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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O dia em que me tornei Gregor Samsa Ou A metamorfose



Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, percebeu que não era mais a mesma do dia anterior. Suas entranhas revolviam-se em seu ventre, como uma pia velha que há muito não sabe o que é encanação nova. O conteúdo do seu estômago decidiu que o ralo era melhor recanto do que os seus intestinos, e pelo ralo escoou, esverdeado a princípio, líquido transparente após horas de vômitos intermináveis.
O que havia? Caíra vítima da última epidemia apocalíptica da moda, mais um mega vírus filho das mudanças climáticas daquele início de milênio amaldiçoado, que as pessoas teimavam em enxergar como um novo milênio igual a qualquer outro? Morreria assim, sem o glamour de uma tísica tez dos poetas moribundos? Nem mesmo o amarelão de uma exploradora do continente selvagem, carregada em liteira por africanos lustrosos sob o sol escaldante do novo mundo? Nada disso, aliás, só isso, só o cheiro desagradável de seu próprio conteúdo compartilhado com a fossa, pois ali, naquele fim de mundo latino americano não havia sequer uma companhia de águas e esgotos, havia só a fossa.
Na fossa, era onde estava. Decidiu consultar um médico. Amigo da família. Se é que as pessoas acreditam em amizades a uma altura dessas. Como quem não diz nada, ele disse, sem remorso, “ a senhora vai se tornar duas”.
“Eu? Por que eu? Não concordo.”
Não havia erro. Esta era uma daquelas coisas que independem da nossa vontade. Bipartir-se-ia. Seu código genético geraria uma cópia imperfeita de si, em versão miniaturizada, causando-lhe, naturalmente, grande incômodo no processo.
“Que me aconteceu?” pensou. Não era nenhum sonho. Inconcebível que sem o seu consentimento alguém houvesse determinado coisa dessa tramontana. Nenhum aviso prévio, carta requisitória, processo licitatório. Só o baque.
“De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe?” Trabalhou para habituar-se ao ocorrido. Contou aos pares, avisou seu patrão. Seu marido chorou ao saber do ocorrido. Resignou-se mais tarde, serenado, talvez, pelo fato de que não seria ele a vítima de tão terrível metamorfose!
Meses transcorreram, terríveis momentos de expectativa. Antes de dividir-se, precisava dobrar de tamanho. Multiplicaram-se as células, convulsas umas sobre as outras, celebrando entre si casamentos misteriosos pelos mitocôndrios. Ia ficando cada vez mais difícil caminhar, comer, dormir, respirar. Todos tentavam, apesar das evidências em contrário, convencer-lhe de que isso era normal.
Até aquele fatídico dia, deitada sobre a amurada de seu jardim, tomando o último sol não cancerígeno da manhã, com seu imenso ventre de mulher duplicada para cima. Olhou para o belo céu azul e sentiu que já havia passado tempo demais ali, quis virar-se para a direita e endireitar-se para entrar em casa, quando percebeu que não o conseguiria sem imensa dor. As vértebras não lhe obedeciam mais. O ar fugiu, a dor atordoou seu orgulho, a voz saiu-lhe fraca:
“Socorro”.
Havia, por fim, se transformado em um personagem de Kafka. Tal qual Gregor Samsa metamorfoseado em inseto gigante, aprisionara-se de barriga para cima no quintal de sua casa, incapaz de se levantar sem recorrer aos familiares.
A mãe veio em seu auxílio.

“Toma juízo menina, onde já seu viu grávida deitar no chão desse jeito!”

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ser menina

Menina
Capítulo 1

Ser Menina

           Nascera mulher e por obrigação devia portar-se como uma dama. Ser dama, na verdade, não lhe entrava na cabeça. Primeiro, porque "dama" é uma palavra medieval utilizada até hoje, século XXI, totalmente descontextualizada. Mas o fora de contexto não ia por sua mente infantil, ser dama era o mesmo que ser menina boazinha.  Quase ser princesa; gostaria de ser princesa, mas era pobre.       
         Era pequena a  ponto de brincar de balanço, porém lhe proibiam usar roupa curta ou mostrar a barriga. Era proibido ainda brincar no meio dos meninos. Tinha tantos primos, todos da sua idade, todos com brinquedos novos e novidadeiros, sabendo coisas diferentes, mas não podia brincar com eles. 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Era uma vez um burrinho


Ana Castro 

Era uma vez um burrinho que nasceu feio feito a necessidade. Não daquelas necessidades bobas, de comprar Play Station 2 ou bicicleta de marcha. Necessidade mesmo, daquelas que você passa quando não chove e o rio da sua cidade seca e você precisa tomar água de uma cacimba. O burrinho foi criado no interior, era gordo, ao ponto de ninguém perceber que era feio. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. O burrinho pensava que tudo poderia ficar pior se não houvesse mais a carga, porque o dono lhe dava comida só por causa da carga. Ele quebrava as costelas carregando as pedras que o dono mandava e o dono retribuía com a comida. Não se importava que cada dia a carga ficasse mais pesada e a comida mais pouca, contanto que houvesse carga, pensava, haveria comida. E água.
Na cabeça do burrinho, penso eu a narradora, esta devia ser a vida de todos os burrinhos, ele havia nascido para ser um burrinho cargueiro, que comia devido à bondade de seu dono. E à carga.
Mas o mundo, como todos bem sabem, não se compõe somente de burrinhos e cargas. O mundo é grande e cheio de perigos e surpresas. Um dia parou de chover, quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos. Dizem que foi por causa do desmatamento das matas ciliares, outros dizem que os gases liberados pelas vacas foram tantos que o buraco da camada de ozônio se tornou grande demais, a temperatura da terra mudou e o clima junto. Aí parou de chover. Quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos.
Sem chuva, ninguém mais precisava de pedras. O dono do burro perdeu o emprego das pedras. Ele vendeu o burro para dar de comer aos filhos, e o burrinho trocou de sina. O novo dono era dono também de uma charqueada. Lá se foi o burrinho, triste, preso na carroceria de um caminhão velho, junto com vários outros burrinhos de todas as cores e procedências. Iam para charqueada, que como todos bem sabem, trata-se do local onde se entra burro e sai-se charque. Ali, na estrada cumprida, o burrinho aprendeu que todos os burrinhos são iguais, dividem a mesma sina de animais tristes, explorados, com mais carga do que comida. Aonde iam, não sabiam, mas iam.
Chegaram. Viagem sem água, nem comida, nem sombra. O motorista manobrava para estacionar próximo à rampa de acesso. Os urros dos burrinhos incomodados formavam uma sinfonia triste de doer coração de quem ainda leva o coração no peito. Perguntas sem resposta pipocavam na mente do nosso burrinho: onde estamos? Por que não nos deram água? O que vai acontecer conosco? O novo dono precisa que carreguemos pedras? A que horas nos darão palha? Todas as respostas deixaram-se ficar sem respostas enquanto o fundo do caminhão se aproximava lentamente da entrada do matadouro. Devo aqui dizer que o destino certo do nosso burrinho e de seus companheiros burrinhos teria se cumprido não fosse a intervenção de uma força maior. Um decreto presidencial ordenava o fechamento de todas as charqueadas do Estado e a destinação imediata dos equinos, muares e asininos para um novo Ministério que acabara de ser fundado: o Ministério de Apoio Mútuo às Emergências e Desastres Naturais. Parece-me que esta nossa história ambientada em um futuro alternativo caminha para um desenlace incerto. O que não é de todo mal, pois o destino de todos nós é incerto até que se concretize.
Os burrinhos desceram do caminhão 45km a frente, equilibraram-se pela rampa bamba até um curral abastecido com água, palmas, palha e sombra para todos. No meio da noite, uma luz forte foi acesa e homens usando luvas de proteção vieram ao curral para borrifar um líquido sem cor nos burrinhos, passaram pomadas em suas feridas e trocaram as ferraduras rachadas. Os outros burrinhos eu não sei, mas o nosso ficou contentíssimo, ele entendia que estavam recebendo tratamento cuidadoso, isso só poderia significar que seriam novamente empregados. E foram.
A grande seca não atingiu apenas o negócio de pedras do seu antigo patrão, mas todo o país. Cidades com bilhões de habitantes que se amontoavam em prédios altos como as nuvens morriam de sede e fome, não havia água o bastante para gerar energia elétrica que movesse os motores de sucção de água do subsolo. O combustível fóssil se exauriu em poucos meses para aquele país que dependia de sua agricultura, agora impraticável devido à falta de chuvas (dizem que o combustível alcançou preços proibitivos, dizem até que o governo preferiu vender o combustível aos estrangeiros na mesma situação a usá-lo com seus cidadãos, mas essas histórias eram rapidamente sufocadas pela urgência do trabalho duro). No lugar de braços mecânicos e motores bebedores do óleo negro mais caro do que ouro, foram colocados braços, lombos e pernas de homens, mulheres e todo o tipo de animais de tração. O transporte era feito por animais e pessoas puxando outras pessoas, algumas vezes as pessoas e animais iam puxando as carcaças dos antigos automóveis, carregando outras pessoas ou mercadorias. Os animais giravam imensas rodas de moinhos que içavam do subsolo água para matar a sede, carregavam água salobra do mar para tanques de dessalinização e carregavam o refugo para piscinas artificiais onde se criavam peixes e outras criaturas marítimas das quais nosso burrinho nunca ouvira falar. Nas cidades, não se viam mais ônibus ou caminhões, muito menos carros pequenos, viam-se bicicletas, carroças, enormes carroças assemelhadas a barcaças sendo puxadas por 5 parelhas de touros. E pessoas, muitas pessoas, que preferiam caminhar à sombra dos edifícios colossais ao invés de cozinhar dentro deles sem refrigeração artificial. O comércio mudara rapidamente, em uma semana, o burrinho e seus companheiros não serviam para nada além da charqueada, carne barata para gente pobre comer. Na outra semana, eram mais valiosos do que qualquer automóvel de luxo.

Finalmente o burrinho sentiu-se necessário, sentiu que o que fazia era bom. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. Sabia que os donos nunca deixariam de precisar da água, sempre lhe dariam um pouco desta, e teria palha e sombra. Amava os homens porque precisavam de seu trabalho, amava-os mais ainda agora: sabia que os homens também carregam as coisas quando necessitam. O burrinho pela primeira vez foi feliz e continuou sendo até o dia de sua morte.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tudo o que será

Será? Será que será? 

A promessa que me fizeram foi essa: tudo será melhor. Dessa vez, tudo vai dar certo. Amanhã será muito melhor do que ontem. Alimento, assim, a esperança hoje de que amanhá será muito melhor.

A esperança faz um calorzinho aqui dentro de mim onde antes havia dor e medo. Quero chorar de felicidade, lágrimas chegam-me aos olhos. Amanhã vai ser bem melhor. Sim, eu acredito. Eu quero acreditar.

Vai ser melhor, vai ser melhor, tudo será, tudo será.

Obrigada.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O som da festa


- Essa, eu garanto, vai ser a última vez.

E o zunido na cabeça a fazia odiar o mundo, pedir a Deus para ficar surda. Não era só o som da festa, natalina, eram as vozes, os passos, os talheres batendo nos pratos, as televisões. Era aquela gente toda comemorando o nada.

Mas talvez não fosse. Talvez, quem sabe, fosse coisa só sua, isso de odiar os sons, mal querência cultivada desde sempre. Ou seriam os remédios? Odiava os remédios também, mas que direito a gente tem de odiar aquilo de que depende? Desde menina, a falta de sono, o apetite minguado, o juízo alvoroçado por qualquer barulho. Coisa fina o juízo dela. 

Honesta e trabalhadora, porém. Criou os filhos sem pai, os netos sem genros. Escovava as calçadas alheias, era o gari da rua. E o vigia, o síndico, mas nunca a fofoqueira. Só que não gostava de barulho.

Estava errado aquilo, deixar o som alto demais, acima das especificações da lei. Valia a lei? Reclamar, reclamava sempre, saía de chata. Mulherzinha reclamona. Só quem sabia de suas dores era ela própria. Outro, no seu lugar, teria pirado há muito mais tempo. Ela não, viveu ali vinte anos e só fez reclamar. Nem isso, pedir com educação. Ouviram? Não.

Agora era o basta.

Procurou, sabia que estava lá, numa caixa, esquecido. Achou, sorriu aliviada, pois se não achasse seria bem pior. Vestiu o roupão por cima da camisola e arrastou as sandálias até lá.

- Pou...

Quase ninguém notou até que alguém notasse. 

Um tiro só no meio da testa do dono da festa na frente dos filhos pra festa acabar. E o som ficou mudo.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sermões

Não se deve esperar das pessoas mais do que a sua essência recoberta por grossas camadas de hipocrisia. Certos indivíduos, todavia, desinteressam-se de esconder suas essências, conscientes das conseqüências disso. Pode-se dizer que o padre M. fosse um destes seres conscientes de si, convicto o suficiente da sua própria identidade para não precisar chafurdar na lama do “tudo é permitido”.

Jesus andou entre as prostitutas e os cobradores de impostos? Sim. Ele pregou às suas ovelhas que se comportassem como prostitutas e cobradores de impostos? Não. Jesus disse “Amai ao próximo como a ti mesmo” e também disse “o corpo é o templo do espírito”, Ele não disse para amarmos o próximo em sua promiscuidade ou erro e não disse para seguirmos os desígnios do corpo e ignorarmos os desígnios do espírito. Jesus não disse para os homens irem às putas e amá-las em sua devassidão, ele disse para amarmos os devassos como amamos aos nossos filhos, irmãos, pais. Quem vê um filho cair na devassidão e o aplaude? Acaso um bom pai não é aquele que procura guiar seu filho pelo caminho da retidão? 

É certo que o velho padre M. não era a favor de um Estado onde se aprovassem Leis que restringissem o direito das pessoas fazerem suas próprias escolhas, porque a Deus não interessa a obediência forçada e hipócrita. A liberdade que Deus nos concede é a liberdade para seguirmos por caminhos retos e colhermos os bons frutos da nossa bondade ou a de seguirmos pelos caminhos tortos e sofrermos com o amargor de nossos maus frutos.

Por isso não são censuráveis as censuras do velho padre M., são frutos de seu amor pelo próximo e seu sofrimento pelos que são causa de seu próprio infortúnio. Feliz é o homem que não é causa de seu próprio infortúnio, este pode se considerar inocente.


(Trecho de um de vários sermões que escrevi para um antigo personagem padre. Mal creio que a cristandade sobreviva sem mim.)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Criação

Para que me criaram, pergunto. Sou obra de algum arquiteto, há propósito na minha preparação  para o mundo, quero saber. Nasci, como dizem, para ser feliz, ou nasci, como dizem, para penar. Tenho liberdade para decidir a que vim, talvez, escolher o que devo ser. Talvez não, posso ter sido criada por acaso, sem razão, fruto de um desejo incerto, largada ao léu, tornei-me o que quis, sem querer, não sei.

Qual seu sonho? perguntou a menininha. Tão inocente, quer saber o que eu sonho, mas eu não sonho, lamento. Realizei todos os meus sonhos, só que cedo demais, sobrou tempo para pensar, devia ter me demorado mais no processo, assim restaria pouco para a apreciação de mim, esta obra, sem arquiteto, sem propósito, despreparada para o mundo.

Perdi os objetivos, aliás, cumpri-lhes. O que me resta? Matar o tempo, matar o tempo, matar o tempo...

E se eu fizer, disser, quiser algo novo, que me dirão? Que não. Devo contentar-me com o realizado, estancar qualquer vontade, estacionar ali e deixar de estúcia.

Obedecerei, é claro, a mim, não a outro, não há outro, hei. Resto-me. Criei-me.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

A voz

Devíamos ser livres para dizer o que quiséssemos. Mas, se nem o nosso pensamento é livre como a nossa voz pode ser? Volta e meia nos pegamos tendo medo das nossas ideias, por serem diferentes demais, ousadas demais. Achamos que a regra é pensarmos todos igual. E assim não somos livres para dizer o que desejamos, sob pena de sermos tomados por loucos.

Então nos calamos, permanecemos fechados com nossas próprias ideias. Por que tudo o que dizemos e pensamos precisa estar certo? Por que não podemos estar errados? Será que é tão difícil sermos aceitos com nossos erros, nossas dúvidas, nossas maluquices ao ponto de não merecermos atenção?

É essa a individualidade perdida, eu acho. Se é que o que eu acho é importante. Dizem que não é. Mas eu sigo achando. Penso tudo ao contrário, penso torto, contradigo por vingança, repenso desnecessariamente. Não me dão a voz e eu me vingo com o silêncio. Ou eu digo o que desejo ou digo nada. Assim está bom para vocês? Falta a liberdade para discordar, exerço a liberdade de não reforçar.

Vocês não acreditam em mim, não acreditarei em vocês. Vocês riem de mim, rirei de vocês. O seu desprezo me concede a liberação de que preciso para construir uma alternativa ao desprezo. A fuga. Sim, agora eu entendo os silêncios e ausências de Lispector, as pseudo-fugas. Aquelas eram pessoas que não eram, por isso precisavam fugir. Mas, fugir não é covardia? Eu não quero ser covarde. Muito pelo contrário. Eu vou ficar e confrontá-los com meu desprezo. Manter-me-ei sã, lúcida, inteira, presente, produtiva. Quando vierem me perguntar o que achei de tudo, crentes de que eu responderei satisfatoriamente, eu direi a verdade. Nada me agradou.

Não me deixaram falar, duvidaram de mim, pensaram que eu tinha deixado de pensar, mas estavam todos enganados, eu ainda pensava, escondida, sem que vocês soubessem. 

Eu os enganei, mantive meu exterior camuflado conforme a moda do tempo, e ninguém foi capaz de dizer que eu estava achando tudo ridículo. Ou perceberam, mas fingiram não ter percebido, porque isso os incomodava demais.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O corpo na caixa

O menino nasceu como nascem todos os meninos: miúdo e chorão. Razão para chorar jamais lhe faltou. O sol quente no cimento frio, o colchão rasgado e pinicante, a água quente derramada de cima do fogão.

Via seu pai muito pouco, figura negra sempre coberta pela fuligem do carvão. O garfo ameaçador de trabalhador mal pago.

O rosto de sua mãe era sempre um braseiro de gritos e sorrisos escondidos por detrás da fumaça do fogão de lenha. Ela também chorava nos dias em que o pai batia e xingava as vizinhas faladeiras.

O menino crescia e continuava miúdo, mas  estranhamente não chorava mais. Nem quando a professora beliscava por ele ser muito danado. Nem mesmo daquela vez em que um moleque da outra rua partiu sua cabeça com uma bodocada. A pedra bateu e o sangue escorreu,  o menino só fez desmaiar.

Depois aquele moleque teve o que mereceu. Comeu porrada até largar os dentes no mato. O que tinha dado naquele menino miúdo para se tornar tão bravo ninguém entendia. Ele quis se fazer homem cedo, carregar o garfo ameaçador no lugar de seu pai e arquear com o peso todo da lenha para não fustigar sua mãe. Ele não ia aceitar mais que lhe apedrejassem.

Xingava feito a mãe e batia em quem lhe desagradasse. Esmurrava, xingava, chutava. No trabalho ou na rua, até na bebedeira. Tinha um ódio mortal contra bêbados folgados ou falastrões.

Não se sabe quem, mas alguém deu cabo do menino briguento. Ele acabou miúdo dentro de uma caixa de papelão na beira de uma lagoa.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quanto mais se reza...


Vamos ser francos? Rezar resolve? Se resolve, rezem aí por mim, que eu mesma já desisti. 

Os psicólogos que se rebolem em cima de seus tamboretes por lerem esta obviedade proverbial das minhas emoções em fuga: o único remédio deste mundo é estar fora dele. Eu me lembro muito bem que este era o lance dos românticos, e quer saber? Estavam certíssimos: com este mundo, a solução é outro. Outro, outro mundo, entende? É por isso que religião faz tanto sucesso. Quer coisa mais óbvia do que constatar que o mundo é uma droga, e a solução é fugirmos?!

Agora, não me perguntem se alguém virá nos buscar, eu não ando pondo banca de missionária ou coisa e tal. Aliás, se me perguntassem, eu arriscaria dizer que ninguém vem nos buscar, no máximo, vejam bem, no máximo... Já tem outra raça pro nosso lugar. É claro! Por que outra razão as profecias religiosas nos ameaçam com o fim deste mundo, a não ser como aviso prévio de que Deus está criando coisa melhor para chamar de sua "Criação". 

E podemos culpar a Deus por isso? Eu não me atrevo! Ele está é muito do certo. Neste mundo, em que ninguém mais vale uma pipoca, em que todos querem só garantir o seu, em que vagabundo veste beca de doutor e manda dar surra em operário, em que todos acham que estão certos e ninguém assume que está errado. É difícil advogar a nosso favor, humanos irmãos meus, é difícil.

O mundo em que vivemos anda de tal forma corroído, que parece até o mesmo do qual os antigos reclamavam, e Deus fez o favor de afogar no dilúvio. E aí, cadê o dilúvio novo? Está demorando.

Pode ser, repito, pode ser, que esta minha sede diluviana venha do fato que eu venha lidando com filhos da puta demais ultimamente. Mas se até Jó se lamentou, quem sou eu para não me lamentar? 

Que venham os fins, pois estes meios já me cansaram demais.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Filosofares....

Vivemos em tal estado de paranoia internáutica, que o sujeito acha que se você tiver uma página na internet é porque você existe mesmo. Pode?

O ser humano não se resolveu ainda nem quanto ao fato se nós existimos ou não. Sério. Você existe? Tem certeza? Pensa outra vez. Ah! Se você duvida é porque você existe? Rapaz, e se você estiver programado pra pensar assim? O Descartes nem tinha computador, como é que ele podia ter tanta certeza que existia? Agora o mais louco: se o Descartes existia, e morreu, ele existe ainda ou deixou de existir?

Eu sei que ele tá morto, mas a memória dele está aí. Ele conta. Ele faz diferença. O Descartes faz mais diferença na nossa vida do que o vizinho da quarta casa depois da nossa. A gente pelo menos sabe o nome do vizinho...

Mas, voltando ao cara que acha que só existe quem tem site na internet, eu pergunto: Vale ter blogue? Brincadeira.

O sujeito deve ser dessas pessoas que aprendeu a usar o PC ontem, e pensam que de fato atrás de cada nick name existe um CPF. Mal sabe ele que metade da população online é um chinês só, mas com personalidade múltipla. Mal sabe ele que todo mundo na rede vira outro, e se multiplica feito vírus, pior do que o agente Smith de Matrix.

Esse sujeito deve acreditar mesmo que só dão golpes as pessoas que não tem site na internet. Eu vou fundar uma igreja pela internet, e ver se ainda arrebanho algum trouxa... ou se todos os que existem já acharam seus pastores.

Agora me deem licença, eu vou ali testar minha existência num joguinho flash.

terça-feira, 14 de maio de 2013

o poetar da poetisa

Não sou poeta
Não quero ser poeta
Eu sou prosa, sou marcha
Sou fila, sou baia
Eu sou, no máximo, com ressalvas
poetisa.

Ainda que eu fosse A poetisa
eu não seria cantora
nem cultora
nem coreógrafa de fantasias sexuais
nem jardineira de flores que não dessem frutos
nem musa amorosa

Se eu fosse poetisa
meu ofício seria poetar
não ser musa.

Se eu fosse poetisa
queria ser conhecida como
A maldita
A boca do inferno
A inconveniente
Vate da discórdia
Vate dos diabos
Profeta da maldade
Língua de duas pontas
Língua de navalha
Voz do fim do mundo
Voz do caos
Amazona da destruição
Égua sem arreio
Cão sem dono
Anjo da perdição
Mão da Justiça
Mão do Carrasco
Corda da forca
Cobra Cascavel
Cobra patrona
Cobra do chocalho
Arco da vingança
Luva da execução...

e se assim não for, não serei eu poetisa
preferirei continuar professora de últimas letras
corrigidora de redações mal feitas
lambe tinta sem importância
e somente assim serei eu poetisa

venha o ódio
venha o rancor
venham as pancadas
matem a poetisa
crucifiquem!

mas o meu canto, o meu verso, o meu lamento, a minha lamúria, o meu dizer de maldição, o meu conjúrio, a minha confissão ao pé do cadafalso, as minhas últimas palavras, os meus últimos suspiros, neles, com eles, eu juro, eu vos destruirei.... com a verdade do meu coração.

terça-feira, 2 de abril de 2013

A busca pela verdade

Seria essa a nossa questão fundamental? A verdade? Ela existe?

Eu não sei. Mas possuo a minha verdade pessoal, e faço questão de alterá-la um pouco todos os dias para garantir que ninguém irá copiar a minha fórmula de verdade.

A relatividade é tudo, eu acho, apesar de uma afirmação tão conclusiva não condizer com a premissa. O certo é que ninguém se conhece o bastante ou conhece a qualquer um o bastante para afirmar categoricamente que algo seja verdade.

Uns meses atrás alguém me perguntou como eu mantinha o meu ânimo. Aí alguém que me conhece pára e pensa, "a Ana, ânimo, de onde este louco tirou essa pergunta sobre a pessoa mais sem ânimo que há". De fato, de fato, eu sou muitas coisas que não combinam com uma pessoa cheia de ânimo. Eu sou pessimista, preguiçosa, omissa, procrastinadora, cética e DESANIMADA. Se eu fosse um aparelho de TV, estaria sempre em stand by. Sério. O que há em mim que simula ânimo é a minha teimosia, que eu prefiro chamar de lógica irredutível. A minha lógica é tão irredutível que somente a observação minuciosa e completa dos argumentos em contrário, quando não dos fatos resultantes em si, pode me levar a mudar de ideia.

E eu mudo de ideia, afinal, a verdade é relativa não porque decidiu ser relativa a tudo, ela é relativa para melhor se adaptar à marcha dos tempos. E aquela pessoa que me perguntou como eu mantenho meu ânimo, queria saber como eu me mantinha dedicada num emprego cujo público é desatento, relapso e eternamente medíocre.

Eu respondi, é lógico, a mais pura verdade. Eu sigo tentando por raiva. Raiva de desistir, raiva de me deixar desmentir. Raiva porque há quem pense diferente de mim, porque existe um pouco de verdade que precisa ser transmitida e eu estou neste mundo para isso. Resquícios do meu espírito catequético, talvez, ou não, afinal eu estou hoje mais para anticristo do que o contrário.

Por segurança, porém, eu ressalvo, a raiva não é boa conselheira, apesar de ser excelente combustível para a ação. Ela dá adrenalina, não mede consequências. É motivadora, mas desmancha no ar e quase sempre deixa resquícios dolorosos nos músculos da alta carga de stress.

O ódio é veneno para a alma, diriam. Destes venenos que as pessoas compram para usar homeopaticamente. O que eu apontaria como desabono da raiva e por consequência como nocivo à relatividade da verdade é a sua faceta peculiar de procurar certezas absolutas para se posicionar atrás delas. A raiva é uma reação muito simples, sem nuances, sem sombras ou semitons de cinza. Portanto, é uma má companheira no caminho que busca pela verdade.

Ainda assim a raiva é o meu estimulante preferido.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Solidariedade


Pra que ajudar os outros? Eu estava ajudando aquele rapaz pela razão mais deslavada do mundo, por educação. Não porque eu fosse uma pessoa muito educada, era por condicionamento puro. Fui criada ouvindo dizer que devemos ajudar os outros, não só para alimentar nosso ego altruísta, mas porque negar auxílio ao próximo vale uns 100 pontos negativos na passagem para o Céu. Entende? Não basta ser bom e ficar na sua para alcançar a benção de Deus, você precisa colocar a mão na massa, cruzar os braços é o mesmo que ofender o santíssimo. Naquela altura da minha vida, eu não cria mais nessas patacoadas de Céu; no inferno eu acreditava um pouco, de qualquer forma, eu já tinha levado muitas bordoadas pela testa para achar que existe retribuição para as nossas bondades nessa vida, porém, o contrário, neste eu não podia deixar de crer jamais. Quer dizer, ser bom não tem recompensa, mas ser um miserável filho da mãe e foder com os outros de propósito, ah.... Isso não é coisa de passar impune. Nessa vida tudo tem troco. 

Como eu ia dizendo, tentar ajudar aquele rapaz fazia parte do que eu fui, era um ato automático, sem muito raciocínio, eu não estava de fato preocupada com ele.
Ajudá-lo era como me ajudar. Não havia nenhum mérito nesse meu ato. Será que foi isso que quiseram dizer quando mandou escreverem que o que a mão direita faz a esquerda não precisa saber? Foi como um "abaixa a bola que tu só faz o que te convém"?

Eu tava ajudando de má vontade, por descarrego de consciência, porque ajudar era mais fácil do que explicar o porquê de não ajudar. Mas se pudesse, não ajudava. Entende?

O peso de um nome


Eu não sabia mesmo não, de onde tinha vindo esse nome que eu tenho. Era só o meu nome, o primeiro nome ainda, todo mundo só dizia ele errado, eu nem ligava de corrigir. Nem sei por que me puseram esse nome, aliás, nem sei por que me puseram nesse mundo. Antigamente, os pais tinham uns quinze meninos, nem dava pra lembrar os nomes de todos. Deve ser por isso que se botava tanto apelido. O apelido tem a cara do dono, o nome nem sempre.

Mas, por que foi mesmo que me puseram no mundo? Deve ter sido por nada; pior, foi por acidente. Também, numa droga de mundo desses, para alguém decidir de sã consciência fazer um filho tem de ser muito pancada. Todo mundo nasce por acidente, puro conformismo da genitora. Minha mãe me dizia: “Minina, te pari por pena de te tirar”. Ela dizia na hora da raiva, devia ser verdade. O nome era isso, o desprezo de minha mãe em não me dar um nome melhor.





terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Canção de despedida

A primeira vez em que senti o peso da palavra despedida foi no pré-escolar. Fim do primeiro ano de estudos, festas de natal, despedidas. Passamos uma semana ensaiando a "Despedida" do Roberto Carlos. Quem conhece sabe que essa música é muito triste, para mim pelo menos, quando ouço "Despedida" do Roberto eu sempre sinto que quem está se despedindo vai morrer, nunca mais voltar, está dando um adeus definitivo. O fato é que chorei pra me despedir de colegas e professores que na maioria estavam lá no ano que chegou.

Não sei se para não repetir essa primeira dose de nostalgia antecipada, ou por uma outra razão aqui não aparente, passei a detestar despedidas. Fujo delas sempre que posso. Dou bolo em confraternizações de final de ano, em encerramentos, em culminâncias, em velórios. Até em velórios. Quer adeus mais definitivo do que o último?

É desnecessário ficar expressando nosso pesar pela interrupção da convivência com os outros. Primeiro, talvez nem exista o tal pesar, há pessoas que não nos fariam falta nenhuma e às quais a ausência ou presença nos seria indiferente.  Por que chorar se a pessoa nem está morrendo? Não é gosto por melodrama?

Infelizmente, vivemos em uma sociedade tão hipócrita que nos sentimos obrigados a fazer de conta que sentiremos falta das pessoas. Quer dizer, as pessoas andam com a autoestima tão em baixa que precisam de qualquer migalha de fingimento para não se sentirem mais em baixa ainda. Será possível que ninguém é seguro o suficiente para, mesmo não recebendo nenhuma declaração de amor de última hora do sujeito para o qual só disse "bom-dia" por educação, sentir-se ainda o mesmo de sempre sem tirar nem pôr pedaços de amor próprio? As pessoas dependem demais da opinião alheia (sempre dependeram, eu acho) e isso é um peso desnecessário. São rituais aos quais nos obrigamos para demonstrar sentimentos que não possuímos.

Claro, nem todas as despedidas são hipócritas. Não vamos exagerar no ceticismo.   É a artificialidade do ritual que me incomoda.

Finalizações, fechamentos de ciclos, são coisas necessárias... É necessário dizer que acabou o que todos estão vendo que está acabado? Comemorar o fim de uma guerra, celebrar o término de um período detestável, aí sim, parece-me mais adequada a celebração. Mas, dados os descontos, não é suficiente um "tchau, até logo"? Faz mais sentido fingirmos que nos veremos de novo em breve, que a separação é momentânea do que demonstrações sentimentais forçadas.

Então é isso. Acabou.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O bote do ódio

Espreita escondido atrás do olho esquerdo, depois do direito. É negro, tem a profundidade das coisas sem fim. Rodeia, atocaia, mais parece a vítima que se esconde do que o carrasco que aguarda o momento para empunhar o machado.

Houve o tempo em que passou adormecido, temeroso de se dar a conhecer à luz. Envergonhava-lhe sua figura disforme, malhada por indisfarçáveis manchas de desespero. Toda a sua força concentrada em suas convicções, aliás, crenças. O que por nada muda só pode ser medido pela régua da fé. Conhecia a razão pela qual fora criado, de certeza tão indiscutível quanto o nascer e renascer do sol todas as manhãs.

Nasceu então, brilhante, áspero, de altura inexplicável, cheio de gritos e roncos de dor. Avançou cegamente em todas as direções, bateu dolorosamente sobre a superfície dos seres, rebarbou, espumou e recuou, para voltar a se expandir e ir repelindo os sentimentos mesquinhos e de menor monta.

E rasgou e pisou, chorou um vômito amargo de afogado sem esperanças. Suas lágrimas se tornaram espinhos que rasgaram as carnes próximas. Rolou sangue e suor, e gargalhadas histéricas de incompreensão.

E riu, riu, riu, até cair. Desejou seguir de arrasto os alvos de sua dor, mas do tombo não mais se levantou. Asfixiou ali, em frente à platéia muda, com as mulheres tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o vexame da sua nudez esquelética.

O seu sorriso de morto eram os dentes falhos de uma caveira de olhos apodrecidos.


segunda-feira, 12 de março de 2012

O ventre enterrado





"Deus condenou a Serpente a rastejar seu ventre sobre a terra por seduzir Eva e Adão. Ainda hoje, como bicho de debaixo do chão a Serpente consegue engambelar muitos Adãos e muitas Evas e socá-los no bucho. Dizem que esses pobres vivem eternamente presos por lá."


A nossa Eva teve oito filhos. Oito para dar sorte, se fossem Sete dariam na conta do mentiroso. Oito. Um de cada pai, aliás, dois de um só, foram gêmeos. Cinco nasceram mortos, dois as avós criaram e um filho, o último, foi aquele a quem Eva amou.

Esse um, o último, foi o único a quem Eva não tentou matar. Sem pular, sem tomar beberagem, sem dormir de barriga para baixo no sol quente e na pedra fria. O último não era só filho do pai e do ventre, era filho seu também. Filho do desejo, da vontade, da carência de ser mãe. Filho que não foi feito à força nem por acidente. Era filho só; sem nada especial, com a diferença de lhe ter trazido juízo.

Foi o um do choro fino e das noites longas, cheias de cólicas e chás. O das fraldas cozidas e passadas com ferro de brasa. O dos remédios caros e das febres altas. Das garatujas em papel pautado e dos rabiscos nas paredes encardidas das casas de aluguel.

Cria difícil, teimosa em minguar, reimosa de criar. Moço bom e trabalhador, dos que trazem flor nos dias de anos e levam para trocar os óculos. Forçudo, bom de render meninos, muitos dos quais Eva ninou.

Tão bom filho, tão bom moço, até vela acesa nos dedos duros da velha finada Eva botou.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O mistério da porta fechada


Desde pequena a mãe lhe recomendava que mantivesse a porta da frente fechada. De manhã ou à tarde, na saída ou na entrada, passasse e fechasse a porta. Olhasse pela janela antes de abrir a porta. Pergunte sempre quem é. Nunca diga que está sozinha em casa. Fale que sua mãe está ocupada e não pode atender.

Quem lavava a calçada era a chuva. O lixo era o pai que colocava pra fora quando saía para o serviço. O muro era alto e a menina brincava no quadrado de terra preenchido com plantas ornamentais sem desconfiar do que se passava na rua. A rua era de terra e a camada fina de poeira vermelha assentava nos móveis. A mãe maldizia a poeira e a rua. Gostaria de viver onde não passassem carros.

O sol baixava e a conversa das mulheres sentadas nas calçadas atrapalhava ouvir a televisão. A mãe maldizia as vizinhas e o seu conversar. Gostaria de viver onde não passasse gente.

sábado, 11 de junho de 2011

Visitas


O sol invade o biongo pelos vãos rachados das telhas. Cozinha os miolos calvos do corpo caído no chão. A poeira levanta com o sopro do vento que passeia na saleta, levanta e cai devagar e torna a levantar. É poeira luminosa, saudosa da vassoura, alegre pela luz visitadeira. O olho acompanha a luz e a poeira, só ele mexe no corpo, a vida se escondeu nele. O olho sonha com a chuva. A chuva matará a poeira, esconderá o sol e molhará as telhas. As telhas inchadas vazarão a chuva para dentro da saleta onde o olho se esconde e espera a hora de lavar das vistas a poeira.