Inconsciência. Era tudo o que podia desejar. Desejava que sua mente fosse capaz de racionalizar e fazer enxergar apenas o que fosse mais seguro para si. Desejava que o sentimento de culpa fosse mascarado em outra coisa que fizesse esquecer a existência da culpa. E principalmente, desejava ser capaz de justificar as ações sem a consciência de que elas eram uma tentativa de se fazer sentir melhor consigo.
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quarta-feira, 17 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
Carcará
Depois de alguns dias ouvindo, lendo e refletindo sobre a Operação 'Carcará' realizada pela Polícia Federal na Bahia cheguei a conclusão, entre outras coisas, que acontecimentos como estes, a princípio, animam a quem está cansado da impunidade e desmandos com as verbas públicas, mas desanimam a quem continua a acompanhar o desenrolar do caso. Aquilo de sempre? gente que se safa, gente que é acusada e humilhada sem provas o suficiente, jornalista inventando fato, advogado picareta fazendo milagre, e outras e outras patacoadas que só nos fazem desacreditar da eficiência da nossa justiça.
Por exorcismo, eu ouço o Chico, e aguardo a próxima invernada neste meu sertão.
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sábado, 6 de novembro de 2010
Dia do Nordeste
Nossa família retornou ao Nordeste em 1995. Era um sonho antigo alimentado por minha mãe e minha avó. Vó Maria é de Itororó, minha mãe de Cândido Sales, aqui na Bahia. Nossos tios e nossa mãe foram para São Paulo em 1975 porque aqui não possuíam nada, nem terra, nem casa, nem escola, nem raiz. Em São Paulo estudaram mais um pouco, um tantinho só, o que estudou mais terminou o ensino fundamental. Trabalharam muito, receberam não tão muito. Perdemos um tio para a violência paulistana, outro permanece lá, vinte e cinco anos de trabalho e vivendo ainda de aluguel. Mas minha vó e minha mãe desejavam voltar. Voltamos.
Apesar de terem morado lá durante vinte anos, a família nunca deixou de ser nordestina. Pais, tios, vizinhos, ao nosso redor sempre tiveram pernambucanos, paraibanos, baianos, cearenses, ‘nortistas’ no dizer geral. E a gente cresceu assim, ouvindo que baiano é preguiçoso, pernambucano é briguento, paraibana é mulher-macho, cearense é cabra perigoso, os paulistinhas eram metidos a bestas, carioca malandro, mineiro cabreiro. Mas de paulistas no meio, só as crianças.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010
Um repeteco e duas propagandas
Aproveito que acabei de fazer uma postagem no blog que partilho com o meu irmão (Náufragos no Sertão) para colar o cartaz aqui. Acho que valerá a pena conferir especialmente os textos do meu brother, e também um meu lado menos ficcional e menos poético.
E como estamos colando cartazes, dou uma de coruja e faço o comercial do Fábulas de Havana, blog em que eu transcrevo as histórias inventadas pela minha pequena rebenta. Se não for por outra razão, as ilustrações do Fábulas são todas feitas por mim no Paint, confiram o quanto eu desenho tão mal quanto uma criança de seis anos.
Náufragos no Sertão: Quando o cinismo semeia ignorância: "
domingo, 13 de junho de 2010
Agulhas, agulhas, agulhas
Quando era criança eu tinha medo de vacina. Sério, eu implicava até com as gotinhas, era a mesma coisa com dentista, cheguei a me enfiar debaixo da cama para não ir ao dentista. Normal, conheço poucas crianças menores de dez anos que não odeiem vacinas, dentistas, remédios. Covardia é aceitável em crianças. E nos adultos?
Este ano eu comecei a trabalhar com saúde, a primeira campanha que encarei foi a campanha contra H1N1. Foi nesta campanha que eu descobri o grande número de adultos que se recusam a receber vacinas, qualquer uma, os “resistentes” como são chamados pelos profissionais de saúde. Sim, sim, tem marmanjo barbado correndo de agulhada. Vamos descontar os casos em que as pessoas tem argumentos aceitáveis, por exemplo, a pessoa fica receosa de se vacinar quando ouve boatos sobre reações adversas, sobre lotes problemáticos...
Mas existem os casos de total falta de argumento, a pessoa diz que não irá se vacinar porque “não precisa”, “tem uma saúde de ferro”, “não tem tempo”. Sinceridade só naqueles que admitem de uma vez: não gostam de agulhas. Justamente com estes fica difícil contra-argumentar, se o fulano disse que não precisava se vacinar tem como se apontar dúzias de motivos para fazê-lo, e para o medo, qual argumento usar?
As pessoas são esquisitas sem dúvida. Enquanto algumas exigem longas conversas sobre a necessidade e a importância da vacinação, outras exigem paciência para convencê-las de que não estão no grupo alvo da campanha, é preciso aguardar a idade certa, a extensão do privilégio a novos grupos alvos, procurar a rede particular...
Guardar e encontrar as carteiras de vacinação, sair de casa, aguardar em filas longas, arregaçar as mangas, estas são atitudes de pessoas precavidas e preocupadas não só com a própria saúde, mas também com a saúde de todos.
Para esclarecimento, passou o meu medo de agulhas, entendi que a picadinha no braço é um custo pequeno em comparação a adoecer, gastar com remédios, ir para um hospital. Além do que, ter medo de vacina é coisa de criança.
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sexta-feira, 11 de junho de 2010
Dedos podres ou Os eleitores que não sabem escolher
Conhecem aquela história de pessoas que possuem os dedos podres? Como as mulheres que dentre dúzias de opções escolhem somente os homens mais complicados, ou o consumidor pé frio que escolhe sempre as verduras estragadas, quem só compra gato por lebre e os que escolhem sempre as piores amizades.
Pois é, o Brasil é um país de eleitores com os dedos podres. Para nós, brasileiros, não basta sair nos jornais que um político candidato às próximas eleições está envolvido em falcatruas para que não votemos neles. A cada nova eleição a população elege e reelege figuras suspeitas com ficha corrida, histórico de pilantragem e até mesmo criminosos perigosos, acusados de pedofilia, tráfico e o diabo a quatro.
Está sendo aprovado o "Ficha limpa", medida jurídica para impedir os brasileiros de se tornarem vítimas de um dos seus maiores defeitos, o dedo podre na hora de escolher seus representantes políticos.
Eu me pergunto qual classificação dar a este eleitorado míope, aparentemente desprovido de qualquer senso ético e inapto a julgar por si mesmo quais candidatos não merecem confiança. Nossa incapacidade de escolher direito obriga-nos a criar leis para garantir que se cumpra o óbvio: não escolhamos o pior à disposição.
Pergunto-me ainda até que ponto os nossos veículos de comunicação em massa estão cumprindo seu papel de alertar a população sobre a ficha corrida dos candidatos em todas as partes do país. Pelo que vejo, a realidade do nosso país não está bem retratada em nossos jornais e telejornais. Os mistérios sobre o nosso sistema eleitoral, sobre os jogos de interesse que decidem as eleições, sobre os currais eleitorais e trocas de favores permanecem omitidos pela imprensa, esquecida de sua responsabilidade social para com os telespectadores, provavelmente comprometida por seus patrocinadores.
Imagino que daqui para frente os políticos de "Ficha suja" serão obrigados a procurar substitutos submissos e sem ficha corrida para indicarem como seus sucessores. Aí é que está, se não somos capazes de escolher bem sequer quando o óbvio salta-nos sobre os olhos, quanto mais em ocasiões em que os defeitos estejam mascarados.
Daqui para frente seremos obrigados a prestar a atenção no que nos dizem os candidatos durante o horário eleitoral para sabermos se estão dizendo coisa com coisa? Sim, pelo que parece, precisamos quitar este débito com a nossa democracia.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Cérebros piolhentos
O supra-sumo da invencionice divina foi o cérebro humano. Colocado no crânio de um primata tão piolhento quanto todos os outros, esta magnífica máquina orgânica de gerar idéias e armazenar memórias alçou a existência careta e sem novidades da vida sobre o planeta Terra aos píncaros de uma existência cujo destino é desconhecido.
Sem cérebro os outros animais do planeta não são capazes de fazer nada além do que foram programados a fazer. Os animais não modificam o ambiente em que vivem, não jogam lixo no espaço, não esculhambam com o clima, não contaminam os solos ou envenenam os mares. Nós, seres com um cérebro pensante, somos dotados da capacidade de aprender e ter curiosidade, por isso nunca conseguimos deixar as coisas no lugar em que encontramos. Somos fascinados por desarmonizar o que já nasceu harmonizado e experimentar maluquices das quais mal desconfiamos das conseqüências para nós e para todos. Sinceridade? Não nos preocupamos com as conseqüências.
Parece que Deus se enganou um pouco com o brilhantismo de sua invenção, Ele achou o cérebro “aprendedor” suficiente para dotar a humanidade da capacidade de progredir e se tornar algo melhor. Estava enganado, o Iludido. A Humanidade aprende muito devagar e desaprende rapidinho. A possibilidade dos 6 bilhões atuais de primatas cerebrados sobre o globo aprender novos hábitos de vida que nos poupem da extinção total é distante. Nosso fascínio por inutilidades e mesquinharias é maior do que nossa capacidade de conservação.
É justamente esta a beleza da nossa existência piolhenta: não saber o que virá depois. Conquistaremos o universo e povoaremos outros mundos para esculhambarmos ou aprenderemos a prolongar a vida útil do nosso próprio planeta? Nossos cérebros são magníficos ao ponto de solucionar esta equação vital?
Terá graça desmerecermos o ato do nosso Criador de nos fazer caóticos e autodestrutivos para nos rebaixarmos ao nível das outras formas de vida sem inteligência que conseguem viver em harmonia com seu habitat?
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segunda-feira, 7 de junho de 2010
Espécimes longe de extinção
Ultimamente eu tenho lidado com um crescente número de pessoas mentirosas. “Normal”, você deve estar pensando, “mentirosos existem em grande número desde sempre”. Concordo. Por ser uma pessoa de natureza desconfiada, nunca descarto a possibilidade de que as pessoas não sejam o que aparentam e de que elas podem estar mentindo ou omitindo partes da verdade, feliz ou infelizmente, eu sou assim. Chame-me desiludida, pessimista, negativista, o que eu sou não vem ao caso, interfere apenas na maneira com eu lido com a informação, seja ela, tenho convivido com um número maior de mentirosos.
Faz diferença a minha posição de esperar sempre o pior das pessoas? Faz alguma. O tempo gasto em surpreender-se com a descoberta deste vício, a mentira, por exemplo, em mim é curtíssimo. É como se eu já esperasse por aquilo ou coisa pior. Falta-me a indignação recorrente nos que mantém maior fé na idoneidade das pessoas, sobra o tempo para observar melhor o comportamento dos espécimes – mentirosos – em ação.
Reparei vários pontos importantes sobre o comportamento dos mentirosos observados, alguns deles quebram certos mitos divulgados sobre tais espécimes. Percebi que o mentiroso é pouco inteligente. Muita gente acha que para criar uma versão alternativa de fatos é necessário ter muita imaginação. Bobagem, o mentiroso procura o caminho mais rápido e óbvio para suas mentiras, geralmente, ele improvisa as mentiras o que prejudica a verossimilhança, sua capacidade de raciocinar com velocidade o bastante para inventar mentiras sem furos é pequena nestes casos. Sem contar o fato de que o mentiroso quase nunca é especialista naquilo sobre o que precisa mentir, a falta de conhecimento técnico o desmascara na frente de qualquer um que tenha o mínimo conhecimento verdadeiro sobre o assunto.
Percebi ainda que os mentirosos são muito temperamentais, escolhem suas vítimas conforme suas afinidades pessoais. A parcialidade na emissão de suas lorotas os denuncia. Quem além de um mentiroso descarado descreveria com despeito na voz coisas que não ocorreram como se elas tivessem ocorrido?
Além disso tudo, o mentiroso quase sempre é covarde, jamais revela a sua inimizade para as pessoas pelas quais nutre algum ressentimento, sua arma é a mentira porque é incapaz de confrontar o seu alvo e lutar com armas honestas. E o mais alarmante, esses espécimes vomitam a sua peçonha quase sem sentir, não se dão conta do mal que espalham, são praticamente doentes contagiosos sem consciência de seu estado epidemiológico.
Recomendo como remédio eficiente para repelir estes espécimes a utilização de grandes doses de franqueza e sinceridade de opiniões, de preferência com muitas testemunhas oculares e auriculares, para garantir que o seu veneno não subverta o antídoto em agente corrosivo e o lance sobre a sua pessoa. A distância também seria uma boa recomendação, quando não for impossível.
Fica o alerta: conheçam o inimigo e entendam suas fraquezas.
sábado, 5 de junho de 2010
"A Copa do Mundo não acabou ainda?"
Essa é a pergunta que faço e refaço todas as noites quando desperdiço alguns minutos da minha vida em frente à televisão. O meu marido, pacientíssimo, responde-me: "Faltam tantos dias para ela começar." Pfff! Então, por misericórdia, por que o noticiário vem me incomodar com obsessivas notícias sobre este assunto tão desinteressante para mim? Será, meu Deus, que eu sou a única pessoa dentre as milhões neste país que não está nem aí para o que vai acontecer nesta Copa ou em qualquer outra? Serei a única opiniosa pessoa a julgar a "paixão" pelo futebol uma total falta do que fazer e do que pensar do nosso povo?
Justamente em ano de eleições presidenciais, os jornais estão mais preocupados em discutir e entrevistar as pessoas sobre o que elas acham sobre os craques da bola. Engraçado é que eu não vejo ninguém colocar o microfone na cara dos transeuntes para saber o que eles acham sobre Serra, Dilma e Marina. Será que o povo possui opinião formada sobre quem deva governar este país nos próximos 4 anos? Mas a taça do Mundo, todo mundo sabe para quem deve ir...
Entre uma bola e outra já ouvi rápidas declarações de alguns presidenciáveis que os descartaram de minhas opções de voto. Mas, e os eleitores mais indecisos do que eu? Estão conseguindo entender que cargas dágua estão falando os candidatos na televisão e no rádio? Creio eu que as frases cáusticas do técnico da seleção causam mais sensação entre o eleitorado nacional. Aliás, só pelo fato do Dunga não fazer doce com a imprensa brasileira, ele já ganharia o meu voto.
Nem vou falar dos candidatos ao legislativo, estes não existem e pronto. Vão se eleger na base da boca de urna, das dentaduras e dos outdoors. Ganhar pela propaganda, porque se depender das propostas... Nada neste país causa estranhamento, pois se ex-presidente tirado por impeachment consegue se eleger senador da república nada se deve estranhar, nada.
O verde amarelo segue enfeitando o nosso ano eleitoral, preenchendo com sons de cornetas e gritos de hola os noticiários.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Nota da Comissão de Assuntos Indígenas-CAI/ABA sobre matéria da Veja
Nota da Comissão de Assuntos Indígenas-CAI/ABA sobre matéria da Veja
Mais um episódio em que a imprensa do nosso país se mostra tendenciosa e hostil aos direitos das classes menos privilegiadas. Mais um motivo para que busquemos informações em blogs e mídias independentes, ao invés de ficarmos dependendo de jornalistas pagos para embromar e distorcer.
Mais um episódio em que a imprensa do nosso país se mostra tendenciosa e hostil aos direitos das classes menos privilegiadas. Mais um motivo para que busquemos informações em blogs e mídias independentes, ao invés de ficarmos dependendo de jornalistas pagos para embromar e distorcer.
sábado, 10 de abril de 2010
Reflexões educacionais
A educação em nosso país, o Brasil, é deficitária. Conseguimos ‘escolarizar’ os nossos jovens, o que não é o mesmo que educá-los com excelência. Há gente por aí creditando essa deficiência no ensino básico de língua e matemática às escolas públicas, são os mesmos que se posicionam contra a inclusão no ensino superior de alunos da rede pública, afrodescendentes e indígenas. Eu, como educadora graduada em Língua Portuguesa e Literatura por uma instituição pública e estadual, chamo esse tipo de posicionamento de retrógrado, preconceituoso e infundado.
O problema da educação em nosso país não é só econômico – poder pagar uma escola particular ou depender da pública. O problema da educação em nosso país é metodológico, cultural e social, especialmente no que se refere ao ensino da língua.
Metodológico porque os educadores em geral são conservadores, fechados para as inovações sugeridas pelos pesquisadores e pensadores da educação. Ouve-se muito nas conferências sobre o método Paulo Freire, sobre inovação, sobre Piaget, mas na prática, tanto na rede pública quanto na rede privada, o número de educadores realmente capacitados para acolher metodologias novas é pequeno. As mudanças necessárias para fugir do feijão com arroz de “copiar do quadro” e “seguir o livro didático” estão longe de serem oferecidas pelos sistemas educacionais. Inclusive, neste ponto de dar liberdade ao professor de optar pela adoção de metodologias diferentes, a escola pública dá de dez a zero na rede particular. Escola particular é empresa com fim lucrativo, quer resultados imediatos e tem medo de ousar. Com exceção de umas poucas instituições que se propõe a oferecer uma proposta “alternativa”, restaurantes e bares também são capazes de fazer isso, a maioria se repete no inquestionável e inabalável “método tradicional”. Para mostrar uma ponta do que as não tão recentes pesquisas indicam: o estudante para aprender a escrever e ler com fluência não precisa decorar terminologia gramatical. Sujeito, Aposto, Predicado, Advérbio, Transitividade, isso tudo tem mais a ver com filosofia lingüística do que com o ato de escrever em si. Pois é, mas qual é o professor que não obriga sua turma a decorar as classes gramaticais? As questões de concursos estão mudando um pouco a cobrança de terminologias, mas nem todas as empresas adotaram a prática ainda. É perder uma vida escolar inteira para decorar uma coisa inútil.
O problema é cultura e social porque para escrever bem a pessoa precisa ler muito, não só quando está no cursinho ou já passou no vestibular, ela precisa começar a ler ainda na infância. Uma criança vai adquirir o hábito de ler se os pais não abrem nem um jornal em casa? A população não tem poder aquisitivo para comprar livros, aliás, nem para comprar gibis. Dá para escolher entre comprar um revista em quadrinhos e uma dúzia de ovos? Qualquer pai escolherá comprar a dúzia de ovos. A barriga é órgão mais essencial do que os miolos. O ministério da educação manda livros para as bibliotecas, nem sempre os professores fazem bom uso destes "quase" espaços. Nas escolas particulares não estou ciente se estes espaços chegam ao menos ao "quase".
Então, sonhamos com uma educação do futuro, com estudantes leitores e produtores de texto, capazes de argumentar e contra-argumentar, de ler os jornais e saber quando estes estão dizendo verdades ou mentiras. Mas esta educação do futuro ainda está em germe, falta adubar, regar e proteger a fragilidade de suas raízes das ervas daninhas. Para que, no futuro, não precisemos ouvir gente que se diz doutorada e mestrada discriminar os nossos estudantes por uma coisa da qual eles não tem culpa.
Estou certa de que estes estudantes, os discriminados, irão se tornar melhores doutores e mestres do que os que aí estão, porque educação não depende de nascimento ou de status social, depende de dedicação e superação de desafios.
O problema da educação em nosso país não é só econômico – poder pagar uma escola particular ou depender da pública. O problema da educação em nosso país é metodológico, cultural e social, especialmente no que se refere ao ensino da língua.
Metodológico porque os educadores em geral são conservadores, fechados para as inovações sugeridas pelos pesquisadores e pensadores da educação. Ouve-se muito nas conferências sobre o método Paulo Freire, sobre inovação, sobre Piaget, mas na prática, tanto na rede pública quanto na rede privada, o número de educadores realmente capacitados para acolher metodologias novas é pequeno. As mudanças necessárias para fugir do feijão com arroz de “copiar do quadro” e “seguir o livro didático” estão longe de serem oferecidas pelos sistemas educacionais. Inclusive, neste ponto de dar liberdade ao professor de optar pela adoção de metodologias diferentes, a escola pública dá de dez a zero na rede particular. Escola particular é empresa com fim lucrativo, quer resultados imediatos e tem medo de ousar. Com exceção de umas poucas instituições que se propõe a oferecer uma proposta “alternativa”, restaurantes e bares também são capazes de fazer isso, a maioria se repete no inquestionável e inabalável “método tradicional”. Para mostrar uma ponta do que as não tão recentes pesquisas indicam: o estudante para aprender a escrever e ler com fluência não precisa decorar terminologia gramatical. Sujeito, Aposto, Predicado, Advérbio, Transitividade, isso tudo tem mais a ver com filosofia lingüística do que com o ato de escrever em si. Pois é, mas qual é o professor que não obriga sua turma a decorar as classes gramaticais? As questões de concursos estão mudando um pouco a cobrança de terminologias, mas nem todas as empresas adotaram a prática ainda. É perder uma vida escolar inteira para decorar uma coisa inútil.
O problema é cultura e social porque para escrever bem a pessoa precisa ler muito, não só quando está no cursinho ou já passou no vestibular, ela precisa começar a ler ainda na infância. Uma criança vai adquirir o hábito de ler se os pais não abrem nem um jornal em casa? A população não tem poder aquisitivo para comprar livros, aliás, nem para comprar gibis. Dá para escolher entre comprar um revista em quadrinhos e uma dúzia de ovos? Qualquer pai escolherá comprar a dúzia de ovos. A barriga é órgão mais essencial do que os miolos. O ministério da educação manda livros para as bibliotecas, nem sempre os professores fazem bom uso destes "quase" espaços. Nas escolas particulares não estou ciente se estes espaços chegam ao menos ao "quase".
Então, sonhamos com uma educação do futuro, com estudantes leitores e produtores de texto, capazes de argumentar e contra-argumentar, de ler os jornais e saber quando estes estão dizendo verdades ou mentiras. Mas esta educação do futuro ainda está em germe, falta adubar, regar e proteger a fragilidade de suas raízes das ervas daninhas. Para que, no futuro, não precisemos ouvir gente que se diz doutorada e mestrada discriminar os nossos estudantes por uma coisa da qual eles não tem culpa.
Estou certa de que estes estudantes, os discriminados, irão se tornar melhores doutores e mestres do que os que aí estão, porque educação não depende de nascimento ou de status social, depende de dedicação e superação de desafios.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Ato de fé
Eu acredito que todo ser humano pode aprender, mesmo depois de crescido, a respeitar os outros e a lutar pelos seus direitos e interesses.
Eu não acredito em autoridades estabelecidas, não acredito em regras criadas por comissões que não sentem na pele as questões envolvidas na pauta.
Eu acredito na educação que transparece no ato das pessoas conscientes e supera as manifestações contrárias.
Não acredito no ensino obrigatório e tendencioso das escolas, não acredito na informação da mídia vendida. Não acredito em propaganda política eleitoral. Eu não acredito em outdoors. Eu não acredito em slogans, muito menos em gritos de guerra.
Eu acredito que colocar o meu lixo no lugar correto, reciclar e respeitar o espaço dos meus vizinhos não é ser certinha exagerada.
Não acredito em telenovelas, não acredito nos jornais nacionais; não acredito nos líderes religiosos marketeiros, não acredito em curas milagrosas, não acredito em livros de auto-ajuda, não acredito em discursos repetidos e nunca ampliados.
Eu acredito nas pessoas.
Não acredito que a aparência é tudo; não acredito em vendedores, não acredito em pregadores, não acredito em relações públicas, não acredito que vou enricar com facilidade, não acredito em profissionais sem concorrência, não acredito em anúncios institucionais; não acredito em governo sem oposição, não acredito em oposição que não se manifesta, não acredito em pessoas que só falam bem de si mesmas.
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