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domingo, 28 de novembro de 2010

O último cliente da manhã



- Quanto?
- Cinquenta.
- Cinquenta é muito pouco.
- É o que eu posso oferecer.

O velho se cala. Olha para o baralho à sua frente como se fosse um filho pequeno que ele estivesse ali oferecendo.

sábado, 27 de novembro de 2010

O adorno das damas




“Toda mulher bonita é um pouco a namorada lésbica de si mesma.” (*) Foi o que Franco pensou pela demora da moça em provar duas ou três mudas de roupa. È uma regra com raras exceções, a mulher nutre por sua imagem uma paixão narcísica, quase incestuosa. Dê um espelho a um homem e ele gasta um minuto para checar se não está nada fora do lugar. Dê um espelho a uma mulher e ela fica hipnotizada com a própria imagem, faz poses, namora o corpo com dedicação paranóica.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Grinalda e Mortalha se talham no Céu ou A religião do amor em Franco

A religião do amor é ingrata. É ver como sofre quem ama demais. Qual recompensa Franco encontrara em amar as mulheres ignorando até mesmo os defeitos mais inegáveis? Amou Liz, enxotada por outro homem, largada na rua descalça. Amou Sarah, doente da cabeça e do coração, triste menina que se esqueceria dele no dia seguinte. Amou Georgiana, sedenta por nada além de uma noite de aventura. Amou Jessica, anjo demônio que o surrara porque Franco lhe sorrira.

Animais vaidosos e sem sentimentos são as mulheres. Damos a elas ouro e elas querem o céu. Damos a nossa atenção e elas querem o nosso fígado. Desprezam-nos, maltratam-nos, desfazem-se de todos os nossos presentes. Amamos a elas, mulheres, como se fossem rainhas, sabendo que não são. São ordinariamente da mesma matéria que os homens, compensam o ordinário somente com a anatomia perfeita aos nossos desejos. Só o que Franco precisava era de uma mulher que não tivesse medo de sê-lo, não se achasse especial demais nem se menosprezasse demais. Uma mulher que não julgasse ser favor conceder palavra, não se melindrasse com elogio. Desgraça! Não podia deixar de amá-las, porque amava inclusive os defeitos. Amaria as leprosas se restassem somente elas sobre a Terra, amaria feias, sem graças, mendigas. As mulheres eram seu fraco. Se existe um céu a mulher é o inferno.

A religião do dinheiro, esta sim nunca falha. Trabalhar e acumular, infalível recompensa. Ajuntar, investir, fazer render, multiplicar e distribuir. O dinheiro, sem falta, compra tudo o que possui preço e facilita as demais necessidades. Com dinheiro se é mais bonito, mais inteligente, mais bem vestido, mais perfumado. Dispensa diálogo, dispensa oração. Concede sempre a troca justa, barganha perfeita. Não falta a quem não desperdice. Dinheiro não sofre dor de cabeça. Não se irrita, não se esconde na casa da mãe. E o principal, dinheiro não chora, não menstrua, não pede sem dar em troca.

Era isto, Franco deixaria de lado as mulheres por um tempo, ou melhor, manteria o regime de consultar apenas às velhas conhecidas, poderia assim trabalhar. Trabalho e dinheiro eram, definitivamente, passatempos dignos.

***


- O senhor é discreto?
- Um túmulo, minha senhora.
- Ótimo, estou necessitada de sigilo.
- O que a senhora tem aí?
- É a minha mortalha.
- Como é?
- Mortalha. Os panos com que se vestem os mortos para o sepultamento.
- Eu sei o que é uma mortalha, dona. Mas a senhora vai colocar no prego uma mortalha?
- É a precisão. Quanto o senhor me dá?
- De quanto a senhora precisa?
- Quinhentos.
- É muito!
- É para a grinalda da minha filha! Eu costuro, eu bordo, já comprei o tecido, mas falta a grinalda e o brocado. É a minha única filha!
- Ninguém liga mais para essas coisas, dona. Case a moça de qualquer jeito. Se a senhora não pagar, o que eu vou fazer com essa mortalha?
- Todo mundo vai precisar de mortalha um dia! Não me falte nessa hora, meu senhor!

Franco pensou um pouco.

- Ok, eu aceito o empenho. Mas tem uma condição.
- Qual?
- Eu apadrinho o casamento da tua moça.
- Será uma honra!

Franco adorava casamentos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Pequeno encontro

- É perigoso uma moça tão bonita andar por aí sozinha sem ninguém que a proteja. Precisa de alguma proteção? Uma carona ou talvez um ombro amigo?

Ela aceitou a carona.

Deu a partida e o carro voltou a deslizar pela avenida bem cuidada.

- Eu faço tudo por quem sabe retribuir. Para moças bonitas faço muito mais.

Com o braço direito na direção, Franco pensou que era seu dia de sorte. Discretamente tirou as medidas da moça com o olhar microscópico,
estacionando a inspeção nos lábios. “Será que ela sabe morder? Mulher que não morde é fria, sem mordida não há amor possível”.

A loira tinha um olhar atrevido, um jeito livre e ousado de erguer a cabeça e projetar o perfil e, ao mesmo tempo, uma boca que parecia sempre prestes a
beijar. Quando falava, seus lábios faziam movimentos provocantes e vagamente cínicos. A desenvoltura em aceitar a carona e se insinuar
para um desconhecido não deixaram dúvidas a Franco, tratava-se de uma cobra criada pronta para dar o bote. “As perigosas são as mais atraentes”.

Decidiu deixar a visita ao banco para outro momento.Elisa. Precisava dar atenção à sua mais nova amiga. Evitaria falar sobre as circunstâncias
que a levaram a caminhar errante pelas ruas de um bairro imundo. Possuía ares um tanto vulgares, de gente mal criada e cheia de vontades,
podia ser uma vigarista, talvez, mas não tinha cara de profissional. O corpo bem feito e cuidado seria um cartão de visitas master em qualquer ocasião.

Trataria bem da moça. Conhecia a natureza das mulheres: “A mulher é mercenária. Sem sentir e sem saber, está sempre se vendendo por alguma coisa:
ou posição, ou glória, ou dinheiro.”

Jantariam. Talvez ele comprasse umas sandálias novas para ela.

sábado, 5 de junho de 2010

Franco

“Em terra de cegos, quem tem um olho é rei. Mas no território dos miseráveis reina o maior miserável de todos.”

- Todo mundo o chamava de Judeu, resquícios de um anti-semitismo arraigado, mas ele não era judeu. Era católico de nascimento e ateu por opção. Não cabia Deus em suas filosofias de mundo, muito menos óbolos, dízimos ou ofertórios. O único culto que aprendeu a presidir foi o culto à sua própria pessoa: os filhos pródigos de Vancouver alquebrados pelas orgias acabavam por fazer peregrinação ao seu santuário, depositavam a seus pés os pequenos mimos, em troca recebiam as dádivas monetárias necessárias para financiar mais uma noite de farra, para pagar a algum agiota e preservar os ossos dos joelhos, havia aqueles que usavam as dádivas para alimentar mais uma noite de vício.

O seu templo era um grande balcão na zona mais ordinária da cidade, um pequeno escritório no hall de entrada para a secretária, no primeiro andar, passando por uma estreita escada em espiral estava o seu altar de atendimento (8 horas por dia, de segunda a sábado) e os terceiro e quarto andares serviam de depósito. Tudo seu, comprado com dinheiro suado e contado.

Começou com uma lojinha pequena, um balcão e duas prateleiras, guardava o dinheiro em uma gaveta, consertava relógios. Era relojoeiro por profissão, aprendido o ofício ao pai, e o pai ao avô. O que fez a sua fortuna foi o seu enorme senso de oportunidade e o seu tato para analisar as pessoas, um empreendedor nato. Sua aprofundada análise de mercado lhe mostrou exatamente onde investir: na necessidade alheia. Tal matéria prima jamais havia de faltar, sempre há uma prostituta, ou um viciado, ou um gatuno querendo se livrar de algum objeto de alto valor sentimental e médio valor monetário.

É assim no ramo dos penhores, você precisa de um olho avaliador muito rápido. Primeiro, deduzir quando pode conseguir pelo objeto no mercado, depois analisar o grau de desespero do portador do objeto, terceiro, ser um perfeito blefador.

Nunca oferecer mais do que vinte por cento do valor real e nunca ultrapassar os quarenta por cento. Por último, ser inflexível. Não há espaço para misericórdia nesse ofício.Os clientes variam em figura, a maioria se torna dependente. Iniciam a via-sacra trazendo uma coisa velha e sem uso, algum cacareco de família, outros trazem coisas realmente valiosas mas que não lhes servem de nada. Na fase crítica, trazem televisores, móveis, a pia do banheiro. E há os que oferecem o corpo e os serviços em penhor. Desses Franco não gostava na juventude, a idade o ensinou a apreciar qualquer oferecimento, vinte anos de profissão ensinam algo a um homem.

- Já pode atender o próximo cliente, Franco?
- Mande subir. – Lúcia vinha sendo sua secretária há mais de um ano, boa garota. Em vários sentidos.
O cliente era Gina, uma magricela viciada em anfetaminas, roubava objetos da família para trazê-los a Franco.
- Quanto você me dá? – a moça perguntava fungando e contorcendo os lábios, como se estivesse aguardando um prato de comida.
- Você roubou de novo, linda? – Franco perguntava em tom paternal, como um padre preparando um sermão moral.
- Não.
- Jura?
- Eu juro.
Passou os dedos desinteressadamente pela porcelana do prato. Jogou três notas de vinte sobre a mesa. Estava sendo generoso, Gina era uma cliente promissora. Seria bom para ela agora, e indispensável em um futuro próximo.
- Foi a última, Lúcia?
- Foi sim, Franco.
- Pode fechar tudo, então.

Lúcia foi uma de suas clientes, mãe doente, precisava de dinheiro para os remédios. Na terceira visita ela não tinha mais do que a roupa do corpo para oferecer e ainda precisava curar a velha mãe. Então Franco recusou a roupa e ofereceu uma boa quantia pelo conteúdo do vestidinho xadrez. Lúcia era uma boa garota, resistiu o quanto pôde. Talvez se Franco não fosse quem fosse, tivesse sentido pena das lágrimas injuriadas, ou se Lúcia não tivesse um traseiro tão perfeito, ele não o tivesse desejado em demasia. Como gostava de repetir, toda injúria tem seu preço e seu tempo certo. O amor de Lúcia pela mãe foi maior do que o seu pudor, a boa vontade de Frank também, pagou todo o tratamento da velhinha e empregou Lúcia bem perto de si para apreciar sua beleza sempre que lhe desse vontade. Olhava agora com nostalgia para aquela silhueta perfeita, saudade da época em que ela lhe despertava a cobiça.
- Mais alguma coisa, Franco?
Franco se aproximou o bastante para sentir o cheiro dos cabelos castanhos da secretária.
- Não, docinho. Vá cuidar da tua mãe.
Mais um dia de serviços prestados aos desesperados daquela metrópole.


(Franco é um dos meus personagens preferidos, o primeiro do gênero masculino. Os episódios em que ele aparece devem ser resultado das minhas leituras do Rubem Braga, do Jorge Amado, do Dalton Trevisan e sem dúvida nenhuma do Nelson Rodrigues. Políticamente incorreto e amante das imoralidades é muito divertido escrever para ele. Espero que ele angarie mais simpatias do que antipatias.)