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quinta-feira, 11 de julho de 2013

As Três Torres ou Os desenhos de Alice

Capítulo anterior ao anterior, em que nossa heroína sem dedos projeta o embosteamento de uma Torre de Marfim

- Muito bom você perguntar a minha sugestão. Antes de mais nada, gostaria de parabenizar pela iniciativa, Chevalier, a intenção é muito boa. Apenas os meios que são por demais modestos. Está certo que a internet é uma ferramenta de grande visibilidade, mas ao mesmo tempo é um local onde todos são anônimos. Para manter viva a chama do teu movimento é necessário mais do que uma centena de simpatizantes que venham a lhe dar um retuíte ou distribuam a campanha em outras redes sociais. Um grupo de ativistas se faz com pessoas unidas sob uma forte convicção e identificação. E, especialmente, a ação física, o agir-interagir no mundo é o que dará ao movimento a notabilidade necessária para alçar a atenção da imprensa internacional. Sim, porque a visibilidade local não é o suficiente. Edward Shaw está acostumado com pessoas apontando os seus podres, tenho quase certeza de que ele considera essas pessoas quase como amigas suas, pois elas ajudam a manter seu nome em relevância. Precisamos de um grande ato simbólico que atraia os olhos do mundo sobre nós, que faça o mundo se sentir responsável por nossa desgraça e solidário com a nossa indignação.

Alice tirou do bolso um desenho feito a lápis. A gravura possuía capricho de desenhista mesclado ao zelo do projetista cujo conteúdo perturbava pela idéia em si mais do que pela inverossimilhança dos meios disponíveis para realizá-lo. O desenho dispensava explicações, era feito em forma de história em quadrinhos, com três cenas distintas. Tratava-se da Torre do Marfim em primeiro quadro, um monte de esterco no segundo quadro e no último quadro a Torre de Marfim coberta pelo esterco de alto a baixo, colorido este último quadro de um marrom bem sujo, próximo ao vermelho, com uns pintassilgos amarelos muito suspeitos.

- Vamos bostear o prédio do Shaw de alto a baixo. Depois disso ele não terá onde enfiar a cara de vergonha, vai se desculpar diante do público e se entregar para sofrer as sanções da Justiça. Promoveremos três dias de ocupação, pelos meus cálculos, umas 3 mil pessoas reunidas por três dias produzirão insumo mais do que suficiente para cobrir a superfície externa do prédio centímetro por centímetro.

A explicação de Alice estava apresentada, somente um imbecil não a entenderia, pois se até ilustração ela se deu ao trabalho de fazer para os menos favorecidos de inteligência não ficarem fora do assunto.

 Restava saber se o Chevalier era homem de audácia e visão e estaria disposto a elevar o grau de comprometimento com a causa ou se era ele mais um blogueiro cheio de papo que tem medo da tropa de choque. E claro Alice ia testar se a vampira de salto alto era uma lambe-saco do Príncipe.


O poder das massas by Alice C.

Capítulo em que a nossa heroína vampírica, negando qualquer correlação com as xaropadas dos crepúsculos por aí vigentes, mostra-se uma animada organizadora de manifestos públicos.


Se *Alice C. fosse dessas pessoas extremamente inseguras teria ficado incomodada por ninguém elogiá-la pela perfeição daquele desenho feito pelas “mãos” de uma mulher sem dedos. Mas não, Alice entendia perfeitamente o desconforto das pessoas de falarem na sua deficiência, mesmo que para elogiar a sua perícia de desenhar segurando o lápis entre os lábios ou clicando com o toco do dedo indicador no botão do mouse. A palavra de ordem nos meios educacionais é “inclusão”, a qualquer custo boa parte das vezes, mas não deixa de ser inclusão. A nossa heroína estava grata por este sentimento de recebimento e inserção de seus futuros companheiros de ocupação, afinal, estava claro que daquelas cabeças subalternas e viciadas em só dizer SIM para tudo que o sistema lhes impunha não poderiam sair ideias lá muito revolucionárias.


A empolgação do **CHE-valiê, em especial, era animadora. Ele tinha uma cara simpática e que transmitia confiança, e tinha dedos, o mais importante de tudo, o público tende a prestar mais atenção e credibilidade a quem tem dedos para lhe falar. Até quando essa pessoa não é boa em fazer story board das manifestações futuras.

Mas ainda havia o problema de se criar problema onde não há problema. E foi o que Alice disse aos seus companheiros.


- Não criem problema onde não há. O único obstáculo é o de nos dispormos a fazer e acharmos outros 2.997 dispostos ao mesmo. O poder das massas é intransponível, somente a ignorância impede que o povo comande. Chegaremos em silêncio, de maneira pacífica, de dois a dois. Quando pedirem para sairmos, nos sentaremos no chão e diremos que vamos esperar. Levaremos comida, água, agasalhos. Quando não caber mais gente na recepção, sentaremos no jardim do lado de fora. Então comeremos e beberemos e cantaremos – e nesta parte Alice estava sendo sincera, ela podia muito bem comer e gastar uns pontos de sangue para fazer a comida chegar até a saída para fazer parte do movimento como todos os outros – e a imprensa estará lá para nos filmar. E comeremos mais, até que o milagre aconteça e nossos intestinos comecem a funcionar. Então, cada um de nós, um a um, ou vários de uma vez, defecaremos, em jornais ou no que estiver disponível e passaremos os nossos excrementos para os que estiverem do lado de fora. Estes por sua vez, começarão o trabalho de decoração da Torre, a fachada embaixo. Olharemos a rua através de nossa obra.

 Continuaremos a comer e a esperar que os nossos intestinos funcionem – também podemos levar algum excremento conosco, só pra fazer volume, ninguém vai reparar na quantidade, o que importa é o simbolismo do ato. É claro que ***Shaw lavará a fachada depois, ninguém está dizendo que ele não vai. É claro que muitos de nós seremos presos. Então, alguém acha que a liberdade é impune? Talvez nos batam, torturem, prendam, caluniem. Mas não se enganem, nossas ações não serão esquecidas. As palavras ditas nunca são em vão. É conformismo achar que devemos nos calar porque seremos censurados pelo que dissermos. Não somos crianças que esperam que Edward Shaw nos aplauda por nossa coragem, ou que a sociedade nos dê uma medalha. O que faremos terá conseqüências. Somente os irresponsáveis não preveem as conseqüências de seus atos. Seremos punidos, mas a punição não apaga o ato em si. O que fizermos estará feito e o que dissermos estará dito.

Alice estendeu a mão para o CHE-valiê, queria cumprimentá-lo mais uma vez por sua iniciativa corajosa de se rebelar contra o que achava que estava errado.

- Vamos arregimentar, não somos os únicos que enxergam as coisas como são. Outros vão aparecer. Manterei contato por email. A-l-i-c-e-c.@gmail.com.
E olhando para a ****vampira loira:


- Você tem Facebook?


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* Pra quem não conhece, Alice C. é personagem-narradora de vários enredos aqui do Literatices. É uma vampira recém transformada que luta para se adaptar a sua nova condição de não estar viva.

** CHÊ-valiê é um personagem deste trecho em específico, um ser humano muito distinto pelo visto, destes com ideologias e tudo. Gente fina.

*** Shaw é o vilão desta trama. Príncipe entre os vampiros, manipulador da mídia, da indústria da construção, da indústria química e tudo o mais que houvesse para ser dominado naquela região geográfica. Leia-se: tirano a ser combatido.

**** A vampira loira é um personagem super interessante, que porém, neste trecho é completamente negligenciado empatado de se desenvolver pelo discurso inflamado da Alice.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Nascimento



Nasceu por acidente após uma grande explosão. Não havia ao certo qualquer planejamento para a sua acolhida, ela própria não sabia o que esperar daquela nova vida, mas nascia mesmo assim, sem convite, a fim de alegrar os ares.

Se avisassem com antecedência teria se arrumado mais, estava nascendo muito bagunçada. Sem pompa, sem circunstância, nascendo assim feito filho de pais pobres. Isso não foi desculpa, sorriu. Por que não sorriria? Quem nasce não o faz por fé e esperança? Não é a vida uma loteria sem sorte, só sina?

Fizessem festa, pois estava nascendo. Soltassem foguetes, pois hoje era o seu dia, e maior do que este outro não haveria. Cumprimentou os pais, agradeceu ao médico, e saltou num pé só até a saída. Urgia olhar para o céu que tomava por padrinho, e satisfeita constatar que este céu daqui era azul. Engraçado o céu ser azul.

O que viria depois não poderia saber, pois ainda não viera. Mas o seu coração estava cheio de esperanças e livre de qualquer medo, era jovem demais para entender que havia algo a se temer.

Nasceu pura como um bebê.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A gafe


De repente, foi como se alguém tivesse cometido uma terrível gafe ali no meio do povo. Algo como baixar as calças e badalar o sino ou abrir uma bíblia e fazer pregação sobre a importância do dízimo. Notem que pregar sobre o fim do mundo não é gafe, é o arroz com feijão dos profetas darem sua própria versão de um fim que é certo e está sempre próximo. Em seu íntimo, aonde não ia a régua das averiguações cromáticas, pois lá só havia idéias puramente conceituais, daquelas limpas de sentimentos, não os sentimentos romance-água-com-açúcar, mas os sentimentos derivados dos cinco sentidos e adjacentes, bem lá nestes ideais intraduzíveis, Alice estava mais preocupada com o caminho até chegar ao fim do mundo, o devir antes do fim, o amanhã que a gente pensa que nunca chega, mas que chega todos os dias sem a gente perceber. 

Justo por isso ela se preocupou com o de repente que se instaurou, quando todos agiram como se alguém tivesse cometido uma terrível gafe ali no meio do povo, quando, na real, nada demais aconteceu. Só um cara com dúvidas ortográficas, outro perdido demais para dar atenção às incertezas próximas, porque estava mais interessado nas incertezas futuras, outro com o nariz muito sensível.

O professor partiu sem nem mesmo ter chegado. Saiu para dar espaço no palco ao novo personagem que se apresentava, atencioso ao próprio umbigo, mas que acrescentou ao cenário um novo perfume. Alice não se lembrava de ter esbarrado com o referido antes, mas isso não importava muito, achou que o rapaz tinha cara de fome e às barrigas vazias é cortês oferecer forragem.

- Como assim você convida para comer e depois dá o fora? Isso não se faz nem a um inimigo, quanto mais a quem você quer ao seu lado num Cagaço. Vamos comer! Eu pago! Quem quiser me segue. – Gritou ela, com a mão na cintura, rebolando muito para bater a mão no bolso que não estava lá e por isso mesmo estava vazio, mas que metaforicamente serviria muito bem para pagar o que quisesse a quem bem quisesse, sem medo de ser obrigada a lavar os pratos depois de terminado o banquete, o que provavelmente aconteceria, pois não tinha um níquel furado escondido em parte alguma.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Fiascos do fim do mundo


Publicando novamente este texto de julho de 2011.

Naquele dia por acaso resolveram promover o Fim do mundo. Em hora imprópria e sem a pompa dos símbolos bíblicos. Fim de mundo fajuto: sem anjo nem arcanjo tocando trombeta no céu, nenhum dragão de sete cabeças cuspindo pragas do Egito. Esqueceram de fazer nascerem os doze bezerros pintados de ouro com três cabeças cada. Não contrataram a Santa para se vestir de Prostituta e parir um Messiazinho ao avesso para trazer ao mundo os consolos da destruição total.