem vontade de trabalhar, não!
Poetinha metida a besta, botando o nariz onde não lhe corresponde!
Desde quando, desde onde o povo não tem vontade de trabalhar?
O povo trabalha sim e trabalha muito.

Trabalha da madrugada ao deitar do sol,
trabalha um monte e tira pouco,
e ainda recebe esculacho quando reclama.
Pro patrão o povo não pode cansar,
não pode chorar,
não pode resmungar,
não pode sindicalizar
ou vira sem-terra.

Preguiçoso é a senhora puta que lhes pariu
o povo faz é milagre, vive de migalhas
mora onde ninguém mais quer morar,
tira leite de pedras, carne de pedras,
ovos de pedras, mel de pedras
e faz isso com o intuito SÓ de sobreviver.

Porque se fosse para depender
da misericórdia ou da bondade,
ou dos direitos humanos
ou das negociações de paz
ou dos acordos bilaterais
o povo, meu povo, se danava.

Só o que o povo pode esperar é a chuva,
e esta não é governo nenhum que manda,
quem manda é o céu
e este ano o céu fez esperar o ano inteiro
e deixou só para chover nos Finados.

Finados já os rebanhos,
Finadas as plantações,
Finados muitos sonhos,
Finadas rebeliões
por falta de chuva.

Mas o que importa?
O importante é que choveu.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Poesia apocalíptico-moderna ou As bananas



O poeta era professor,
se chama Antonio Carlos Viana,
vendia aulas na escola,
mas não conseguia poetar.

Daí ele largou o magistério
para vender hot dog
e acabou vendendo contos
para a Playboy.

E fez fama, se tornou famigerado.
Assim nos disse professor Paulo André.

E eu? E eu?
Também sou professora
mal paga, de metro,
rima e versos poucos.

Será que pra ganhar fama
terei que vender bananas na feira?


quinta-feira, 22 de março de 2012

Humana solidão





Pague amor com ódio,
atenção com indiferença,
oração com pragas,
dedicação com desleixo.

Esmague a mão que lhe estendem,
arranque os ombros oferecidos,
esmurre as flores ofertadas,
pise em túmulos recém cobertos.

Não chore pela vida desperdiçada,
Não lamente os amigos perdidos,
Segue pelo caminho estreito-

- dos sonhos minguados,
das queixas caladas,
das lembranças esquecidas.




sábado, 22 de outubro de 2011

Cantiga velha

Opa, opa, opa
a poesia virou uma zorra.
Nhão, nhão, nhão
mastigo poesia com feijão.


Ninguém lê mais ninguém lê mais
só os letreiros dos comerciais.


-Mãe, me compra um livro!
-Não somos ricos, menina!
Chora chora chora
até a hora de ir pra escola.

Não risca o livro, não dobra o livro
o livro não é de comer.

O livro é bicho papão
só falam dele na televisão.

Cantiga do recreio:
"Fui na biblioteca buscar um livro e não achei,
mas achei na internet um resumo e aproveitei."






domingo, 25 de setembro de 2011

Sem sentido

De menina não aprendi a trançar
Rezar me ensinaram, mas eu esqueci
Régua e compasso nunca soube usar
Eu não leio mapas ou olho estrelas
Faço a travessia sem guias nem nortes
De olhos fechados para melhor olhar para dentro
Surda às buzinações e ricochetes
Sigo as insinuações do pensamento.

O Todo e a Parte

Do todo entrevejo a parte
que se parte no manuseio,
em pó tudo é mais concentrado.

O que é grande demais não se vê de perto.

Afasto, me perco, nunca me acho
só na mente vizualizo a meta.

Ave, só luto!

Em absoluto
na vida só luto.

Entre o verso e o avesso
sigo resoluto.
Contra o metro e a prosa
a parede e o muro
e o nome da rosa
e o conto não conto,
luto e reluto.

Assento o concreto em bases solúveis.
Desmancho as tramas das redes onde sonho,
ao invés de dormir 
eu luto.





sábado, 20 de agosto de 2011

Ah!

Ah, se eu fosse!
Se eu tivesse
Se eu pudesse
Se eu quisesse
Se eu soubesse...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um Zé

De onde vêm os Zés?
Eles vêm de qualquer parte
especialmente de onde ninguém espera que saia um Zé.

Nasce um, nasce dois, nasce três e.... zás
dá de nascer um Zé.

Porém, o Zé é necessário, sem o Zé o país não anda.
Ele é ecológico, ele é econômico, ele é ergométrico, ele é aerodinâmico.
Sem Zé nada funciona.

Matem um Zé e ganhem cem anos de urucubaca.
Case com um Zé e é marido pra vida toda.
Nasça de um Zé e compartilhe do sangue da raça.

Viva o Zé! Sobrevivam os Zés!
Libertem os Zés!

Avante Zé!



(Repostado para comemorar o aniversário de um Zé muito querido)

sábado, 11 de junho de 2011

Visitas


O sol invade o biongo pelos vãos rachados das telhas. Cozinha os miolos calvos do corpo caído no chão. A poeira levanta com o sopro do vento que passeia na saleta, levanta e cai devagar e torna a levantar. É poeira luminosa, saudosa da vassoura, alegre pela luz visitadeira. O olho acompanha a luz e a poeira, só ele mexe no corpo, a vida se escondeu nele. O olho sonha com a chuva. A chuva matará a poeira, esconderá o sol e molhará as telhas. As telhas inchadas vazarão a chuva para dentro da saleta onde o olho se esconde e espera a hora de lavar das vistas a poeira.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Novamente o silêncio

O silêncio novamente invade o quarto.
Revira as roupas e rasga os lençóis.
De silêncio precisava em horas marcadas.
Mas não o silêncio destruidor de paz.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Fabuleta cruel ou O primeiro verso para vos apresentar o terreno que comprei no céu

A velha gorda e mentirosa que falava mal de todos no seu caminho ficou com a língua roxa e morreu.