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quinta-feira, 27 de junho de 2013

O corpo na caixa

O menino nasceu como nascem todos os meninos: miúdo e chorão. Razão para chorar jamais lhe faltou. O sol quente no cimento frio, o colchão rasgado e pinicante, a água quente derramada de cima do fogão.

Via seu pai muito pouco, figura negra sempre coberta pela fuligem do carvão. O garfo ameaçador de trabalhador mal pago.

O rosto de sua mãe era sempre um braseiro de gritos e sorrisos escondidos por detrás da fumaça do fogão de lenha. Ela também chorava nos dias em que o pai batia e xingava as vizinhas faladeiras.

O menino crescia e continuava miúdo, mas  estranhamente não chorava mais. Nem quando a professora beliscava por ele ser muito danado. Nem mesmo daquela vez em que um moleque da outra rua partiu sua cabeça com uma bodocada. A pedra bateu e o sangue escorreu,  o menino só fez desmaiar.

Depois aquele moleque teve o que mereceu. Comeu porrada até largar os dentes no mato. O que tinha dado naquele menino miúdo para se tornar tão bravo ninguém entendia. Ele quis se fazer homem cedo, carregar o garfo ameaçador no lugar de seu pai e arquear com o peso todo da lenha para não fustigar sua mãe. Ele não ia aceitar mais que lhe apedrejassem.

Xingava feito a mãe e batia em quem lhe desagradasse. Esmurrava, xingava, chutava. No trabalho ou na rua, até na bebedeira. Tinha um ódio mortal contra bêbados folgados ou falastrões.

Não se sabe quem, mas alguém deu cabo do menino briguento. Ele acabou miúdo dentro de uma caixa de papelão na beira de uma lagoa.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Solidariedade


Pra que ajudar os outros? Eu estava ajudando aquele rapaz pela razão mais deslavada do mundo, por educação. Não porque eu fosse uma pessoa muito educada, era por condicionamento puro. Fui criada ouvindo dizer que devemos ajudar os outros, não só para alimentar nosso ego altruísta, mas porque negar auxílio ao próximo vale uns 100 pontos negativos na passagem para o Céu. Entende? Não basta ser bom e ficar na sua para alcançar a benção de Deus, você precisa colocar a mão na massa, cruzar os braços é o mesmo que ofender o santíssimo. Naquela altura da minha vida, eu não cria mais nessas patacoadas de Céu; no inferno eu acreditava um pouco, de qualquer forma, eu já tinha levado muitas bordoadas pela testa para achar que existe retribuição para as nossas bondades nessa vida, porém, o contrário, neste eu não podia deixar de crer jamais. Quer dizer, ser bom não tem recompensa, mas ser um miserável filho da mãe e foder com os outros de propósito, ah.... Isso não é coisa de passar impune. Nessa vida tudo tem troco. 

Como eu ia dizendo, tentar ajudar aquele rapaz fazia parte do que eu fui, era um ato automático, sem muito raciocínio, eu não estava de fato preocupada com ele.
Ajudá-lo era como me ajudar. Não havia nenhum mérito nesse meu ato. Será que foi isso que quiseram dizer quando mandou escreverem que o que a mão direita faz a esquerda não precisa saber? Foi como um "abaixa a bola que tu só faz o que te convém"?

Eu tava ajudando de má vontade, por descarrego de consciência, porque ajudar era mais fácil do que explicar o porquê de não ajudar. Mas se pudesse, não ajudava. Entende?

O peso de um nome


Eu não sabia mesmo não, de onde tinha vindo esse nome que eu tenho. Era só o meu nome, o primeiro nome ainda, todo mundo só dizia ele errado, eu nem ligava de corrigir. Nem sei por que me puseram esse nome, aliás, nem sei por que me puseram nesse mundo. Antigamente, os pais tinham uns quinze meninos, nem dava pra lembrar os nomes de todos. Deve ser por isso que se botava tanto apelido. O apelido tem a cara do dono, o nome nem sempre.

Mas, por que foi mesmo que me puseram no mundo? Deve ter sido por nada; pior, foi por acidente. Também, numa droga de mundo desses, para alguém decidir de sã consciência fazer um filho tem de ser muito pancada. Todo mundo nasce por acidente, puro conformismo da genitora. Minha mãe me dizia: “Minina, te pari por pena de te tirar”. Ela dizia na hora da raiva, devia ser verdade. O nome era isso, o desprezo de minha mãe em não me dar um nome melhor.





terça-feira, 4 de setembro de 2012

O bote do ódio

Espreita escondido atrás do olho esquerdo, depois do direito. É negro, tem a profundidade das coisas sem fim. Rodeia, atocaia, mais parece a vítima que se esconde do que o carrasco que aguarda o momento para empunhar o machado.

Houve o tempo em que passou adormecido, temeroso de se dar a conhecer à luz. Envergonhava-lhe sua figura disforme, malhada por indisfarçáveis manchas de desespero. Toda a sua força concentrada em suas convicções, aliás, crenças. O que por nada muda só pode ser medido pela régua da fé. Conhecia a razão pela qual fora criado, de certeza tão indiscutível quanto o nascer e renascer do sol todas as manhãs.

Nasceu então, brilhante, áspero, de altura inexplicável, cheio de gritos e roncos de dor. Avançou cegamente em todas as direções, bateu dolorosamente sobre a superfície dos seres, rebarbou, espumou e recuou, para voltar a se expandir e ir repelindo os sentimentos mesquinhos e de menor monta.

E rasgou e pisou, chorou um vômito amargo de afogado sem esperanças. Suas lágrimas se tornaram espinhos que rasgaram as carnes próximas. Rolou sangue e suor, e gargalhadas histéricas de incompreensão.

E riu, riu, riu, até cair. Desejou seguir de arrasto os alvos de sua dor, mas do tombo não mais se levantou. Asfixiou ali, em frente à platéia muda, com as mulheres tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o vexame da sua nudez esquelética.

O seu sorriso de morto eram os dentes falhos de uma caveira de olhos apodrecidos.


domingo, 27 de junho de 2010

A razão do riso




"Humana ao ponto de se aproximar de uma mulher ainda ensanguentada e vestida de noiva para suprir a mórbida curiosidade de se sentir próxima a ela e conhecer sua história. Não havia nenhum destino planejado para esta informação, somente aquele que damos ao bizarro e ao diferente quando cruzam o nosso caminho. Havia também uma pitada do tempero chamado de espírito crítico pelos mestres. A mesma coisa que nos faz rir dos cômicos enquanto interpretam  suas farsas idiotas. Rimos justamente porque consideramos uma idiotice alheia àquele que ri; rimos pelo ridículo do outro e não nosso; rimos pelo alívio do defeito não nos ser exclusivo. É por isso que para achar graça em alguma desgraça ou piada é necessário que nos sintamos imunes a ela no momento da representação..."

A desgraça da outra era fácil de ser encarada, não era a sua própria desgraça.
* A personagem da qual este trecho foi retirado é enfermeira na emergência de um grande hospital.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Jantar



Aceitou sem receios acompanhá-lo de carro até o local da alimentação, surpreendendo-se apenas porque não estava indo  para um restaurante, mas para um apartamento. Fosse ela uma destas almas mesquinhas que julgam mal aos outros,  poderia tecer dezenas de pensamentos injuriosos, “o sovina não me paga um jantar”, “o safado planeja jantar-me”, “o  estróina deseja jantar-me sem me dar de jantar”. Não pensou, todavia, nada disso. Pensou que uma pessoa que alimenta  a outra cumpre seu papel no universo. O professor era duas vezes provedor, provia alimento à alma e ao corpo. 

Receou quando foi indagada sobre o nome. O nome era uma parte de si que julgava ser muito íntima para ser dita ao léu. A partir do nome é possível conhecer todo o futuro e passado de uma pessoa, descobrir-lhe medos e sonhos. Deus havia proibido o povo escolhido de chamá-lo pelo verdadeiro nome, e o segundo mandamento nas Tábuas da Lei diz: “Não usar O santo nome em vão”. Se entregasse o verdadeiro nome, colocaria o destino inteiramente nas mãos do homenzinho. 

Disse apenas uma parte do nome:

- Alice. - Com esta metade revelada protegia a metade oculta, protegia o verdadeiro eu.

Como demorava o homenzinho para aprontar um prato tão simples! Em sua casa, Alice usaria o tempo que ele estava gastando indo pilar o trigo no pilão, extraindo a farinha, preparando a massa, colhendo e esmagando os tomates para o molho, cozinharia a massa, buscaria os temperos na horta e picaria tudo em miúdo até que a massa entrasse no ponto, e já estaria servida à mesa.
- Aqui está, senhorita! Espaguete à bolonhesa, à minha moda.

Alice vomitou aos pés da mesa, frente à visão das bolotas de carne.

- Perdoe a minha descortesia, mas sou vegetariana!

Evitara dizer antes, quando fora indagada sobre coxas e barrigas, para não magoar o anfitrião. Mas não suportou o engulho quando sentiu o cheiro da carne. Criava animais para retirar os insumos e vender as crias, mas não tocava nas carnes.

Ainda tentou separar de lado os pedaços repugnantes de células animais, mas o sabor devia estar impregnado na massa, resumiu-se então a remexer com a ponta do garfo, fingindo interesse no prato.

Comer era algo tão pouco especial para toda aquela gente habitante do pequeno planeta sem idéias, comeriam qualquer porcaria, comeriam até a si mesmos, na falta de petiscos com alto teor de gordura e açúcares. A comida dos outros habitantes daquele pequeno mundo parecia-lhe morta, sem cor, sem movimento. Tinha gosto de coisa velha e embolorada, escondida da luz, desfacelada pelo contato com o ar, conservada em química para não apodrecer fora dos intestinos.

Alimentar-se naquele planeta era perigosíssimo. Precisava voltar para casa.

(Adaptação de texto escrito para um roleplay, o estranhamento frente ao hábito do "outro", como eu já coloquei, o problema são os outros, não nós.)

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Aparências

A consonância entre a aparência e a essência das pessoas não é obrigatória.

Há pessoas nas quais a real personalidade jamais transparece e há pessoas que demonstram exatamente o que são. Não posso classificar estas últimas como dignas de serem chamadas sinceras, são apenas incapazes de parecer um pouco melhores do que não podiam deixar de ser.

Existem ainda as distorções. Os outros tiram conclusões sobre nós que independem do que vêem ou ouvem. Baseiam estes julgamentos em circunstâncias e detalhes de suas próprias vidas. Enxergamos as outras pessoas através da nossa própria miopia.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

De volta à raíz do medo




Eu sempre alimentara, desde criança, aquele mórbido hábito de imaginar que o pior sempre estava para acontecer, e fantasiava o telefone tocando para avisar-nos do cadáver jogado em algum beco. Eu tentava simular a dor que sentiria tendo que assistir ao enterro de minha mãe, imaginava o caixão dela baixando na cova. Era esta a visão de justiça que o mundo me inspirava, porque todos os dias nos noticiários eu ouvia crimes horríveis serem relatados e na nossa própria família já haviam acontecido crimes violentos. Na minha recém formada concepção de mundo, os maus eram sempre fortes e conseguiam vencer os fracos. Não havia quem castigasse as coisas erradas, e a única maneira de reverter esse quadro era criar um novo mundo para substituir o obsoleto.

O medo é uma coisa horrível de sentir, porque a vítima sente-se invariavelmente impotente para reagir. Eu sentia uma bolha no peito que se movia conforme eu respirasse, e tinha uma outra sensação, igual àquela que sentimos quando enchemos várias bexigas e ficamos sem ar. Sempre que esta sensação tomava conta de mim, eu apertava um crucifixo de ouro que havia sido presente da minha avó, e implorava a Deus que ele protegesse a minha mãe. Eu estava no segundo ano da catequese, e acreditava em todas as palavras que me eram ditas sobre Deus e sobre a Bíblia. Por isso mesmo, na minha lógica nascente, eu não achava impossível que Deus permitisse a morte da minha mãe, pois, afinal, ele mandara seu filho ao mundo para ser crucificado, e a minha mãe não era mais importante do que o Salvador dos Homens. Classifiquei minha mãe no time dos fracos, e seu oponente no time dos fortes: fatalmente, ela seria derrotada.

O tempo passava, e o medo enveredava por períodos de adormecimento. Nós mudávamos de casa, e os vestígios de que alguém nos vigiasse desapareciam, então, um pouco de sossego se instaurava. Como quando se está no meio de uma guerra, e as balas inimigas cessam de zumbir em nossos ouvidos. São destas tréguas que os homens aproveitam-se para imaginar que o mundo seja um lugar bom, e projetam sociedades utópicas onde reine a paz. Os menos ingênuos enxergam que trata-se apenas de uma trégua, e as guerras sempre reiniciam quando se reestabelecem as forças inimigas. Sempre éramos encontrados, e a bolha voltava a mexer-se no meu peito.

Eu aprendera a odiar, porque já me era insuportável temer. Depois que o ódio brotou, eu não me sentia mais na condição de vítima, mas na de defensora e vingadora. Nas minhas imaginações, sempre que um de nós estivesse em risco, eu surgiria grande e forte para defender-nos. Nada mais me assustava, porque o tamanho da minha raiva me fazia sentir potente como um Hércules que arrastaria o cão de Hades pelo Tártaro a fora, sem necessitar de nenhuma melodia hipnótica da flauta de Orfeu.
É sempre doloroso recordar esse período da minha vida, tudo que houve de bom se apagou, porque as coisas boas são assim, facilmente esquecemo-nos delas, enquanto que as más estão sempre voltando ao centro das atenções.

domingo, 18 de abril de 2010

FUJA.


O silêncio é impossível. Vivia a dez anos em uma casa no meio de uma plantação, rodeada pelo nada, montanhas e adjacências, somente essa certeza trazia da experiência, o silêncio é impossível.

A mudança para o ermo fazia parte dos grandes planos dos pais de proporcionar uma vida tranqüila para os filhos, viver da terra, ouvir os grilos e os sapos. Uma grande e panorâmica mentira para disfarçar o indisfarçável. Escondiam-se no campo para evitar que um dia a mais na cidade roubasse os últimos lampejos de sanidade da família.

Os circuitos elétricos e aparelhos eletrônicos emitiam ondas que confundiam o pensamento, as lâmpadas e tomadas podiam conter escutas e câmeras de monitoração, os telefones continham radium e causavam tumor cerebral. Os vizinhos dos apartamentos fronteiriços eram agentes da CIA ou da KGB, prontos para invadir a casa e matar as crianças. Toda a comida sempre podia estar envenenada, a água em definitivo já estava. Cada novo dia raiava com uma nova interdição, um objeto inofensivo transfigurado em arma mortal, um velho amigo que pertencia agora às forças inimigas. Cada sussurro disfarçava um universo de possibilidades incríveis e absurdas escondidas no meio da noite, e o silêncio nunca reinava.

Sua mãe era uma mulher mediana, desejava manter a família unida. Em lugar de procurar tratamento para o marido, transformou a todos eles reféns de uma mente perturbada.

Por algum tempo a tranqüilidade de uma vida isolada foi capaz de manter adormecidas as alucinações paternas. Se for verdade que o excesso de informações e ruídos da vida moderna é perturbador, não chega a ser mentira que o recolhimento e solidão de uma fazenda podem fertilizar a mente doentiamente criativa.

As paredes da casa velha escondiam habitantes indesejáveis que choravam e lamentavam durante a madrugada. Era possível ouvir seus passos no forro de madeira e o ranger dos dentes mastigando os ossos de roedores e répteis que dividiam a moradia. Quando a lua era cheia, as lamentações aumentavam ao ponto dele ameaçar incendiar a casa para exterminar os invasores. Talvez fossem fantasmas, talvez gente viva e amaldiçoada a viver e reproduzir-se dentro da escuridão dos vãos das paredes, aguardando o dia em que um chamado os avisasse de que a hora era chegada e os que vivem livres deveriam morrer.

Nunca lhe provaram a veracidade das suspeitas de seu pai, nem se provou o contrário. No meio do silêncio das noites existiam sons inexplicáveis, martelares e rangidos que podiam ser qualquer coisa. O movimento das folhas na plantação sob a ação do vento parecia sempre uma dança secreta, culto prestado pela vegetação ao deus oculto no solo fertilizado.

As deidades escondidas no ventre da terra sentem fome às vezes. Isso se dá porque são elas que alimentam os homens, gastam energia para fazer as plantas crescerem e frutificarem. Elas sugam a energia do sol, bebem a água e frutificam. Todavia, são deidades e carecem de reconhecimento e culto. Depois que a Terra abriu seu ventre e recebeu as oferendas da família (os corpos da mãe e do irmão, falecidos quase na mesma semana de uma febre misteriosa, poupados da intervenção diabólica dos químicos, versão que em momentos mais calmos Alice duvidava) o pai se negou a pisar no chão novamente. Não estava pronto para completar o ciclo biológico da vida e entregar seu corpo à Terra. Mudou-se para o sótão e viveria eternamente.
Alguém precisava alimentá-lo. Não havia mais ninguém para negar os seus delírios. A mentira que não encontrou negativa tornou-se verdade.

No dia anterior foi à cidade comprar condimentos. Viu um homem que tentava se matar pulando da torre de uma igreja, e pessoas que aplaudiam o feito. Viu mulheres que alugavam seus corpos nas esquinas e homens que as admiravam por isso. Viu um grupo de rapazes tentarem matar um único e desarmado jovem porque não gostaram da cor de sua roupa. Viu um homem de longos cabelos ser preso por tentar satisfazer a luxúria de uma mulher solitária. Viu a luz se esconder nas frestas e deixar a escuridão bailar ao redor dos postes como mariposa que carrega no ventre pessoas vivas e medrosas. Viu três anjos alados sorrirem para esconder as lágrimas que não escorriam.

Viu tudo isso e achou que precisava sair mais vezes de casa.

Voltou para casa e encontrou o pai de bruços no quintal da frente. Pressentira a morte e correu para frente da casa, porque não saía do sótão há três anos e não desejava apodrecer lá sem que a filha tomasse conhecimento de sua morte. Ou talvez pretendesse oferecer seu corpo ao milharal, mas morrera no meio do caminho. Alice enterrou o pai entre as covas da mãe e do irmão, sem oração, pois nunca aprendeu nenhuma.

A casa aparentava silêncio, sem o mancar dele no assoalho do sótão. Não havia mais o gemer dos viventes ocultos nas paredes. Mas ouviu o tiquetaquear da máquina de escrever. Subiu as escadas para surpreender o invasor. A velha Remmington enferrujada em cima da escrivaninha escrevia sem ter mãos que a datilografassem as teclas:

FUJA.


Adaptado da estréia de um dos meus personagens de RPG. Retirei a inspiração para este texto de elementos dos contos "A balada do projétil flexível e "Children of the Corn", ambos do Stephen King.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Travessia



Por que os homens julgam que as espadas e as balas foram criadas para atacar? É característico do masculino enxergar em todos os seus inventos e produções do intelecto lâminas e projéteis, prontos a ferir àqueles que se interpõe em seus caminhos. "Se algo nos incomoda, destrua-se!" Discordo dessa concepção.

Espadas e revólveres foram inventados para proteger as pessoas – de outras pessoas, infelizmente. Assim como o conhecimento científico não existe para inventar meios de matar mais pessoas com uma eficiência maior, mas, para melhorar as condições de vida da população por mais ingênuo que isto possa soar.

Os homens escrevem a história, decidem que ela deve ser contada às crianças pontualmente pelo sangue que se derramou e pelas cabeças que foram arrancadas. No imaginário masculino, quando dois homens precisam cruzar uma ponte em sentidos opostos, um deles deve morrer ou ser humilhado para dar passagem ao mais forte ou sábio. Quando dois seres humanos precisam cruzar uma ponte, o mais acertado é que ambos cedam à passagem ao outro, e o que tiver maior pressa tome a dianteira. Se o menos apressado resolver atravessar primeiro, então o mais apressado deve aguardar, pois o direito de travessia da ponte é igual para todos.

Viver em um mundo que transforma a travessia de uma ponte em um conflito bélico é angustiante. Abandonemos a ponte e atravessemos o rio a nado, talvez a correnteza nos leve para um novo mundo.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Visão cega


Muito tempo em solidão torna a pessoa mais e mais solitária, porque em seu caso, a solidão era uma forma de manter intactas as suas lembranças e seus hábitos, afastar-se de contato humano verdadeiro formava uma litania em sua própria homenagem, um modo de sacralizar-se, evitar que outras pessoas conspurcassem o seu íntimo com a tolice vã das gentes.

Explique-se que não foi uma figura saltada de páginas oitocentistas, não se refugiou nos campos bucólicos, não guardou castidade ou cultivou a tuberculose, não se envenenou com a bílis negra dos folhetins ultra românticos, tampouco suspirou por encontrar uma alma gêmea. Embebeu-se da solidão moderna, sentindo-se só em meio a multidões, falando muito sem jamais dizer nada de verdadeiro, tratando com os outros sempre assuntos que não lhe interessavam mais do que a cor dos cadarços de um João-ninguém.

Deixou crescer os cabelos até a metade das costas e os tratava com exageros cosméticos, ouvia dia e noite música alta de batidas monótonas e metálicas, que nada comunicava ao cérebro, mas fazia vibrar seu corpo. Intoxicava-se com bebidas coloridas, estrangeiras, para negar que se satisfaria com o álcool nacional. Bebia apenas para provar ao mundo que era capaz de beber, pois não sentia nenhum prazer com isso, a bebida em lugar de turvar os sentidos, aguçava-os, fazendo com que prestasse maior atenção na venialidade das pessoas ao seu redor, desprezando-as com mais força.

Mais crescia o seu desprezo pelos outros, maior se tornava forte a sua autoconfiança. Ansiava viver em um mundo em que não houvesse ninguém além de si. Não um mundo povoados por réplicas, mas um mundo de uma pessoa só. Com o sol nascendo e se pondo para si, os rios correndo por si, os pássaros cantando somente para os seus ouvidos, a vida brotando e perecendo em sua honra.

Perdoava, então, os outros viventes por suas existências incômodas, e dignava-se a sentir piedade deles. Afinal, um mundo somente seu era exigir demais.

E naquela manhã se deparou com a inconveniência de dividir o mundo com outras pessoas: precisaria pedir ajuda para realizar uma tarefa. A peça do carrossel do parque era demasiado pesada e grande para ser movida por uma única pessoa. O uso de polias e cordas não bastaria, pois o tempo demandado para erguer um apoio seria desperdiçar tempo e material. Faltava-lhe, inclusive, a chave correta para os parafusos que prendiam a peça ao todo do brinquedo. Outra pessoa seria indispensável. E a pessoa mais indicada seria o homem de rosto desfigurado.

Existiam alguns motivos para que detestasse a idéia de pedir auxílio ao outro. Poderia alegar que seu povo foi acusado injustamente de bárbaro por interesse estrangeiros em usurpar a terra de seus antepassados (mais ou menos o que houve na América, gente inculta e sem alma não precisa das riquezas da terra, vai usar como? Só para alimentar seus zilhões de filhos?); poderia ainda dizer que a gente da qual o desfigurado descendia dominavam o poder, criaram e mantiveram leis que desprivilegiaram e boicotaram a população nativa em prol dos colonizadores, promovendo um estado de miséria e atraso que até hoje mostra suas marcas nos índices de desenvolvimento humano destes povos. É claro, para a lógica dos colonizadores esse devia ser o curso natural das coisas, subjugar os supersticiosos e atrasados em benefício dos desenvolvidos e evoluídos, da nação berço de filósofos, cientistas, artistas e personalidades que marcaram toda a história da humanidade. Que fiasco! O mundo inteiro baixando a cabeça para o gigante decadente. Nosso povo é tão desorganizado, tão bárbaro, tão inculto, que somos dos poucos povos no mundo capazes de resistir politicamente ao imperialismo que se arrasta e atravessa o finado século XX, e o que os civilizados fazem com nossos emissários, representantes dos ideais libertários? Encarceram como presos comuns, negam o privilégio de presos políticos, acusam de terrorismo. Assassinatos em off, ocupação militar, direitos políticos cerceados, é esta a democracia pela qual o mundo se bate. Então partimos para o terrorismo político e nos chamam monstros. Monstros? Nosso terror pode ter embrulhado muitos estômagos sensíveis, abismado muitas associações cristãs de moços e moças e todo este choque que se abate sobre as pessoas quando enxergam até onde é capaz de ir a raça humana. Mas acima de tudo, nosso terror serviu para nos fazer ouvidos, nos tornou fortes. A gratuidade do terror, esta sim é patética. Nosso terror foi libertário.

Mas nada disso contava, logicamente não, pelo contrário. Porque por mais que o destino dos povos influísse no julgamento entre os cidadãos, acima disso, a verdadeira razão para sentir repulsa pelo desfigurado era muito mais simples. Detestava a idéia de precisar dele para algo, porque sentia-se superior a ele. Despertava-lhe pena por sua condição humilde e aquela circunstância infeliz obrigava-lhe a pedir auxílio ao homem.

Entrou no quarto de piso molhado com receio, chamara através da porta pelo lado de fora sem resultados. Obrigou-se a entrar, a encarar a miséria do outro enrolado em uma coberta vulgar que pouco tapava o frio, e obrigou-se a acordá-lo com uma sacudidela.

O outro sobressaltou-se, e talvez levado pela invasão inopinada, ou pela reciprocidade por sua inimizade e asco, avançou em fúria cega. Mas suas fúrias possuíam uma visão perfeita, esquivou-se do arremate por milímetros e despregou um chute nas costas que o tolo deixou desprevenidas. O desfigurado tombou dentro da poça de água e os dois olhares se encontraram. Um espectador atento veria piedade e pesar nos olhos metálicos da criatura solitária. O que outro enxergaria dependeria de sua mente perturbada.