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quarta-feira, 6 de julho de 2016

O dia em que me tornei Gregor Samsa Ou A metamorfose



Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, percebeu que não era mais a mesma do dia anterior. Suas entranhas revolviam-se em seu ventre, como uma pia velha que há muito não sabe o que é encanação nova. O conteúdo do seu estômago decidiu que o ralo era melhor recanto do que os seus intestinos, e pelo ralo escoou, esverdeado a princípio, líquido transparente após horas de vômitos intermináveis.
O que havia? Caíra vítima da última epidemia apocalíptica da moda, mais um mega vírus filho das mudanças climáticas daquele início de milênio amaldiçoado, que as pessoas teimavam em enxergar como um novo milênio igual a qualquer outro? Morreria assim, sem o glamour de uma tísica tez dos poetas moribundos? Nem mesmo o amarelão de uma exploradora do continente selvagem, carregada em liteira por africanos lustrosos sob o sol escaldante do novo mundo? Nada disso, aliás, só isso, só o cheiro desagradável de seu próprio conteúdo compartilhado com a fossa, pois ali, naquele fim de mundo latino americano não havia sequer uma companhia de águas e esgotos, havia só a fossa.
Na fossa, era onde estava. Decidiu consultar um médico. Amigo da família. Se é que as pessoas acreditam em amizades a uma altura dessas. Como quem não diz nada, ele disse, sem remorso, “ a senhora vai se tornar duas”.
“Eu? Por que eu? Não concordo.”
Não havia erro. Esta era uma daquelas coisas que independem da nossa vontade. Bipartir-se-ia. Seu código genético geraria uma cópia imperfeita de si, em versão miniaturizada, causando-lhe, naturalmente, grande incômodo no processo.
“Que me aconteceu?” pensou. Não era nenhum sonho. Inconcebível que sem o seu consentimento alguém houvesse determinado coisa dessa tramontana. Nenhum aviso prévio, carta requisitória, processo licitatório. Só o baque.
“De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe?” Trabalhou para habituar-se ao ocorrido. Contou aos pares, avisou seu patrão. Seu marido chorou ao saber do ocorrido. Resignou-se mais tarde, serenado, talvez, pelo fato de que não seria ele a vítima de tão terrível metamorfose!
Meses transcorreram, terríveis momentos de expectativa. Antes de dividir-se, precisava dobrar de tamanho. Multiplicaram-se as células, convulsas umas sobre as outras, celebrando entre si casamentos misteriosos pelos mitocôndrios. Ia ficando cada vez mais difícil caminhar, comer, dormir, respirar. Todos tentavam, apesar das evidências em contrário, convencer-lhe de que isso era normal.
Até aquele fatídico dia, deitada sobre a amurada de seu jardim, tomando o último sol não cancerígeno da manhã, com seu imenso ventre de mulher duplicada para cima. Olhou para o belo céu azul e sentiu que já havia passado tempo demais ali, quis virar-se para a direita e endireitar-se para entrar em casa, quando percebeu que não o conseguiria sem imensa dor. As vértebras não lhe obedeciam mais. O ar fugiu, a dor atordoou seu orgulho, a voz saiu-lhe fraca:
“Socorro”.
Havia, por fim, se transformado em um personagem de Kafka. Tal qual Gregor Samsa metamorfoseado em inseto gigante, aprisionara-se de barriga para cima no quintal de sua casa, incapaz de se levantar sem recorrer aos familiares.
A mãe veio em seu auxílio.

“Toma juízo menina, onde já seu viu grávida deitar no chão desse jeito!”

domingo, 28 de dezembro de 2014

Expectativas para o novo


Em breve, virá o novo. Não o Ano-Novo. O novo: novo-novo. O inesperado, o desconhecido, o depois. Ele virá. Estaremos prontos para ele? Ou vamos nos esconder embaixo de nossos cobertores, taparemos o sol com nossas peneiras e aguardaremos que o novo passe. 

O novo não passa, ele chega e permanece. Devemos estar preparados para ele, ou o passado de nada terá servido. Não desperdice o seu tempo sendo amante do passado. Ame o novo, ame-o agora, ou ele devorar-te-à.

Aprenda coisas novas. Descubra coisas novas. Invente novas maneiras de resolver velhos problemas. Olhe para a vida com novos olhos. 

Seja o novo.
Deseje o novo.
Abrace o novo.
Abra sua mente para o novo.

Porque senão, eu lamento, você ficará para trás. Desatualizado, ultrapassado, antiquado, quadrado, esquecido, fora de linha, jogado para escanteio. As crianças rirão de você, as mulheres rirão de você, seus amigos não serão exceção, eles também vão rir das suas velharias.

Você vai acabar num canto escuro, incapaz de trocar a lâmpada, porque não existirão mais lâmpadas ou caixa de força ou fusíveis. Terão inventado novas formas de iluminar os recintos.

Pense nisso.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Falsas promessas


O mundo vai ser inteirinho do jeito que você deseja. Por quê? Para te agradar, é claro. O que você acha estará sempre certo, esqueça do tempo dos erros, daqui para frente tudo vai ser acerto. Ninguém mais te questionará, pois na sua testa, lógico, vai a marca do "sei de tudo".

Só aplausos adornarão o seu caminho e risos. Flores serão jogadas aos seus pés. Será promovido duas vezes no próximo ano, reajuste salarial acima da inflação. O câncer da sua mãe vai entrar em remissão, o seu diabetes e a sua pressão vão ser iguais aos de um menino de dezoito anos.

Na sua sacola de pão, virá sempre um a mais. Em todas as lojas que entrar, será o cliente número um milhão.

Tudo será felicidade e alegria e festa, pra sempre, todos os dias, sem feriado.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A sombra das horas

Começou com a instalação do dispositivo sonoro na torre da igreja. Duvidou do que ouvia. Sinos, como? Quando? Não tivera notícia de qualquer obra nesse sentido. De fato, não houve obras, tratava-se apenas de uma saída de som ligada a um computador. Muito mais simples e barato do que um pesado sino metálico. O "para quê" ou o "por quê" não saberia explicar, sequer ousou perguntar. A existência de uma aparelhagem de som que imitava sinos, pior, imitava uma curta melodia executada por sinos seguida por respectivas batidas indicativas do número de horas dos dias, isso tudo enfim, não devia lhe dizer nada. Não devia, mas, desgraçadamente, dizia.

Hora a hora, hora a hora, o som invadia a sua privacidade e a lembrava de que mais uma hora havia passado. O tempo não corria mais livre e solto, incalculado, ele passou a saltitar, fazendo pausas contemplativas. Curto silêncio intercalado por marcações escandalosas. É tempo, é tempo. Já passou, já passou. As horas ficaram curtas após aquela marcação invasiva, curtas demais para o seu gosto. Sentia que estava desperdiçando o seu dia em coisas inúteis. Não podia se sentar para assistir TV, assim que o bater lento e metódico dos falsos sinos a alcançasse, sentiria culpa. A leitura de um livro  nunca lhe pareceu demorar tanto. Absurdo, cem páginas apenas, e se passaram quatro horas! 

Aquele peso sobre o peito, aflição antecedente de compromissos importantes, iniciava muito antes. Seus dias tornaram-se curtos, muito curtos. E estéreis. A passagem do tempo agora  só lhe trazia sentimentos negativos. Estava muito velha, não haveria mais tempo para correr atrás de felicidade ou realizações, não sobrava tempo durante o dia para se dedicar aos sonhos, as obrigações começaram a ocupar todo o tempo. As suas esperanças receberam um toque de recolher, conformava-se pouco a pouco com a aproximação inevitável da morte.

Queria chorar, sem razão, porém, até este simples extravasamento parecia luxuriante demais  para aqueles dias tão curtos. Como desejava que o tempo passasse enfim, inteiro e definitivo, corresse, que o enredo da sua vida disparasse de uma vez para um ponto mais à frente, onde não sentisse a angústia daquele arrastar macilento das horas sobre seus ombros.

A sombra das horas corria ligeira por sua vida em branco. Faltava-lhe tinta para preencher  o vazio.

sábado, 15 de junho de 2013

Quem tem vintém?

Quando a barriga dói
a garganta chia
seu grito de ódio
seu lema de ordem
e as cabeças explodem,
os braços sacodem
seus socos no ar.

Quem tem vintém?
Quem tem vinte?
Vinde companheiros,
vambora lutar.

Cacetete desce
o pau sacode
sobre as costelas
que querem brigar.

Capacete verde
sangue-vermelho-da-morte
a fome roxa do povo a chorar.

Olha a mãe que cai
sobre o filho grogue
é mãe de um maio em junho esmaecido
brigador de ombros caídos
que esqueceu como é reivindicar.

E a platéia agradecida
aplaude o espetáculo que não pode parar
é show da vida (?)
do telespectador otário que não sabe brigar.

Só sabe chiar, só sabe chiar
barriga vazia, da fome roxa

Não sabe gritar, não sabe gritar
cabeça vazia de sonhos ocos

Capacete verde do sangue-vermelho-da-morte
E a triste mãe de maio em junho a chorar.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Quanto mais se reza...


Vamos ser francos? Rezar resolve? Se resolve, rezem aí por mim, que eu mesma já desisti. 

Os psicólogos que se rebolem em cima de seus tamboretes por lerem esta obviedade proverbial das minhas emoções em fuga: o único remédio deste mundo é estar fora dele. Eu me lembro muito bem que este era o lance dos românticos, e quer saber? Estavam certíssimos: com este mundo, a solução é outro. Outro, outro mundo, entende? É por isso que religião faz tanto sucesso. Quer coisa mais óbvia do que constatar que o mundo é uma droga, e a solução é fugirmos?!

Agora, não me perguntem se alguém virá nos buscar, eu não ando pondo banca de missionária ou coisa e tal. Aliás, se me perguntassem, eu arriscaria dizer que ninguém vem nos buscar, no máximo, vejam bem, no máximo... Já tem outra raça pro nosso lugar. É claro! Por que outra razão as profecias religiosas nos ameaçam com o fim deste mundo, a não ser como aviso prévio de que Deus está criando coisa melhor para chamar de sua "Criação". 

E podemos culpar a Deus por isso? Eu não me atrevo! Ele está é muito do certo. Neste mundo, em que ninguém mais vale uma pipoca, em que todos querem só garantir o seu, em que vagabundo veste beca de doutor e manda dar surra em operário, em que todos acham que estão certos e ninguém assume que está errado. É difícil advogar a nosso favor, humanos irmãos meus, é difícil.

O mundo em que vivemos anda de tal forma corroído, que parece até o mesmo do qual os antigos reclamavam, e Deus fez o favor de afogar no dilúvio. E aí, cadê o dilúvio novo? Está demorando.

Pode ser, repito, pode ser, que esta minha sede diluviana venha do fato que eu venha lidando com filhos da puta demais ultimamente. Mas se até Jó se lamentou, quem sou eu para não me lamentar? 

Que venham os fins, pois estes meios já me cansaram demais.

terça-feira, 11 de junho de 2013

Filosofares....

Vivemos em tal estado de paranoia internáutica, que o sujeito acha que se você tiver uma página na internet é porque você existe mesmo. Pode?

O ser humano não se resolveu ainda nem quanto ao fato se nós existimos ou não. Sério. Você existe? Tem certeza? Pensa outra vez. Ah! Se você duvida é porque você existe? Rapaz, e se você estiver programado pra pensar assim? O Descartes nem tinha computador, como é que ele podia ter tanta certeza que existia? Agora o mais louco: se o Descartes existia, e morreu, ele existe ainda ou deixou de existir?

Eu sei que ele tá morto, mas a memória dele está aí. Ele conta. Ele faz diferença. O Descartes faz mais diferença na nossa vida do que o vizinho da quarta casa depois da nossa. A gente pelo menos sabe o nome do vizinho...

Mas, voltando ao cara que acha que só existe quem tem site na internet, eu pergunto: Vale ter blogue? Brincadeira.

O sujeito deve ser dessas pessoas que aprendeu a usar o PC ontem, e pensam que de fato atrás de cada nick name existe um CPF. Mal sabe ele que metade da população online é um chinês só, mas com personalidade múltipla. Mal sabe ele que todo mundo na rede vira outro, e se multiplica feito vírus, pior do que o agente Smith de Matrix.

Esse sujeito deve acreditar mesmo que só dão golpes as pessoas que não tem site na internet. Eu vou fundar uma igreja pela internet, e ver se ainda arrebanho algum trouxa... ou se todos os que existem já acharam seus pastores.

Agora me deem licença, eu vou ali testar minha existência num joguinho flash.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Canção de despedida

A primeira vez em que senti o peso da palavra despedida foi no pré-escolar. Fim do primeiro ano de estudos, festas de natal, despedidas. Passamos uma semana ensaiando a "Despedida" do Roberto Carlos. Quem conhece sabe que essa música é muito triste, para mim pelo menos, quando ouço "Despedida" do Roberto eu sempre sinto que quem está se despedindo vai morrer, nunca mais voltar, está dando um adeus definitivo. O fato é que chorei pra me despedir de colegas e professores que na maioria estavam lá no ano que chegou.

Não sei se para não repetir essa primeira dose de nostalgia antecipada, ou por uma outra razão aqui não aparente, passei a detestar despedidas. Fujo delas sempre que posso. Dou bolo em confraternizações de final de ano, em encerramentos, em culminâncias, em velórios. Até em velórios. Quer adeus mais definitivo do que o último?

É desnecessário ficar expressando nosso pesar pela interrupção da convivência com os outros. Primeiro, talvez nem exista o tal pesar, há pessoas que não nos fariam falta nenhuma e às quais a ausência ou presença nos seria indiferente.  Por que chorar se a pessoa nem está morrendo? Não é gosto por melodrama?

Infelizmente, vivemos em uma sociedade tão hipócrita que nos sentimos obrigados a fazer de conta que sentiremos falta das pessoas. Quer dizer, as pessoas andam com a autoestima tão em baixa que precisam de qualquer migalha de fingimento para não se sentirem mais em baixa ainda. Será possível que ninguém é seguro o suficiente para, mesmo não recebendo nenhuma declaração de amor de última hora do sujeito para o qual só disse "bom-dia" por educação, sentir-se ainda o mesmo de sempre sem tirar nem pôr pedaços de amor próprio? As pessoas dependem demais da opinião alheia (sempre dependeram, eu acho) e isso é um peso desnecessário. São rituais aos quais nos obrigamos para demonstrar sentimentos que não possuímos.

Claro, nem todas as despedidas são hipócritas. Não vamos exagerar no ceticismo.   É a artificialidade do ritual que me incomoda.

Finalizações, fechamentos de ciclos, são coisas necessárias... É necessário dizer que acabou o que todos estão vendo que está acabado? Comemorar o fim de uma guerra, celebrar o término de um período detestável, aí sim, parece-me mais adequada a celebração. Mas, dados os descontos, não é suficiente um "tchau, até logo"? Faz mais sentido fingirmos que nos veremos de novo em breve, que a separação é momentânea do que demonstrações sentimentais forçadas.

Então é isso. Acabou.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O bote do ódio

Espreita escondido atrás do olho esquerdo, depois do direito. É negro, tem a profundidade das coisas sem fim. Rodeia, atocaia, mais parece a vítima que se esconde do que o carrasco que aguarda o momento para empunhar o machado.

Houve o tempo em que passou adormecido, temeroso de se dar a conhecer à luz. Envergonhava-lhe sua figura disforme, malhada por indisfarçáveis manchas de desespero. Toda a sua força concentrada em suas convicções, aliás, crenças. O que por nada muda só pode ser medido pela régua da fé. Conhecia a razão pela qual fora criado, de certeza tão indiscutível quanto o nascer e renascer do sol todas as manhãs.

Nasceu então, brilhante, áspero, de altura inexplicável, cheio de gritos e roncos de dor. Avançou cegamente em todas as direções, bateu dolorosamente sobre a superfície dos seres, rebarbou, espumou e recuou, para voltar a se expandir e ir repelindo os sentimentos mesquinhos e de menor monta.

E rasgou e pisou, chorou um vômito amargo de afogado sem esperanças. Suas lágrimas se tornaram espinhos que rasgaram as carnes próximas. Rolou sangue e suor, e gargalhadas histéricas de incompreensão.

E riu, riu, riu, até cair. Desejou seguir de arrasto os alvos de sua dor, mas do tombo não mais se levantou. Asfixiou ali, em frente à platéia muda, com as mulheres tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o vexame da sua nudez esquelética.

O seu sorriso de morto eram os dentes falhos de uma caveira de olhos apodrecidos.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

A angústia de escrever

Perdi o fio do risco, emudeci. Olho a tela em branco, aguardando caracteres a serem digitados e não tenho o que dizer. Quem diria, que eu, algum dia, ficaria sem ter que dizer, eu que já disse o que os outros não queriam ouvir, o que ninguém sabia que podia ser dito, o que todos queriam, mas não diziam.

Foi assim só: calei-me. Nem calos faço mais nos pulsos por apoiá-los sem jeito na quina da escrivaninha. Perdi o jeito. Mas também, escrever para quem? Ninguém mais a desafiar com meus desaforos líricos, minhas sátiras tortas, as sandices estão morrendo todas no meu cérebro, sem contaminar a folha mágica que brilha dentro do computador. 

Para onde vão as letras depois que as escrevo? Como faz para piscarem antes da barra negra? Será verdade que alguém do outro lado pode ver os rabiscos que faço do lado de cá? E o que lê este alguém? São os sinais pretos retorcidos do indo arábico ou são os meus próprios pensamentos que ouve, perdidos dentro de sua cabeça?

Não sei. Se soubesse lhes diria. Mas eu não sei.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fiascos do fim do mundo


Naquele dia por acaso resolveram promover o Fim do mundo. Em hora imprópria e sem a pompa dos símbolos bíblicos. Fim de mundo fajuto: sem anjo nem arcanjo tocando trombeta no céu, nenhum dragão de sete cabeças cuspindo pragas do Egito. Esqueceram de fazer nascerem os doze bezerros pintados de ouro com três cabeças cada. Não contrataram a Santa para se vestir de Prostituta e parir um Messiazinho ao avesso para trazer ao mundo os consolos da destruição total. 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Despertar do duvidar




Aquelas almofadas serviram divinamente ao meu sono, despertei descansada, sem dor nenhuma pelo corpo. Até me apalpei um pouco para ter certeza de que o corpo não estava insensível ao toque e à dor.

- Aparentemente tudo no lugar. – Ponderei, dando um soco leve no joelho e rindo da resposta reflexa da perna.

- Exceto por esta coceira besta.

sábado, 8 de maio de 2010

O envelope



Eu tinha uma carta para ser entregue, o destinatário estava bem explicitado no envelope, mas não havia remetente. Era o meu primeiro dia no ramo de entregas, queria mostrar serviço, todas as outras entregas completadas, só aquele envelope no fundo da bolsa. Estacionei em frente a um enorme terreno baldio, um único outdoor na frente anunciando uma obra próxima. Sem dúvida era aquele o endereço, mas não havia prédio ali, e o envelope indicava o número de um apartamento no oitavo andar. Comparei o edifício do envelope com o nome do outdoor. Iguais. Voltei para a central, aquele envio devia ser uma piada de mau gosto. Atônita assisti a meu supervisor empreender um violento escracho contra minha pessoa. Naquela firma de entregas não se admitiam falhas, voltasse eu todos os dias a procurar o endereço do mesmo envelope e registrar no relatório “endereço não encontrado”. Carimbo. Assinatura de um vizinho.
E assim foi, uma vez por semana eu voltava àquela rua e incomodava alguém da vizinhança para testemunhar que não havia ali naquele terreno um prédio tal, com tal número e tal andar. E semana a semana o edifício se erguia do chão, pululante de operários e prestadores de serviços, um monstro de concreto e pedra construído de baixo para cima. Completei oito anos de firma, ocupei o lugar do antigo supervisor, mas aquele compromisso eu não abandonava, o maldito envelope nem saía mais da minha bolsa. Finalmente concluíram a construção do edifício, lojas comerciais nos dois primeiros andares, escritórios do terceiro ao quinto, do sexto ao oitavo residências. Desta vez o elevador funcionava, fora sempre chato subir as escadas e passar entre os trabalhadores nos corredores sem acabamento para averiguar quando seria ocupado o fatídico oitavo andar, apto. 357.

Aquele seria o dia, era minha folga, mas e daí? Quando uma coisa te persegue a tanto tempo, detalhes pequenos deixam de ter importância. Toquei a campainha, uma mulher veio atender.
- A senhora é (...)?
- Sim, sou eu.
- Uma encomenda para a senhora. Assine aqui.
Estava tão curiosa, o que havia dentro do envelope? A mulher pareceu adivinhar, rasgou o envelope na minha frente e correu os olhos pelas linhas.
- É algo grave? – pergunta irresistível.
A mulher me olhou com o rosto espantado. E disse:
- Não é da sua conta.
Entregou a gorjeta e bateu a porta.