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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Aparências

A consonância entre a aparência e a essência das pessoas não é obrigatória.

Há pessoas nas quais a real personalidade jamais transparece e há pessoas que demonstram exatamente o que são. Não posso classificar estas últimas como dignas de serem chamadas sinceras, são apenas incapazes de parecer um pouco melhores do que não podiam deixar de ser.

Existem ainda as distorções. Os outros tiram conclusões sobre nós que independem do que vêem ou ouvem. Baseiam estes julgamentos em circunstâncias e detalhes de suas próprias vidas. Enxergamos as outras pessoas através da nossa própria miopia.

domingo, 16 de maio de 2010

Humanas Criaturas


A criatura humana entrou em decadência dois minutos após a Criação. É penoso a ela reconhecer a descentralização do Universo, é penoso reconhecer como o umbigo não atrai para si os desvelos de toda a corte celestial.
A criatura humana crê em um Criador até se por sobre os dois pés e alcançar a fruta das ilusões. Ela nega a um deus inventado, remédio para todos os males, resposta para todas as perguntas, pão para todas as fomes. A criatura humana desconhece o seu papel no cosmos: rejeita a passagem do tempo, rejeita as adversidades da vida, rejeita a inevitável morte. Mas ela clama pelo deus rejeitado quando se aproxima a hora de agonia, porque as ilusões são vazias, disfarces para uma verdade inegável. Deus existe, não existe para servir aos caprichos da presunçosa criatura, existe para que tudo o mais possa existir.
O Criador não é um ser isolado, é a obra em si e tudo que dela faz parte. A criatura humana é parte da Criação, mas ela prefere abrir mão do seu papel para se acomodar. Deseja que o Universo se expanda sem ela, deseja o fim da violência, a solução para as guerras e para a fome, o fim da poluição, contanto que não seja necessário erguer-se um dedo para isso. A criatura humana é fútil, burra e preguiçosa. Joga sobre o seu deus inventado a responsabilidade de suas omissões e egoísmos. A criatura humana sonha com uma pós-vida sob a medida de seus egoísmos. A criatura humana aprende devagar, esquece rápido, desiste cedo, reclama muito.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Idéias retiradas da infância


Desde pequena, eu tinha o hábito de jogar com as minhas escolhas. Sempre que eu tinha uma tarefa a cumprir, fossem trabalhos escolares, domésticos ou familiares, e era necessário estabelecer uma ordem para executá-los, eu colocava em prática um método  baseado nas seguintes prioridades: primeiro o mais difícil, mais demorado ou desagradável. Um meio de sofrer logo o que tivesse de ser sofrido, descartar o maçante e deixar o prazeroso para o final. Porém, o que vem depois do sofrimento nem sempre é o prazer. O prazer é às vezes substituído por inssossa ausência de dor, desprezível repouso para os nervos.
Nas divisões de tarefa, eu usava um esquema igualmente estranho: o mais chato ou trabalhoso era minha parte, com os outros ficava o restante da empreitada. 
Naquele que vinha sendo um dia tortuoso para mim, em lugar de deixar para trás a proximidade com a imagem ameaçadora que o local deixou em meu espírito, preferi enfrentar de uma vez aquela nova incursão ao terreno pedregoso, e provar a mim mesma que minhas más impressões sobre locais eram somente isto, impressões.
Esqueci-me de que impressões são marcas, permanentes, testemunhais. Sinais.

terça-feira, 2 de março de 2010

Poema sem métrica encontrado no fundo da gaveta

Somente Deus sabe a velocidade dos sonhos humanos,
onde se empilham objetos inúteis e deperdiçam-se neurônios.
Ó Deus! De que tecido porco teceste o coração dos homens?
De que má safra colheste estas más sementes? Transgênicos?

Culpa, solidão, abandono.
Tristeza, revolta, fraqueza.
Inveja, egoísmo, vileza.

Não, não... não se engane.

O amor só existe para amenizar o ódio.
E a inocência é a ignorância do pecado.
Por isso, só os inocentes amam e o fazem
pois ignorantes são.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ato de fé


Eu acredito que todo ser humano pode aprender, mesmo depois de crescido, a respeitar os outros e a lutar pelos seus direitos e interesses.

Eu não acredito em autoridades estabelecidas, não acredito em regras criadas por comissões que não sentem na pele as questões envolvidas na pauta.

Eu acredito na educação que transparece no ato das pessoas conscientes e supera as manifestações contrárias.

 Não acredito no ensino obrigatório e tendencioso das escolas, não  acredito na informação da mídia vendida. Não acredito em propaganda política eleitoral. Eu não acredito em outdoors. Eu não acredito em slogans, muito menos em gritos de guerra.

Eu acredito que colocar o meu lixo no lugar correto, reciclar e respeitar o espaço dos meus vizinhos não é ser certinha exagerada.

Não acredito em telenovelas, não acredito nos jornais nacionais; não acredito nos líderes religiosos marketeiros, não acredito em curas milagrosas, não acredito em livros de auto-ajuda, não acredito em discursos repetidos e nunca ampliados.

Eu acredito nas pessoas.

Não acredito que a aparência é tudo; não acredito em vendedores, não acredito em pregadores, não acredito em relações públicas, não acredito que vou enricar com facilidade, não acredito em profissionais sem concorrência, não acredito em anúncios institucionais; não acredito em governo sem oposição, não acredito em oposição que não se manifesta, não acredito em pessoas que  só falam bem de si mesmas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Travessia



Por que os homens julgam que as espadas e as balas foram criadas para atacar? É característico do masculino enxergar em todos os seus inventos e produções do intelecto lâminas e projéteis, prontos a ferir àqueles que se interpõe em seus caminhos. "Se algo nos incomoda, destrua-se!" Discordo dessa concepção.

Espadas e revólveres foram inventados para proteger as pessoas – de outras pessoas, infelizmente. Assim como o conhecimento científico não existe para inventar meios de matar mais pessoas com uma eficiência maior, mas, para melhorar as condições de vida da população por mais ingênuo que isto possa soar.

Os homens escrevem a história, decidem que ela deve ser contada às crianças pontualmente pelo sangue que se derramou e pelas cabeças que foram arrancadas. No imaginário masculino, quando dois homens precisam cruzar uma ponte em sentidos opostos, um deles deve morrer ou ser humilhado para dar passagem ao mais forte ou sábio. Quando dois seres humanos precisam cruzar uma ponte, o mais acertado é que ambos cedam à passagem ao outro, e o que tiver maior pressa tome a dianteira. Se o menos apressado resolver atravessar primeiro, então o mais apressado deve aguardar, pois o direito de travessia da ponte é igual para todos.

Viver em um mundo que transforma a travessia de uma ponte em um conflito bélico é angustiante. Abandonemos a ponte e atravessemos o rio a nado, talvez a correnteza nos leve para um novo mundo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sobre a verdade das coisas


Por que duas histórias contraditórias não podem ser verdade? Afinal, todas as coisas são verdadeiras e falsas, são yin e yang. E o que importa? Se o sol nascer e se pôr todos os dias, e a chuva cair e água dos mares evaporar e tornar a chover, e as plantas crescerem, os animais as comerem, morrerem, virarem esterco para adubar as plantas, se tudo isso pode acontecer sem interferência de crenças ou explicações, então, por que questionar o mundo?

No princípio, o mundo era somente dúvida e ignorância. Não porque faltasse explicação, mas porque os homens tinham pouco conhecimento. Com o tempo, os homens substituíram o medo e a superstição pelas explicações. O universo é infinito, o saber também; sempre haverá coisas para se descobrir, portanto, dizer “isto é possível, isto não” é declarar algo sem conhecimento de causa. Tudo é possível, o verdadeiro pode ser falso e o falso verdadeiro, nada é absoluto. Hoje, podemos jurar de joelhos que uma coisa é certa. Amanhã, se nos obrigarem, juraremos que é errado. Desse jeito, certo e errado são convenções arbitrárias em alternância, uma hora são, outra hora não são. Quantas vezes assistira a tudo mudar e ficar igual outra vez?

Provas havia do seu ceticismo, porém, a sua descrença não atingia toda a realidade circundante, recaía especialmente sobre as pessoas. Sobre gente não há nada novo para acrescentar nos anais da história humana, sobre a natureza e a ordem universal sempre haverá. O Homem jamais terá conhecimento de tudo, deve, então, contentar-se com o conhecimento parcial e acostumar-se a acolher o impossível como possível quando chegarem as ocasiões.