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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Manhã

A manhã não lhe trouxe nada além de vazio. Imenso vazio, impossível. Melhor seria sentir o nada, essa inexistência de sentir. Sentia, porém, o vazio, uma saudade da inconsciência dos sentidos. Seus sentimentos dispensavam explicações, doía. A alma doía, o peito doía, carregava o peso de um morto sobre a cabeça. O bolo incompreensível obstruía-lhe a garganta.
Não queria se levantar, nem ali na manhã recém-nascida, nem nunca. Dormir vinha sendo o único alívio diante da angústia intolerável dos dias. Perdera o amor por si, a vontade de comer, a expectativa de um futuro. Mexia-se porque ao redor lhe requisitavam. Algumas coisas ainda dependiam de um movimento seu, aguardava o momento em que se entregaria a imobilidade total.
A necessidade, essa mãe de todos os infortúnios, obrigou-lhe a voltar ao mundo dos vivos. Precisava trabalhar, bocas dependiam dos frutos de seu trabalho. Ainda que não se prendesse afetivamente a nada, a obrigação impunha-se sobre o seu ânimo.
A procissão diária das pessoas zumbi arrastava-se ao seu redor sem despertar-lhe dó ou raiva. Infelizes, todas as pessoas do mundo pareciam-lhe redondamente infelizes sem futuro. Como não percebiam? Estavam cegos pela ilusão de um bônus salarial, de quilos perdidos aqui e ali, de roupas novas e manias caras. Tudo aquilo pesava muito pouco para o alívio de sua dor. Se ao menos o mundo inteiro lhe deixasse em paz, talvez, quem sabe, talvez, pudesse pensar.
A reflexão já lhe salvara diversas vezes de abismos. Reter as palavras e tecer as ideias, deixar passar a tristeza e a mágoa, remoer no silêncio as milhares de possibilidades de se ver livre dos problemas. Mas o silêncio.... ah, o silêncio! O silêncio era impossível! Havia sempre alguém por perto para ligar uma TV, arrastar um móvel, passar pisando forte pela calçada em frente.

Apesar de tudo, alguns sons lhe acalmavam. Os cães latindo e uivando de madrugada, o ruído longe dos caminhões passando na rodovia. O vento assobiando no farfalhar das folhas. O zumbido surdo da torre de telefonia fazendo fundo ao borbulhar da água enchendo o reservatório do banheiro. Sons noturnos. Tudo o que se perdia com a volta da manhã. Ensolarada e lotada de movimentos desnecessários chegava novamente a manhã, e com ela, nada além do vazio.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Era uma vez um burrinho


Ana Castro 

Era uma vez um burrinho que nasceu feio feito a necessidade. Não daquelas necessidades bobas, de comprar Play Station 2 ou bicicleta de marcha. Necessidade mesmo, daquelas que você passa quando não chove e o rio da sua cidade seca e você precisa tomar água de uma cacimba. O burrinho foi criado no interior, era gordo, ao ponto de ninguém perceber que era feio. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. O burrinho pensava que tudo poderia ficar pior se não houvesse mais a carga, porque o dono lhe dava comida só por causa da carga. Ele quebrava as costelas carregando as pedras que o dono mandava e o dono retribuía com a comida. Não se importava que cada dia a carga ficasse mais pesada e a comida mais pouca, contanto que houvesse carga, pensava, haveria comida. E água.
Na cabeça do burrinho, penso eu a narradora, esta devia ser a vida de todos os burrinhos, ele havia nascido para ser um burrinho cargueiro, que comia devido à bondade de seu dono. E à carga.
Mas o mundo, como todos bem sabem, não se compõe somente de burrinhos e cargas. O mundo é grande e cheio de perigos e surpresas. Um dia parou de chover, quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos. Dizem que foi por causa do desmatamento das matas ciliares, outros dizem que os gases liberados pelas vacas foram tantos que o buraco da camada de ozônio se tornou grande demais, a temperatura da terra mudou e o clima junto. Aí parou de chover. Quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos.
Sem chuva, ninguém mais precisava de pedras. O dono do burro perdeu o emprego das pedras. Ele vendeu o burro para dar de comer aos filhos, e o burrinho trocou de sina. O novo dono era dono também de uma charqueada. Lá se foi o burrinho, triste, preso na carroceria de um caminhão velho, junto com vários outros burrinhos de todas as cores e procedências. Iam para charqueada, que como todos bem sabem, trata-se do local onde se entra burro e sai-se charque. Ali, na estrada cumprida, o burrinho aprendeu que todos os burrinhos são iguais, dividem a mesma sina de animais tristes, explorados, com mais carga do que comida. Aonde iam, não sabiam, mas iam.
Chegaram. Viagem sem água, nem comida, nem sombra. O motorista manobrava para estacionar próximo à rampa de acesso. Os urros dos burrinhos incomodados formavam uma sinfonia triste de doer coração de quem ainda leva o coração no peito. Perguntas sem resposta pipocavam na mente do nosso burrinho: onde estamos? Por que não nos deram água? O que vai acontecer conosco? O novo dono precisa que carreguemos pedras? A que horas nos darão palha? Todas as respostas deixaram-se ficar sem respostas enquanto o fundo do caminhão se aproximava lentamente da entrada do matadouro. Devo aqui dizer que o destino certo do nosso burrinho e de seus companheiros burrinhos teria se cumprido não fosse a intervenção de uma força maior. Um decreto presidencial ordenava o fechamento de todas as charqueadas do Estado e a destinação imediata dos equinos, muares e asininos para um novo Ministério que acabara de ser fundado: o Ministério de Apoio Mútuo às Emergências e Desastres Naturais. Parece-me que esta nossa história ambientada em um futuro alternativo caminha para um desenlace incerto. O que não é de todo mal, pois o destino de todos nós é incerto até que se concretize.
Os burrinhos desceram do caminhão 45km a frente, equilibraram-se pela rampa bamba até um curral abastecido com água, palmas, palha e sombra para todos. No meio da noite, uma luz forte foi acesa e homens usando luvas de proteção vieram ao curral para borrifar um líquido sem cor nos burrinhos, passaram pomadas em suas feridas e trocaram as ferraduras rachadas. Os outros burrinhos eu não sei, mas o nosso ficou contentíssimo, ele entendia que estavam recebendo tratamento cuidadoso, isso só poderia significar que seriam novamente empregados. E foram.
A grande seca não atingiu apenas o negócio de pedras do seu antigo patrão, mas todo o país. Cidades com bilhões de habitantes que se amontoavam em prédios altos como as nuvens morriam de sede e fome, não havia água o bastante para gerar energia elétrica que movesse os motores de sucção de água do subsolo. O combustível fóssil se exauriu em poucos meses para aquele país que dependia de sua agricultura, agora impraticável devido à falta de chuvas (dizem que o combustível alcançou preços proibitivos, dizem até que o governo preferiu vender o combustível aos estrangeiros na mesma situação a usá-lo com seus cidadãos, mas essas histórias eram rapidamente sufocadas pela urgência do trabalho duro). No lugar de braços mecânicos e motores bebedores do óleo negro mais caro do que ouro, foram colocados braços, lombos e pernas de homens, mulheres e todo o tipo de animais de tração. O transporte era feito por animais e pessoas puxando outras pessoas, algumas vezes as pessoas e animais iam puxando as carcaças dos antigos automóveis, carregando outras pessoas ou mercadorias. Os animais giravam imensas rodas de moinhos que içavam do subsolo água para matar a sede, carregavam água salobra do mar para tanques de dessalinização e carregavam o refugo para piscinas artificiais onde se criavam peixes e outras criaturas marítimas das quais nosso burrinho nunca ouvira falar. Nas cidades, não se viam mais ônibus ou caminhões, muito menos carros pequenos, viam-se bicicletas, carroças, enormes carroças assemelhadas a barcaças sendo puxadas por 5 parelhas de touros. E pessoas, muitas pessoas, que preferiam caminhar à sombra dos edifícios colossais ao invés de cozinhar dentro deles sem refrigeração artificial. O comércio mudara rapidamente, em uma semana, o burrinho e seus companheiros não serviam para nada além da charqueada, carne barata para gente pobre comer. Na outra semana, eram mais valiosos do que qualquer automóvel de luxo.

Finalmente o burrinho sentiu-se necessário, sentiu que o que fazia era bom. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. Sabia que os donos nunca deixariam de precisar da água, sempre lhe dariam um pouco desta, e teria palha e sombra. Amava os homens porque precisavam de seu trabalho, amava-os mais ainda agora: sabia que os homens também carregam as coisas quando necessitam. O burrinho pela primeira vez foi feliz e continuou sendo até o dia de sua morte.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Carga perdida

     


O coronel, da cabine do submarino prateado, no fundo do Atlântico, ordenou ao cabo que taquigrafasse para a base de Havana, Cuba, a seguinte mensagem:
     "Sr Presidente, ñ recebemos turbina necessária p conclusão do míssel 33, Missão MiamiFall2642, peço que v. exa providencie este componente essencial para cumprirmos nossa missão original".

       ...

     Um cargueiro apitava no porto de Ilhéus, soltando fumaça, pedindo com urgência que os marinheiros retornassem. Mas, Manuel, o responsável pela carga misteriosa, teimava em permanecer morto no fundo do lago, sua cabeça esmagada pela quadrilha que roubara a carga preciosa e secreta extraviada do cargueiro de Havana há dois dias.

       ...

         E o caminhão pulava aos trancos nos buracos da estrada, com seus choferes mal pagos, seus endereços rasgados esvoaçando pela janela, com pressa, como sempre, para entregar a próxima encomenda, e com raiva, pelo frete perdido na última entrega, feita por engano.

       ...

       Miami permaneceu segura por mais duzentos anos, sem que nenhum míssel lá chegasse, ao menos de Cuba. O cargueiro acabou no fundo do mar, junto com o submarino nuclear desativado. O caminhão não roda mais, virou peça de museu. Somente a máquina permanece reluzente e bem cuidada, repousa adormecida e perdida naquela cidadezinha pacata do interior.


(Inspirado no conto "A máquina extraviada", de JJ Veiga)

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O som da festa


- Essa, eu garanto, vai ser a última vez.

E o zunido na cabeça a fazia odiar o mundo, pedir a Deus para ficar surda. Não era só o som da festa, natalina, eram as vozes, os passos, os talheres batendo nos pratos, as televisões. Era aquela gente toda comemorando o nada.

Mas talvez não fosse. Talvez, quem sabe, fosse coisa só sua, isso de odiar os sons, mal querência cultivada desde sempre. Ou seriam os remédios? Odiava os remédios também, mas que direito a gente tem de odiar aquilo de que depende? Desde menina, a falta de sono, o apetite minguado, o juízo alvoroçado por qualquer barulho. Coisa fina o juízo dela. 

Honesta e trabalhadora, porém. Criou os filhos sem pai, os netos sem genros. Escovava as calçadas alheias, era o gari da rua. E o vigia, o síndico, mas nunca a fofoqueira. Só que não gostava de barulho.

Estava errado aquilo, deixar o som alto demais, acima das especificações da lei. Valia a lei? Reclamar, reclamava sempre, saía de chata. Mulherzinha reclamona. Só quem sabia de suas dores era ela própria. Outro, no seu lugar, teria pirado há muito mais tempo. Ela não, viveu ali vinte anos e só fez reclamar. Nem isso, pedir com educação. Ouviram? Não.

Agora era o basta.

Procurou, sabia que estava lá, numa caixa, esquecido. Achou, sorriu aliviada, pois se não achasse seria bem pior. Vestiu o roupão por cima da camisola e arrastou as sandálias até lá.

- Pou...

Quase ninguém notou até que alguém notasse. 

Um tiro só no meio da testa do dono da festa na frente dos filhos pra festa acabar. E o som ficou mudo.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A sombra das horas

Começou com a instalação do dispositivo sonoro na torre da igreja. Duvidou do que ouvia. Sinos, como? Quando? Não tivera notícia de qualquer obra nesse sentido. De fato, não houve obras, tratava-se apenas de uma saída de som ligada a um computador. Muito mais simples e barato do que um pesado sino metálico. O "para quê" ou o "por quê" não saberia explicar, sequer ousou perguntar. A existência de uma aparelhagem de som que imitava sinos, pior, imitava uma curta melodia executada por sinos seguida por respectivas batidas indicativas do número de horas dos dias, isso tudo enfim, não devia lhe dizer nada. Não devia, mas, desgraçadamente, dizia.

Hora a hora, hora a hora, o som invadia a sua privacidade e a lembrava de que mais uma hora havia passado. O tempo não corria mais livre e solto, incalculado, ele passou a saltitar, fazendo pausas contemplativas. Curto silêncio intercalado por marcações escandalosas. É tempo, é tempo. Já passou, já passou. As horas ficaram curtas após aquela marcação invasiva, curtas demais para o seu gosto. Sentia que estava desperdiçando o seu dia em coisas inúteis. Não podia se sentar para assistir TV, assim que o bater lento e metódico dos falsos sinos a alcançasse, sentiria culpa. A leitura de um livro  nunca lhe pareceu demorar tanto. Absurdo, cem páginas apenas, e se passaram quatro horas! 

Aquele peso sobre o peito, aflição antecedente de compromissos importantes, iniciava muito antes. Seus dias tornaram-se curtos, muito curtos. E estéreis. A passagem do tempo agora  só lhe trazia sentimentos negativos. Estava muito velha, não haveria mais tempo para correr atrás de felicidade ou realizações, não sobrava tempo durante o dia para se dedicar aos sonhos, as obrigações começaram a ocupar todo o tempo. As suas esperanças receberam um toque de recolher, conformava-se pouco a pouco com a aproximação inevitável da morte.

Queria chorar, sem razão, porém, até este simples extravasamento parecia luxuriante demais  para aqueles dias tão curtos. Como desejava que o tempo passasse enfim, inteiro e definitivo, corresse, que o enredo da sua vida disparasse de uma vez para um ponto mais à frente, onde não sentisse a angústia daquele arrastar macilento das horas sobre seus ombros.

A sombra das horas corria ligeira por sua vida em branco. Faltava-lhe tinta para preencher  o vazio.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Chamada perdida

O telefone celular dava sinal de ocupado o tempo todo. Devia estar na estrada, por isso fora de área. Também tinha o hábito de desligar o celular durante as aulas, para não interromper os professores. Desistiu de tentar. Ela retornaria a ligação quando estivesse disponível.

Era um dia de agosto, o vento fazia com que aquele dia quase na primavera ficasse tão frio quanto um dos dias de junho, mas sem chuva. As nuvens escuras no céu sinalizavam o mau tempo que se aproximava. Ao que parece, a frente fria passaria por eles para ir se despejar em locais mais propícios a precipitações climáticas. Ali chovia quase nunca, as chuvas sempre passavam direto, com pressa.

A revoada de urubus ao norte combinava perfeitamente com o cinza daquela manhã. Ao menos, os jardins da praça estavam sendo bem regados, garantindo assim um verde revigorante para os seus olhos no caminho para o trabalho. A quantidade de cães vadios rasgando sacolas de lixo, contudo, denunciava o desleixo dos moradores do bairro para com a limpeza pública. O vento soprava e todos os papéis daqueles malditos sacos colocados fora do horário do recolhimento suspendiam-se sobre as cabeças dos passantes, prendiam-se aos fios de eletricidade e sinalizavam terrenos com capins altos. No meio daquele capinal da esquina, certa noite, havia erguido a saia dela às pressas, pela primeira vez, com medo de serem vistos ou ouvidos pelos bêbados do bar de seu tio.

Depois daquele dia ela foi sua sempre, onde quer que escolhesse, não importava quão perigoso fosse. Mas assim que casaram tudo mudou, ela decidiu fazer aquelas viagens estúpidas, todas as noites, sem ele. O que havia para ser feito naquele fim de mundo sem ela? Vinha tentando convencê-la de que em breve ganharia o bastante para pagar uma escola particular para ela, sem sucesso, porém. Ela desejava ser independente, se formar, ganhar tão bem quanto ele. Gostaria de vê-la contentar-se com aquilo que já possuíam, não era muito, mas era o suficiente para ele. Esse vazio de achar que não era o bastante para ela preenchia os pensamentos dele todo o tempo. Às vezes, preferia ter escolhido outra para ser sua, uma mulher com a cabeça menos cheia de caraminholas sobre independência, profissão, sonhos, viagens. Por que havia escolhido aquela mulher preocupada em subir na vida, quando a maioria delas contenta-se com roupas novas pela ocasião das festas?

Havia aquela de quadris muito largos, vivia dando mole para ele, devia achá-lo muito interessante. Tinha 5 anos mais que a sua mulher, jamais colocara os pés para fora da cidade. Não tinha cara de quem sonhava com nada, mas jeito de quem põe as mãos onde precisa e se lhe pedem.

O dia passava lento demais para ele, sempre preocupado com o que passava pela cabeça dela. Talvez ela não o quisesse mais em breve, porque ele não tinha sonhos como os dela. E se depois de formada ela arrumasse um emprego bom longe dali, em um lugar que não precisassem dos serviços dele? Não desejava ser encosto dela, muito menos gigolô. Um homem precisa ser o provedor, indispensável. Ser casado por ser não faz durar casamento. A vida seguia, assim, cheia de incertezas e medo de perdê-la.

O celular vibrou quase no final do expediente na loja. Era ela. Atendeu com um sorriso. Do aparelho saltou uma voz masculina, perguntando se ele a conhecia, qual era o parentesco e avisando que ela estava morta. Um tiro, na beira da estrada, assalto. O policial que atendia a ocorrência usava o celular da vítima para tentar localizar a família.

Era o fim de todas as dúvidas.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Claustro

O mundo nunca foi tão grande quanto se supõe que seja para ela. Havia cercas em toda parte erguidas sob as mais variadas desculpas. A violência das grandes cidades, a marginalidade dos subúrbios paulistanos, a superproteção materna.
Depois teve a timidez, o horror às multidões, a dificuldade em fazer amizades, aliás, a dificuldade em cultivar amizades. Um pequeno príncipe às avessas, jogava sal em todas as raízes fraternais que pudesse perceber. Poucos a cativavam, na verdade, contentava-se com a observação dos outros mantida certa distância mínima de segurança.

Assim, o mundo ia tomando o restrito tamanho das obrigações inadiáveis, estreitado pelas relações sempre evitadas. Duas linhas retas traçadas no chão da cidade resumiriam todo o seu universo de movimento. Não havia, portanto, pessoa mais previsível.

Isso se não levarmos em conta que o mundo é bem maior do que se revela na matéria. Acima do espaço existe o tempo, e nele o tempo psicológico, no qual anos podem ser vivenciados em minutos. Tempo cujo conteúdo não se deixaria resumir por poucas laudas de explicação. E havia o espaço dentro do tempo, aquele capaz de nos levar à toda parte, atrás dos sons e formas insinuadas; imaginação, arriscariam. Pensamento, liberdade, sonho. Itens tão escassos no mundo de hoje, acorrentados pelas ideias preconcebidas apregoadas por todos os meios comunicativos. Mortas a curiosidade e a criatividade do mundo moderno, quem as consegue cultivar em vasos escondidos é dono de inestimável fortuna.

Ela as possuía. Guardava em segredo esses portais para outros mundos dentro de seu silêncio, mesquinha, como sempre, com aquilo que deveria revelar aos outros.

Quem a via, contudo, não podia supor. Deixava transparecer apenas o silêncio mudo, os passos lentos e repetitivos, o ir e vir cronometrado das obrigações cumpridas a contra gosto. Mas, por dentro, ela sabia. O mundo não tinha limites.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

As Três Torres ou Os desenhos de Alice

Capítulo anterior ao anterior, em que nossa heroína sem dedos projeta o embosteamento de uma Torre de Marfim

- Muito bom você perguntar a minha sugestão. Antes de mais nada, gostaria de parabenizar pela iniciativa, Chevalier, a intenção é muito boa. Apenas os meios que são por demais modestos. Está certo que a internet é uma ferramenta de grande visibilidade, mas ao mesmo tempo é um local onde todos são anônimos. Para manter viva a chama do teu movimento é necessário mais do que uma centena de simpatizantes que venham a lhe dar um retuíte ou distribuam a campanha em outras redes sociais. Um grupo de ativistas se faz com pessoas unidas sob uma forte convicção e identificação. E, especialmente, a ação física, o agir-interagir no mundo é o que dará ao movimento a notabilidade necessária para alçar a atenção da imprensa internacional. Sim, porque a visibilidade local não é o suficiente. Edward Shaw está acostumado com pessoas apontando os seus podres, tenho quase certeza de que ele considera essas pessoas quase como amigas suas, pois elas ajudam a manter seu nome em relevância. Precisamos de um grande ato simbólico que atraia os olhos do mundo sobre nós, que faça o mundo se sentir responsável por nossa desgraça e solidário com a nossa indignação.

Alice tirou do bolso um desenho feito a lápis. A gravura possuía capricho de desenhista mesclado ao zelo do projetista cujo conteúdo perturbava pela idéia em si mais do que pela inverossimilhança dos meios disponíveis para realizá-lo. O desenho dispensava explicações, era feito em forma de história em quadrinhos, com três cenas distintas. Tratava-se da Torre do Marfim em primeiro quadro, um monte de esterco no segundo quadro e no último quadro a Torre de Marfim coberta pelo esterco de alto a baixo, colorido este último quadro de um marrom bem sujo, próximo ao vermelho, com uns pintassilgos amarelos muito suspeitos.

- Vamos bostear o prédio do Shaw de alto a baixo. Depois disso ele não terá onde enfiar a cara de vergonha, vai se desculpar diante do público e se entregar para sofrer as sanções da Justiça. Promoveremos três dias de ocupação, pelos meus cálculos, umas 3 mil pessoas reunidas por três dias produzirão insumo mais do que suficiente para cobrir a superfície externa do prédio centímetro por centímetro.

A explicação de Alice estava apresentada, somente um imbecil não a entenderia, pois se até ilustração ela se deu ao trabalho de fazer para os menos favorecidos de inteligência não ficarem fora do assunto.

 Restava saber se o Chevalier era homem de audácia e visão e estaria disposto a elevar o grau de comprometimento com a causa ou se era ele mais um blogueiro cheio de papo que tem medo da tropa de choque. E claro Alice ia testar se a vampira de salto alto era uma lambe-saco do Príncipe.


O poder das massas by Alice C.

Capítulo em que a nossa heroína vampírica, negando qualquer correlação com as xaropadas dos crepúsculos por aí vigentes, mostra-se uma animada organizadora de manifestos públicos.


Se *Alice C. fosse dessas pessoas extremamente inseguras teria ficado incomodada por ninguém elogiá-la pela perfeição daquele desenho feito pelas “mãos” de uma mulher sem dedos. Mas não, Alice entendia perfeitamente o desconforto das pessoas de falarem na sua deficiência, mesmo que para elogiar a sua perícia de desenhar segurando o lápis entre os lábios ou clicando com o toco do dedo indicador no botão do mouse. A palavra de ordem nos meios educacionais é “inclusão”, a qualquer custo boa parte das vezes, mas não deixa de ser inclusão. A nossa heroína estava grata por este sentimento de recebimento e inserção de seus futuros companheiros de ocupação, afinal, estava claro que daquelas cabeças subalternas e viciadas em só dizer SIM para tudo que o sistema lhes impunha não poderiam sair ideias lá muito revolucionárias.


A empolgação do **CHE-valiê, em especial, era animadora. Ele tinha uma cara simpática e que transmitia confiança, e tinha dedos, o mais importante de tudo, o público tende a prestar mais atenção e credibilidade a quem tem dedos para lhe falar. Até quando essa pessoa não é boa em fazer story board das manifestações futuras.

Mas ainda havia o problema de se criar problema onde não há problema. E foi o que Alice disse aos seus companheiros.


- Não criem problema onde não há. O único obstáculo é o de nos dispormos a fazer e acharmos outros 2.997 dispostos ao mesmo. O poder das massas é intransponível, somente a ignorância impede que o povo comande. Chegaremos em silêncio, de maneira pacífica, de dois a dois. Quando pedirem para sairmos, nos sentaremos no chão e diremos que vamos esperar. Levaremos comida, água, agasalhos. Quando não caber mais gente na recepção, sentaremos no jardim do lado de fora. Então comeremos e beberemos e cantaremos – e nesta parte Alice estava sendo sincera, ela podia muito bem comer e gastar uns pontos de sangue para fazer a comida chegar até a saída para fazer parte do movimento como todos os outros – e a imprensa estará lá para nos filmar. E comeremos mais, até que o milagre aconteça e nossos intestinos comecem a funcionar. Então, cada um de nós, um a um, ou vários de uma vez, defecaremos, em jornais ou no que estiver disponível e passaremos os nossos excrementos para os que estiverem do lado de fora. Estes por sua vez, começarão o trabalho de decoração da Torre, a fachada embaixo. Olharemos a rua através de nossa obra.

 Continuaremos a comer e a esperar que os nossos intestinos funcionem – também podemos levar algum excremento conosco, só pra fazer volume, ninguém vai reparar na quantidade, o que importa é o simbolismo do ato. É claro que ***Shaw lavará a fachada depois, ninguém está dizendo que ele não vai. É claro que muitos de nós seremos presos. Então, alguém acha que a liberdade é impune? Talvez nos batam, torturem, prendam, caluniem. Mas não se enganem, nossas ações não serão esquecidas. As palavras ditas nunca são em vão. É conformismo achar que devemos nos calar porque seremos censurados pelo que dissermos. Não somos crianças que esperam que Edward Shaw nos aplauda por nossa coragem, ou que a sociedade nos dê uma medalha. O que faremos terá conseqüências. Somente os irresponsáveis não preveem as conseqüências de seus atos. Seremos punidos, mas a punição não apaga o ato em si. O que fizermos estará feito e o que dissermos estará dito.

Alice estendeu a mão para o CHE-valiê, queria cumprimentá-lo mais uma vez por sua iniciativa corajosa de se rebelar contra o que achava que estava errado.

- Vamos arregimentar, não somos os únicos que enxergam as coisas como são. Outros vão aparecer. Manterei contato por email. A-l-i-c-e-c.@gmail.com.
E olhando para a ****vampira loira:


- Você tem Facebook?


________________________________________
* Pra quem não conhece, Alice C. é personagem-narradora de vários enredos aqui do Literatices. É uma vampira recém transformada que luta para se adaptar a sua nova condição de não estar viva.

** CHÊ-valiê é um personagem deste trecho em específico, um ser humano muito distinto pelo visto, destes com ideologias e tudo. Gente fina.

*** Shaw é o vilão desta trama. Príncipe entre os vampiros, manipulador da mídia, da indústria da construção, da indústria química e tudo o mais que houvesse para ser dominado naquela região geográfica. Leia-se: tirano a ser combatido.

**** A vampira loira é um personagem super interessante, que porém, neste trecho é completamente negligenciado empatado de se desenvolver pelo discurso inflamado da Alice.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O corpo na caixa

O menino nasceu como nascem todos os meninos: miúdo e chorão. Razão para chorar jamais lhe faltou. O sol quente no cimento frio, o colchão rasgado e pinicante, a água quente derramada de cima do fogão.

Via seu pai muito pouco, figura negra sempre coberta pela fuligem do carvão. O garfo ameaçador de trabalhador mal pago.

O rosto de sua mãe era sempre um braseiro de gritos e sorrisos escondidos por detrás da fumaça do fogão de lenha. Ela também chorava nos dias em que o pai batia e xingava as vizinhas faladeiras.

O menino crescia e continuava miúdo, mas  estranhamente não chorava mais. Nem quando a professora beliscava por ele ser muito danado. Nem mesmo daquela vez em que um moleque da outra rua partiu sua cabeça com uma bodocada. A pedra bateu e o sangue escorreu,  o menino só fez desmaiar.

Depois aquele moleque teve o que mereceu. Comeu porrada até largar os dentes no mato. O que tinha dado naquele menino miúdo para se tornar tão bravo ninguém entendia. Ele quis se fazer homem cedo, carregar o garfo ameaçador no lugar de seu pai e arquear com o peso todo da lenha para não fustigar sua mãe. Ele não ia aceitar mais que lhe apedrejassem.

Xingava feito a mãe e batia em quem lhe desagradasse. Esmurrava, xingava, chutava. No trabalho ou na rua, até na bebedeira. Tinha um ódio mortal contra bêbados folgados ou falastrões.

Não se sabe quem, mas alguém deu cabo do menino briguento. Ele acabou miúdo dentro de uma caixa de papelão na beira de uma lagoa.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A cidade onde não se morria só


A cidade era pequena ao ponto de velório virar festa.

Quem morria ganhava seu dia de celebridade, pobre ou rico. Para preservar a verdade, pobres ou ricos iam parar no mesmo cemitério superlotado. Covas por cima de covas, carneiros construídos com seis ou sete andares para fazer caber no mesmo metro quadrado a família inteira. Sete palmos ali era luxo ao qual nem o prefeito se daria. A diferença entre as classes não se via, só o coveiro sabia que os ossos desenterrados e que se perdiam pelas barrancas do rio eram os dos pobres. A cidade era pequena demais para mandar emparedar os restos, ademais, em qual parede?

Ninguém estranhava, o povo fazer velórios tão bonitos, porém sem nunca inaugurar um cemitério novo, onde não fosse preciso pisar nas covas para enxergar os parentes serem içados ao último descanso. Devia ser porque quase ninguém visitava o campo santo, a não ser em dia de muito lamento, quando não se repara em detalhes. Ou porque inauguração de cemitério não rende votos. Quem morre acaba, os que vivem esquecem.

Por vida, os familiares dos defuntos pediam o caixão ao prefeito. E tinha que ser coisa lustrosa, de luxo, com coroa de flor e aresta dourada. A municipalidade era tão zelosa de seus finados que quem morria em outro estado era mandado buscar. Estou para dizer que ali gastavam mais com os mortos do que com os vivos. Dizer que o prefeito tinha medo de perder os votos da família enlutada, isso eu não digo. 

Havia todo um ritual fúnebre que a modernidade não estragava. Registrada a morte por um dos médicos do hospital ou pelo delegado, começavam os preparativos. Alguém da funerária, a de conhecimento da família, vinha para anotar o nome dos familiares do ido, escolher música, enfeitar a casa. Um carro de som rodava pelas ruas anunciando o nome do falecido, seus familiares e o endereço onde se podia ir dele despedir. Sempre aparecia alguém da família para desenhar em cartolina umas frases de adeus, colar a foto do morto em momento qualquer. As vizinhas e tias velhas vinham fazer chá, café, biscoito, comprar bolacha e algum homem da casa lembrava-se de comprar pinga da boa, batizada de preferência, além de cortar a lenha.

A lenha era para acender na frente da casa. A dirigente da capela emprestava os bancos da igreja para a família para quem fosse passar a madrugada, e isso muita gente fazia, sentavam-se ao redor da fogueira e dividiam o tempo da vigília entre falar do morto, tomar chá e café e mastigar. Identificava-se uma família em luto pela quarteirão fechado por cavaletes e a fogueira ardendo. E claro, sempre havia uma multidão na porta, mesmo quem não conhecia ninguém da família ia, porque se tratava de um acontecimento importante.

Eram umas conversas longas ao pé do fogo, de esmiuçar a vida do falecido desde menino. A curiosidade da cidade quase toda desfilava pela sala onde se punha o caixão, morreu de quê, do que viverá a viúva, e os filhos, quantas concubinas teve, quantos bastardos. Um a um contavam suas passagens com o morto, brigas, bebedeiras. Das mulheres, indagava-se logo sobre os namoros, sobre os bordados, se era boa filha, irmã, esposa. Nas famílias mais católicas as beatas tiravam duas ou três horas para rezar o rosário, e entre as dezenas de ave-marias cantava-se. Era lindo e triste.




O ápice da celebração chegava quando a funerária vinha buscar o caixão para levá-lo ao cemitério. Era o momento em que todos sairiam de seus lugares e se apertariam pelas ruas estreitas para acompanhar o cortejo nos dois e até três quilômetros que podiam separar a casa do cova. Era a hora da mulher ou da mãe do defunto chorar mais alto, com o coro das irmãs, das tias, das primas. Se o morto ou a morta era jovem, juntavam-se ao coro os colegas da escola, da bola, da academia.

Saía o cortejo, apinhado de gente, por onde passava fazia abrir portas e janelas para vê-lo ir. As casas comerciais baixavam as portas em sinal de respeito. O trânsito parava, todos paravam. À medida que o caixão se aproximava do cemitério, o séquito diminuía. Esse momento se reservava à família e aos amigos mais chegados, e também muita gente não gosta de pisar em cova de cemitério.

O mesmo homem cavava todas as covas da cidade há trinta anos. Sempre tomava meio litro de cachaça antes de qualquer enterro. Pra não amolecer. O povo tinha o costume de lavar os pés e as mãos na saída do cemitério e isso o deixava puto, porque o cemitério ficava numa ladeira, a água da entrada escorria até o muro do fundo e ia fofando ainda mais a terra escavada.

Depois dos enterros a cidade ficava ainda mais parada, como se o pouco  movimento do costume fosse cansativo. Era um lugar no qual não se morria sem ninguém para lhe por uma vela na mão.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Carnaval


A picape velha saltava e rangia na estrada de terra. A poeira do cascalho da estrada se erguia no ar e formava uma neblina fina e amarelada que obrigava os automóveis a acenderem os faróis às três da tarde. O movimento na estrada alcançava picos depois do meio dia e depois das dezoito, quando a mão dupla cheia de ladeiras e curvas e curvas em ladeiras se tornava uma arapuca pronta para disparar contra os foliões alcoolizados. Placas amarelas indicavam a direção da próxima curva, fincadas sobre o mato recém roçado das margens da estrada.

Naquele ano a vegetação estava seca e cinza, quase estorricada, sem nenhum açude para amenizar a paisagem de caatinga e seca e cercas de arame farpado. A madeira mais grossa que se via por ali era a dos mourões das cercas, enegrecidos pelas queimadas anuais, herança de um passado de mata virgem há muito devastada.

Do alto avistaram a pequena vila, não mais do que dez casas sobreviventes, filhas bastardas de um passado esquecido de caminho de tropas, enfeitadas somente por uma velha igreja em ruínas, teimosa por manter-se sobre suas bases de tijolos crus. Descendo a ladeira, podia se notar uma ou outra construção nova: os remediados da sede do município vinham erguer suas casas de veraneio em desordem, obviamente invadindo a área de preservação das margens do rio.

O rio de águas barrentas era só uma faixa rasa de vinte metros de largura, os moradores atravessavam com água nas canelas nos locais certos. Há um par de anos ninguém morria afogado dentro de um dos traiçoeiros poços estreitos e profundos, mais ou menos conhecidos de todos os banhistas experientes, teimosamente ignorados por crianças e adolescentes inconsequentes. Aquele ano novamente o rio não engoliu ninguém naquele ponto, pois o poder público contratara salva-vidas e demarcara as áreas perigosas com bandeirolas. O rio passaria fome, não fossem os bêbados que o faziam de cama e os traficantes que nele desovavam seus desafetos.

Teríamos somente mais um ano de gritaria e festa, de turistas seminus e completamente embriagados bebendo mais cerveja e uivando para os dançarinos obscenos de cima do palco, senhoras com as coxas de fora comprando quinquilharias e guloseimas nas barraquinhas, moças e rapazes entrando e saindo escondidos dos arvoredos à beira d’água, crianças correndo com sorvetes e baldes de areia entre as piscinas.

Parecia mesmo que o carnaval daquele ano não teria nenhuma novidade. Mas um dos caminhões que saíam com a carroceria apinhada de homens e mulheres bêbados e crianças de colo e senhoras de chapéu de palha não encontrou o fim da estrada. Ele correu como louco saltando pedras e aterrissando derrapante sobre as camas de areia fina, e num desses saltos se viu em frente a um ônibus de faróis sonolentos que subia a ladeira pela qual o caminhão queria descer. Desembestado, o caminhão não teve freios para parar, e tentando evitar o impacto fatal, não desviou por centímetros, encabeçando com a outro gigante metálico e arremessando a todos os que nele iam dependurados contra as cercas e os espinhos que naquele sítio faziam morada.

Então, viu-se um festival de corpos voadores, e pousos forçados que deixavam em seus rastros peles e carnes ensanguentados. Teve quem saiu sem arranhão e quem quebrou fêmur, bacia, rótula, teve quem ficou sem cara, sem roupa, sem bunda, sem tampo. O caminhão dobrou-se todo sobre o próprio eixo metálico e mais tarde deu testemunho de que a coisa podia ter sido muito pior. E o ônibus quietou-se calado, aliviado por ter levado só esbarrão e não ter ferido nenhum de seus três ocupantes. A estrada virou uma folia de luzes vermelhas e sirenes assustadas, de uniformes verdes e brancos indo e vindo. Formaram-se duas comitivas, uma em cada direção, donde os foliões que não participaram do acidente assistiam à muvuca de camarote, meio que irritados e cansados pela espera prolongada. Aquela ladeira nunca se tinha visto tão cheia de gente e de cores, irrigada por sangue jovem e marcada por tantos pés confusos.

No dia seguinte viria a quarta de Cinzas.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Solidariedade


Pra que ajudar os outros? Eu estava ajudando aquele rapaz pela razão mais deslavada do mundo, por educação. Não porque eu fosse uma pessoa muito educada, era por condicionamento puro. Fui criada ouvindo dizer que devemos ajudar os outros, não só para alimentar nosso ego altruísta, mas porque negar auxílio ao próximo vale uns 100 pontos negativos na passagem para o Céu. Entende? Não basta ser bom e ficar na sua para alcançar a benção de Deus, você precisa colocar a mão na massa, cruzar os braços é o mesmo que ofender o santíssimo. Naquela altura da minha vida, eu não cria mais nessas patacoadas de Céu; no inferno eu acreditava um pouco, de qualquer forma, eu já tinha levado muitas bordoadas pela testa para achar que existe retribuição para as nossas bondades nessa vida, porém, o contrário, neste eu não podia deixar de crer jamais. Quer dizer, ser bom não tem recompensa, mas ser um miserável filho da mãe e foder com os outros de propósito, ah.... Isso não é coisa de passar impune. Nessa vida tudo tem troco. 

Como eu ia dizendo, tentar ajudar aquele rapaz fazia parte do que eu fui, era um ato automático, sem muito raciocínio, eu não estava de fato preocupada com ele.
Ajudá-lo era como me ajudar. Não havia nenhum mérito nesse meu ato. Será que foi isso que quiseram dizer quando mandou escreverem que o que a mão direita faz a esquerda não precisa saber? Foi como um "abaixa a bola que tu só faz o que te convém"?

Eu tava ajudando de má vontade, por descarrego de consciência, porque ajudar era mais fácil do que explicar o porquê de não ajudar. Mas se pudesse, não ajudava. Entende?

O peso de um nome


Eu não sabia mesmo não, de onde tinha vindo esse nome que eu tenho. Era só o meu nome, o primeiro nome ainda, todo mundo só dizia ele errado, eu nem ligava de corrigir. Nem sei por que me puseram esse nome, aliás, nem sei por que me puseram nesse mundo. Antigamente, os pais tinham uns quinze meninos, nem dava pra lembrar os nomes de todos. Deve ser por isso que se botava tanto apelido. O apelido tem a cara do dono, o nome nem sempre.

Mas, por que foi mesmo que me puseram no mundo? Deve ter sido por nada; pior, foi por acidente. Também, numa droga de mundo desses, para alguém decidir de sã consciência fazer um filho tem de ser muito pancada. Todo mundo nasce por acidente, puro conformismo da genitora. Minha mãe me dizia: “Minina, te pari por pena de te tirar”. Ela dizia na hora da raiva, devia ser verdade. O nome era isso, o desprezo de minha mãe em não me dar um nome melhor.





segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Nascimento



Nasceu por acidente após uma grande explosão. Não havia ao certo qualquer planejamento para a sua acolhida, ela própria não sabia o que esperar daquela nova vida, mas nascia mesmo assim, sem convite, a fim de alegrar os ares.

Se avisassem com antecedência teria se arrumado mais, estava nascendo muito bagunçada. Sem pompa, sem circunstância, nascendo assim feito filho de pais pobres. Isso não foi desculpa, sorriu. Por que não sorriria? Quem nasce não o faz por fé e esperança? Não é a vida uma loteria sem sorte, só sina?

Fizessem festa, pois estava nascendo. Soltassem foguetes, pois hoje era o seu dia, e maior do que este outro não haveria. Cumprimentou os pais, agradeceu ao médico, e saltou num pé só até a saída. Urgia olhar para o céu que tomava por padrinho, e satisfeita constatar que este céu daqui era azul. Engraçado o céu ser azul.

O que viria depois não poderia saber, pois ainda não viera. Mas o seu coração estava cheio de esperanças e livre de qualquer medo, era jovem demais para entender que havia algo a se temer.

Nasceu pura como um bebê.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A gafe


De repente, foi como se alguém tivesse cometido uma terrível gafe ali no meio do povo. Algo como baixar as calças e badalar o sino ou abrir uma bíblia e fazer pregação sobre a importância do dízimo. Notem que pregar sobre o fim do mundo não é gafe, é o arroz com feijão dos profetas darem sua própria versão de um fim que é certo e está sempre próximo. Em seu íntimo, aonde não ia a régua das averiguações cromáticas, pois lá só havia idéias puramente conceituais, daquelas limpas de sentimentos, não os sentimentos romance-água-com-açúcar, mas os sentimentos derivados dos cinco sentidos e adjacentes, bem lá nestes ideais intraduzíveis, Alice estava mais preocupada com o caminho até chegar ao fim do mundo, o devir antes do fim, o amanhã que a gente pensa que nunca chega, mas que chega todos os dias sem a gente perceber. 

Justo por isso ela se preocupou com o de repente que se instaurou, quando todos agiram como se alguém tivesse cometido uma terrível gafe ali no meio do povo, quando, na real, nada demais aconteceu. Só um cara com dúvidas ortográficas, outro perdido demais para dar atenção às incertezas próximas, porque estava mais interessado nas incertezas futuras, outro com o nariz muito sensível.

O professor partiu sem nem mesmo ter chegado. Saiu para dar espaço no palco ao novo personagem que se apresentava, atencioso ao próprio umbigo, mas que acrescentou ao cenário um novo perfume. Alice não se lembrava de ter esbarrado com o referido antes, mas isso não importava muito, achou que o rapaz tinha cara de fome e às barrigas vazias é cortês oferecer forragem.

- Como assim você convida para comer e depois dá o fora? Isso não se faz nem a um inimigo, quanto mais a quem você quer ao seu lado num Cagaço. Vamos comer! Eu pago! Quem quiser me segue. – Gritou ela, com a mão na cintura, rebolando muito para bater a mão no bolso que não estava lá e por isso mesmo estava vazio, mas que metaforicamente serviria muito bem para pagar o que quisesse a quem bem quisesse, sem medo de ser obrigada a lavar os pratos depois de terminado o banquete, o que provavelmente aconteceria, pois não tinha um níquel furado escondido em parte alguma.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fiascos do fim do mundo


Publicando novamente este texto de julho de 2011.

Naquele dia por acaso resolveram promover o Fim do mundo. Em hora imprópria e sem a pompa dos símbolos bíblicos. Fim de mundo fajuto: sem anjo nem arcanjo tocando trombeta no céu, nenhum dragão de sete cabeças cuspindo pragas do Egito. Esqueceram de fazer nascerem os doze bezerros pintados de ouro com três cabeças cada. Não contrataram a Santa para se vestir de Prostituta e parir um Messiazinho ao avesso para trazer ao mundo os consolos da destruição total. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Dos diários de viagem e das impressões de quem visita o inferno

Saía pouco de casa, isso fazia dela  aquele tipo chato de pessoa que desgosta de tudo quando se vê obrigada a sair pelo mundo. A tudo estranhava e com tudo cismava. Quanto mais saía de casa mais se convencia de que não há lugar melhor do que o lar. Bem, vamos à história, antes que alguém se intoxique com este misantropismo.

Obrigada estava a passar três dias em uma cidade dista - e essa inversão da ordem normal da oração tem tudo a ver com a razão de ir lá:  foi ao campus da universidade para estudar literatura do século XVI e XVII. E não é que os escritores portugueses desses séculos adoravam escrever imitando a sintaxe latina, por isso invertiam tudo? Pensava em dizer ao professor que eles falavam como o Mestre Yoda, mas preferiu não se fazer de motivo de chacota da turma.

Primeiro desagrado da viagem. De sua cidade até o baldeamento eram em média 90 km vencidos com uma hora de carro ou duas horas de ônibus (que podem virar duas e meia, depende do azar do freguês, cortesia da empresa de transportes) e do baldeamento até o destino final eram 130 km. Ocorria o improvável de que o valor das duas passagens era o mesmo. Viajando de uma cidade a outra descobria essa injustiça.

O interior do ônibus parecia um forno aquecido à lenha. Todas as janelas estavam abertas, mas nenhuma brisa dignava-se a entrar para salvar os passageiros de uma viagem climatizada no inferno. A paisagem ressequida da estrada não ajudava em nada. A vegetação estava tão seca que a qualquer momento soltaria faíscas. Ossadas de animais enfeitavam de branco marfim o vermelho e cinza geral. O calor desprendido do asfalto formava miragens de carros que não vinham. Tiraria a roupa, se isto não fosse totalmente inapropriado em um transporte público. E vamos inteirar: não se tratava de um calor ameno, daqueles descritos em livros escritos no hemisfério norte. Era calor legítimo, digno dos trópicos, linear ao Equador, desprovido da umidade das florestas visto que a região era semiárida.

E quando finalmente alcançou a garagem suja que a tal viação de ônibus tomava por embarque e desembarque de passageiros, descobriu, com grande desgosto, que a tal cidade destino era tão estafante e sem vento quanto o interior do ônibus. Somente assim podia compreender que a moda feminina numa cidadezinha do interior nordestino fosse a das coxas de fora. Como todos sabem, cidades do interior costumam ser puritanas, ainda mais as do nordeste. Ali qualquer pudor seria castigado. Por grande ironia, a liberdade de vestir não privilegiava os homens, que ainda sob o sol de um quase deserto mantinham-se alinhados em suas calças jeans e camisetas de manga.

Suas roupas, como se pode prever, destoavam do lugar. Calças, blusas de manga, bermudas no mínimo mostrando o joelho. Arrependeu-se, quem poderia prever, de não gostar de vestidos. Admitiu nos primeiros cinquenta passos que o clima influi grandemente sobre os hábitos das pessoas e que qualquer um sobrevivendo debaixo de um sol daqueles se habituaria a mexer-se o menos possível, para poupar calorias. Aquela devia ser, mui provavelmente, uma gente de muito cálculo.

O que seria dela então, quando se visse dentro da sala de aula. Seria um martírio, já imaginava. Como nem tudo consegue ser tão ruim quanto esperamos que seja, lá estava uma confortável, espaçosa e bem ventilada sala. Ar condicionado, ventiladores, bebedores perto, cadeiras acolchoadas. Como mudara o ensino público depois que se formara. Quase acreditava que a educação em seu país estava melhorando. Quase.

Fé renovada, deu entrada no hotel e aproveitou o banho inadiável antes de enfrentar os próximos três longos e inesquecíveis dias de estudo.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O bote do ódio

Espreita escondido atrás do olho esquerdo, depois do direito. É negro, tem a profundidade das coisas sem fim. Rodeia, atocaia, mais parece a vítima que se esconde do que o carrasco que aguarda o momento para empunhar o machado.

Houve o tempo em que passou adormecido, temeroso de se dar a conhecer à luz. Envergonhava-lhe sua figura disforme, malhada por indisfarçáveis manchas de desespero. Toda a sua força concentrada em suas convicções, aliás, crenças. O que por nada muda só pode ser medido pela régua da fé. Conhecia a razão pela qual fora criado, de certeza tão indiscutível quanto o nascer e renascer do sol todas as manhãs.

Nasceu então, brilhante, áspero, de altura inexplicável, cheio de gritos e roncos de dor. Avançou cegamente em todas as direções, bateu dolorosamente sobre a superfície dos seres, rebarbou, espumou e recuou, para voltar a se expandir e ir repelindo os sentimentos mesquinhos e de menor monta.

E rasgou e pisou, chorou um vômito amargo de afogado sem esperanças. Suas lágrimas se tornaram espinhos que rasgaram as carnes próximas. Rolou sangue e suor, e gargalhadas histéricas de incompreensão.

E riu, riu, riu, até cair. Desejou seguir de arrasto os alvos de sua dor, mas do tombo não mais se levantou. Asfixiou ali, em frente à platéia muda, com as mulheres tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o vexame da sua nudez esquelética.

O seu sorriso de morto eram os dentes falhos de uma caveira de olhos apodrecidos.


segunda-feira, 12 de março de 2012

O ventre enterrado





"Deus condenou a Serpente a rastejar seu ventre sobre a terra por seduzir Eva e Adão. Ainda hoje, como bicho de debaixo do chão a Serpente consegue engambelar muitos Adãos e muitas Evas e socá-los no bucho. Dizem que esses pobres vivem eternamente presos por lá."


A nossa Eva teve oito filhos. Oito para dar sorte, se fossem Sete dariam na conta do mentiroso. Oito. Um de cada pai, aliás, dois de um só, foram gêmeos. Cinco nasceram mortos, dois as avós criaram e um filho, o último, foi aquele a quem Eva amou.

Esse um, o último, foi o único a quem Eva não tentou matar. Sem pular, sem tomar beberagem, sem dormir de barriga para baixo no sol quente e na pedra fria. O último não era só filho do pai e do ventre, era filho seu também. Filho do desejo, da vontade, da carência de ser mãe. Filho que não foi feito à força nem por acidente. Era filho só; sem nada especial, com a diferença de lhe ter trazido juízo.

Foi o um do choro fino e das noites longas, cheias de cólicas e chás. O das fraldas cozidas e passadas com ferro de brasa. O dos remédios caros e das febres altas. Das garatujas em papel pautado e dos rabiscos nas paredes encardidas das casas de aluguel.

Cria difícil, teimosa em minguar, reimosa de criar. Moço bom e trabalhador, dos que trazem flor nos dias de anos e levam para trocar os óculos. Forçudo, bom de render meninos, muitos dos quais Eva ninou.

Tão bom filho, tão bom moço, até vela acesa nos dedos duros da velha finada Eva botou.