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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Bonecas e o futuro

Ser Menina
Capítulo II
Bonecas e o futuro               



O jardim era um quadrado sem terra, um piso liso de cerâmica feia, cheia de padrões que gastava horas para conciliar. Sua brincadeira era caminhar pela cerâmica sem pisar no meio octogonal, somente nas partes lisas. Com os carrinhos do irmão dava para fazer uma imensa autoestrada cheia de bifurcações entre aqueles desenhos, e eles faziam. O irmão era o menino da sua vida. Havia também as  plantas de todos os jeitos, compridas, de folhas finas e largas, verdes, claras e escuras, roxas, venenosas, urtiguentas, porosas.

As sementinhas que caíam das plantas eram as colheitas das suas bonecas. Tantas bonecas, inúmeras para a sua cabeça de menina pequena. Rechonchudas, com boquinhas pequenas e rosadas, olhinhos azuis, calcinhas brancas, somente uma pitucha de cabelo no meio da cabeça lisa, ou então, cabeludinhas e loirinhas, com xuxinhas coloridas. 

Possuía uma única boneca pretinha, carequinha, o olhinho dela era azul e olhava sempre para a direita. Não era olho de vidro, era pintado. As mãozinhas eram as coisas mais perfeitas do mundo, com covinhas de bebês nas ligas dos dedos, só que os pezinhos eram tortos, ela não ficava de pé. Nenhuma das suas bonequinhas era criança. Eram todas adultas, moravam juntas por opção, não tinham pai ou mãe, e não eram irmãs. Havia os garotos, em número menor, estes dizia que eram do irmão. A maioria dos garotos não era gente, eram cachorrinhos e ursinhos, todos humanizados para melhor servir ao mundo de faz de conta.

Sentia pena de ver as suas pessoinhas sofrerem. Elas passavam frio, tinham fome, tinham sede, sofriam sequestros e vários casos de violência doméstica. Precisava estar lá para curar suas feridas e apaziguar suas brigas.

Mesmo criança, enxergava assim o mundo cheio de sofrimento e incômodos. Não se lembrava de em nenhum dia da infância ter previsto um futuro ameno. O futuro era o hoje com cara de bravo, ameaçando com coisas piores de porvir.

E nem era boneca, para ter quem lhe protegesse. Desejava o futuro somente por não ser o presente, por ser outra coisa, ausente.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Uma janela para qualquer lugar


Nasci filha de uma operária na grande São Paulo. Na nossa casa, havia alguns livros muito antigos, comprados de segunda mão pelo meu tio, único da família a cursar além do antigo ginasial. Eram livros de física, química, sistemas elétricos, todos com pequenas ilustrações de maçãs caindo de árvores, homens levando choque e moléculas se dividindo e se reunindo. Os meus preferidos eram os de inglês, porque mostravam histórias completas de crianças que iam a lugares e apontavam para os objetos dizendo seus nomes. Lembro bem de uma ilustração em que um caçador em pé numa canoa atirava em patos, ele ia contando o número de patos que caíam dentro da canoa, até a canoa ficar pesada demais para que o caçador se mantivesse equilibrado sobre ela. No último quadrinho, um enorme crocodilo se aproximava da canoa com cara de faminto e com um balãozinho de pensamento escrito... “One...”
Assim se passou a minha primeira infância. Estou certa de que a televisão exerceu maior influência sobre mim neste período, e talvez pela vida toda. Devo ter tomado conhecimento dos maiores clássicos da literatura pelos desenhos. O Pica-pau me ensinou sobre Pancho Villa, Dulcinéia, Roma, Nero, a Torre Eiffel; Chaves e Chapolin Colorado eram de fato meus heróis, imitávamos as estripulias de ambos, eu era a Dona Florinda e meu irmão era o Professor Girafales, e assim alternávamos até que cada um ocupasse todos os papéis e falas geniais.
Então, um dia, minha mãe decidiu que eu devia aprender a assinar meu nome, porque eu ia tirar meu primeiro RG. Foi um custo, o tempo que eu havia passado no jardim de infância não tinha me ensinado muita coisa. As professoras me empurravam cadernos para copiar as letras e riscar em cima de tracejados e colorir figuras, eu detestava tudo, inclusive a escola e as professoras. Elas gritavam com as crianças e por mais que eu ficasse quieta ainda podia ouvi-las gritar com as outras crianças. Mandavam a gente fazer fila e eu não gostava de filas. Mandavam a gente cantar, mas eu não gostava de cantar na fila, então eu só mexia a boca fingindo que estava cantando, e as professoras gritavam novamente para nós cantarmos alto. Minha mãe decidiu me tirar da escolinha, afinal, eu nem estava aprendendo a assinar meu nome, eu passava metade do tempo da aula chorando pra ir pra casa e é claro que as professoras diziam isso pra minha mãe. O caso é que a minha mãe devia achar que eu era muito nova e chorava de saudade dela. Estava enganada, eu estava acostumada a ficar longe dela, porque ela sempre trabalhou fora, quem cuidava de nós era minha vó: eu chorava porque não gostava da escola.
Minha mãe comprou uma coleção de livros infantis que eu guardo comigo até hoje. Contos de fadas, fábulas do mundo todo, clássicos. Ela lia pra gente todas as noites antes de dormir. Aos sete anos eu fui para a escola pública. Tia Rosângela foi minha professora da primeira série. Como todos os meus coleguinhas eu não sabia ler, só conhecia as letras. Não me lembro de como, mas em três meses, assim conta minha mãe, eu já estava lendo. Daí ela pedia pra eu ler as histórias para ela e pro meu irmão. Eu estava lendo as mesmas histórias que antes só podia ouvir.
Veio a segunda série, minha mãe comprou um Atlas Mundial pra gente. Meu irmão era apaixonado pelos mapas. Então eu tive a ideia de ensiná-lo a ler para ele parar de ficar me pedindo para dizer o nome dos países. Eu tentei. Peguei meus cadernos do ano anterior e repassei as lições, falei das sílabas,  pouco tempo depois ele lia tão bem quanto eu.
O meu irmão virou a atração lá de casa, os tios nos visitavam e ficavam perguntando a capital dos países para ele, e ele os sabia de cor (até os da África e Ásia). Eu sabia alguns também, mas ele era três anos mais novo do que eu, deviam achar que na minha idade saber das coisas era de obrigação.
Veio a terceira série e nós mudamos para o litoral. A escola era estadual e tinha uma biblioteca que deixava a gente levar os livros para casa. Comecei a pegar os livros emprestados num dia e devolver no outro dia. O professor que cuidava da biblioteca brigou comigo, ele achava que eu subia até lá só pra matar aula, não acreditava que eu lia o livro todo de um dia para outro. Mas eu disse que lia mesmo, e contei a história do livro. Ele resolveu me emprestar mais de um livro por vez. Claro, eram livros pra criança. O maior devia ter só uma 50 páginas com letras enormes.
Sempre ri e chorei com os livros que li. Senti medo, venci vilões, refletia sobre as grandes dificuldades do mundo e como era bom estar segura dentro da minha casa, tendo aquela janela aberta para o mundo, de onde eu podia enxergar qualquer lugar.

Continuei lendo, de tudo. Aprendi a gostar de quadrinhos. Nunca sobrou muito dinheiro para comprá-los, mas dava para pedir emprestado, pegar em bibliotecas. Resolvi cursar Letras, foi conselho da professora de português do ensino médio. Ela disse que eu tinha talento e não devia desperdiçá-lo. Acho que ela estava certa. Hoje eu tenho mais livros do que estantes, e olha que não compro livros há anos. Eu os leio pelo computador e pelo celular. Eles nunca foram tão brilhantes.

(Memórias Literárias escritas para um fórum de fomento à escrita e leitura)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ser menina

Menina
Capítulo 1

Ser Menina

           Nascera mulher e por obrigação devia portar-se como uma dama. Ser dama, na verdade, não lhe entrava na cabeça. Primeiro, porque "dama" é uma palavra medieval utilizada até hoje, século XXI, totalmente descontextualizada. Mas o fora de contexto não ia por sua mente infantil, ser dama era o mesmo que ser menina boazinha.  Quase ser princesa; gostaria de ser princesa, mas era pobre.       
         Era pequena a  ponto de brincar de balanço, porém lhe proibiam usar roupa curta ou mostrar a barriga. Era proibido ainda brincar no meio dos meninos. Tinha tantos primos, todos da sua idade, todos com brinquedos novos e novidadeiros, sabendo coisas diferentes, mas não podia brincar com eles. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O doce e o amargo

Essas pessoas que pretendem corrigir o mundo com mordacidade e corrosão, tenho delas pena. São pequenas, porém se acham grandes detentoras da verdade. "Dou-lhes chances, dizem elas, mas não as aproveitam", são quase deusas, estes seres supremos que dão chances para que não sejam aproveitadas. Convencem com ameaças, ajudam com admoestações, ensinam  com réguas batendo pelas paredes; recebem sem agradecer, trabalham como se fizessem favor. E estão sempre certas, é lógico. Errados estão os outros, não elas. Tudo dá errado, mas não por interferência delas, é claro, está claro que elas nunca erram, apesar de nunca mudarem, de repetirem as mesmas ladainhas, trilharem as mesmas brechas, mastigarem as mesmas fórmulas. Não são seus métodos que necessitam de renovação e estratégia, mas é o mundo todo que precisa adequar-se aos seus métodos.

É como no conto de fadas, a menina de capuz vermelha há de receber um ensinamento. A mãe quer inspirar-lhe responsabilidade, para isso, entrega-lhe a cesta de doces para a vovó. A menina tem de ir e voltar pelo caminho indicado, resta-lhe tempo para aspirar o perfume das flores. Há pedras e tropeços pela estrada, distrações, mas o objetivo é bem claro, adoçar o dia da menina, da mãe, da avó. Há, contudo, o amargo. Ele espreita por trás das árvores, espera o momento em que a menina se distraiu, e trama contra a doçura.

Ele é invejoso, pois os doces sequer fazem parte da sua dieta de predador. Ele também quer dar lição, a lição do mais forte sobre o mais fraco. A lição que sobrepõe a toda justiça ou brandura, pois utiliza da força e da violência. A menina aprenderá tarde demais, já na barriga do lobo. E na história original, lembrem bem, não há caçador. Há somente a injustiça lupina.

Não sabem trabalhar em grupo, porque quando algo não é do seu gosto, cruzam os braços, fingem-se de indignadas e pousam seus traseiros sobre seus rabos para fofocar. Ah! Como fofocam as pequerruchas. Suas línguas são mais compridas do que o amargor de suas impotências. Porque já desistiram de aprender, acham que ninguém mais o pode. Somem da arena quando se trata de encarar o novo, mas do velho e do empoeirado entendem bem. Colocam-lhes bem à frente as suas ideias trazidas de casa, requentadas, prontas para pipocar de suas bocas cheias de dentes. E repetem, repetem sempre: "Como eram bons os outros tempos". 

Nos outros tempos, não havia licença para dizer o que se achava, havia só a continência surda batida frente a vista cega das ordenações. Não havia o colorido doce da diversidade, mas a mesmice tosca das cópias fiéis ao comando dado pelos profetas de um milhão de anos atrás. "O certo é a velha moda das tataravós. Qualquer outra coisa é astúcia de meninadas."

E há o doce das incertezas, das ajudas mútuas, das buscas com lampião. Há a beleza do acerto e do erro, da paciência, da consolação na queda. Há o respeito aos divergentes meios, e há solidariedade para a construção.

Há o doce novo. O amargo velho. O doce-amargo da conciliação.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Expectativas para o novo


Em breve, virá o novo. Não o Ano-Novo. O novo: novo-novo. O inesperado, o desconhecido, o depois. Ele virá. Estaremos prontos para ele? Ou vamos nos esconder embaixo de nossos cobertores, taparemos o sol com nossas peneiras e aguardaremos que o novo passe. 

O novo não passa, ele chega e permanece. Devemos estar preparados para ele, ou o passado de nada terá servido. Não desperdice o seu tempo sendo amante do passado. Ame o novo, ame-o agora, ou ele devorar-te-à.

Aprenda coisas novas. Descubra coisas novas. Invente novas maneiras de resolver velhos problemas. Olhe para a vida com novos olhos. 

Seja o novo.
Deseje o novo.
Abrace o novo.
Abra sua mente para o novo.

Porque senão, eu lamento, você ficará para trás. Desatualizado, ultrapassado, antiquado, quadrado, esquecido, fora de linha, jogado para escanteio. As crianças rirão de você, as mulheres rirão de você, seus amigos não serão exceção, eles também vão rir das suas velharias.

Você vai acabar num canto escuro, incapaz de trocar a lâmpada, porque não existirão mais lâmpadas ou caixa de força ou fusíveis. Terão inventado novas formas de iluminar os recintos.

Pense nisso.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Era uma vez um burrinho


Ana Castro 

Era uma vez um burrinho que nasceu feio feito a necessidade. Não daquelas necessidades bobas, de comprar Play Station 2 ou bicicleta de marcha. Necessidade mesmo, daquelas que você passa quando não chove e o rio da sua cidade seca e você precisa tomar água de uma cacimba. O burrinho foi criado no interior, era gordo, ao ponto de ninguém perceber que era feio. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. O burrinho pensava que tudo poderia ficar pior se não houvesse mais a carga, porque o dono lhe dava comida só por causa da carga. Ele quebrava as costelas carregando as pedras que o dono mandava e o dono retribuía com a comida. Não se importava que cada dia a carga ficasse mais pesada e a comida mais pouca, contanto que houvesse carga, pensava, haveria comida. E água.
Na cabeça do burrinho, penso eu a narradora, esta devia ser a vida de todos os burrinhos, ele havia nascido para ser um burrinho cargueiro, que comia devido à bondade de seu dono. E à carga.
Mas o mundo, como todos bem sabem, não se compõe somente de burrinhos e cargas. O mundo é grande e cheio de perigos e surpresas. Um dia parou de chover, quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos. Dizem que foi por causa do desmatamento das matas ciliares, outros dizem que os gases liberados pelas vacas foram tantos que o buraco da camada de ozônio se tornou grande demais, a temperatura da terra mudou e o clima junto. Aí parou de chover. Quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos.
Sem chuva, ninguém mais precisava de pedras. O dono do burro perdeu o emprego das pedras. Ele vendeu o burro para dar de comer aos filhos, e o burrinho trocou de sina. O novo dono era dono também de uma charqueada. Lá se foi o burrinho, triste, preso na carroceria de um caminhão velho, junto com vários outros burrinhos de todas as cores e procedências. Iam para charqueada, que como todos bem sabem, trata-se do local onde se entra burro e sai-se charque. Ali, na estrada cumprida, o burrinho aprendeu que todos os burrinhos são iguais, dividem a mesma sina de animais tristes, explorados, com mais carga do que comida. Aonde iam, não sabiam, mas iam.
Chegaram. Viagem sem água, nem comida, nem sombra. O motorista manobrava para estacionar próximo à rampa de acesso. Os urros dos burrinhos incomodados formavam uma sinfonia triste de doer coração de quem ainda leva o coração no peito. Perguntas sem resposta pipocavam na mente do nosso burrinho: onde estamos? Por que não nos deram água? O que vai acontecer conosco? O novo dono precisa que carreguemos pedras? A que horas nos darão palha? Todas as respostas deixaram-se ficar sem respostas enquanto o fundo do caminhão se aproximava lentamente da entrada do matadouro. Devo aqui dizer que o destino certo do nosso burrinho e de seus companheiros burrinhos teria se cumprido não fosse a intervenção de uma força maior. Um decreto presidencial ordenava o fechamento de todas as charqueadas do Estado e a destinação imediata dos equinos, muares e asininos para um novo Ministério que acabara de ser fundado: o Ministério de Apoio Mútuo às Emergências e Desastres Naturais. Parece-me que esta nossa história ambientada em um futuro alternativo caminha para um desenlace incerto. O que não é de todo mal, pois o destino de todos nós é incerto até que se concretize.
Os burrinhos desceram do caminhão 45km a frente, equilibraram-se pela rampa bamba até um curral abastecido com água, palmas, palha e sombra para todos. No meio da noite, uma luz forte foi acesa e homens usando luvas de proteção vieram ao curral para borrifar um líquido sem cor nos burrinhos, passaram pomadas em suas feridas e trocaram as ferraduras rachadas. Os outros burrinhos eu não sei, mas o nosso ficou contentíssimo, ele entendia que estavam recebendo tratamento cuidadoso, isso só poderia significar que seriam novamente empregados. E foram.
A grande seca não atingiu apenas o negócio de pedras do seu antigo patrão, mas todo o país. Cidades com bilhões de habitantes que se amontoavam em prédios altos como as nuvens morriam de sede e fome, não havia água o bastante para gerar energia elétrica que movesse os motores de sucção de água do subsolo. O combustível fóssil se exauriu em poucos meses para aquele país que dependia de sua agricultura, agora impraticável devido à falta de chuvas (dizem que o combustível alcançou preços proibitivos, dizem até que o governo preferiu vender o combustível aos estrangeiros na mesma situação a usá-lo com seus cidadãos, mas essas histórias eram rapidamente sufocadas pela urgência do trabalho duro). No lugar de braços mecânicos e motores bebedores do óleo negro mais caro do que ouro, foram colocados braços, lombos e pernas de homens, mulheres e todo o tipo de animais de tração. O transporte era feito por animais e pessoas puxando outras pessoas, algumas vezes as pessoas e animais iam puxando as carcaças dos antigos automóveis, carregando outras pessoas ou mercadorias. Os animais giravam imensas rodas de moinhos que içavam do subsolo água para matar a sede, carregavam água salobra do mar para tanques de dessalinização e carregavam o refugo para piscinas artificiais onde se criavam peixes e outras criaturas marítimas das quais nosso burrinho nunca ouvira falar. Nas cidades, não se viam mais ônibus ou caminhões, muito menos carros pequenos, viam-se bicicletas, carroças, enormes carroças assemelhadas a barcaças sendo puxadas por 5 parelhas de touros. E pessoas, muitas pessoas, que preferiam caminhar à sombra dos edifícios colossais ao invés de cozinhar dentro deles sem refrigeração artificial. O comércio mudara rapidamente, em uma semana, o burrinho e seus companheiros não serviam para nada além da charqueada, carne barata para gente pobre comer. Na outra semana, eram mais valiosos do que qualquer automóvel de luxo.

Finalmente o burrinho sentiu-se necessário, sentiu que o que fazia era bom. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. Sabia que os donos nunca deixariam de precisar da água, sempre lhe dariam um pouco desta, e teria palha e sombra. Amava os homens porque precisavam de seu trabalho, amava-os mais ainda agora: sabia que os homens também carregam as coisas quando necessitam. O burrinho pela primeira vez foi feliz e continuou sendo até o dia de sua morte.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Criação

Para que me criaram, pergunto. Sou obra de algum arquiteto, há propósito na minha preparação  para o mundo, quero saber. Nasci, como dizem, para ser feliz, ou nasci, como dizem, para penar. Tenho liberdade para decidir a que vim, talvez, escolher o que devo ser. Talvez não, posso ter sido criada por acaso, sem razão, fruto de um desejo incerto, largada ao léu, tornei-me o que quis, sem querer, não sei.

Qual seu sonho? perguntou a menininha. Tão inocente, quer saber o que eu sonho, mas eu não sonho, lamento. Realizei todos os meus sonhos, só que cedo demais, sobrou tempo para pensar, devia ter me demorado mais no processo, assim restaria pouco para a apreciação de mim, esta obra, sem arquiteto, sem propósito, despreparada para o mundo.

Perdi os objetivos, aliás, cumpri-lhes. O que me resta? Matar o tempo, matar o tempo, matar o tempo...

E se eu fizer, disser, quiser algo novo, que me dirão? Que não. Devo contentar-me com o realizado, estancar qualquer vontade, estacionar ali e deixar de estúcia.

Obedecerei, é claro, a mim, não a outro, não há outro, hei. Resto-me. Criei-me.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Mundos e mundos e mundos

Aceitar o novo, encontrar novos significados para coisas velhas. Reaproveitar o excedente em coisas úteis, transformar idéias. Somos habituados a entulhar nossas casas e nossas mentes de objetos inúteis, de valor questionável, troféus e lembranças dispendiosas de tristezas passadas. Buscamos estar em ambientes barulhentos e agitados para evitarmos a solidão de nossos próprios pensamentos vazios, mas quando encontramos o silêncio, ele nos atormenta com nossos pecados, porque acreditamos no pecado, porque acumulamos sentimentos inúteis, evitamos sentimentos sinceros, nos envergonhamos dos nossos próprios sentimentos. Então somos assombrados pelo que não compreendemos, pois não nos permitimos compreender.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Maqueteiros


As maquetes aí acima foram confeccionadas pelos agentes comunitários da minha cidade (Cândido Sales-Bahia) para ilustrar como deve ser uma cidade saudável e como é uma cidade doente. O trabalho faz parte do nosso curso de capacitação como Técnicos em Agente Comunitário de Saúde, pela Escola de Formação Técnica em Saúde Prof. Jorge Novis.

Não dá para dizer que criamos obras primas, foi feito tudo muito de improviso, mas deu para sentir que vivemos (nós, terráqueos) em cidades ques passam longe de poderem ser chamadas saudáveis.

Falando em construção de cidades ideais, tem uma página de jogos que eu acho ótimos para nos fazer pensar sobre como devemos tratar o meio ambiente, de vez em quando eu jogo com a minha filha por lá.

Quem quiser conferir, vai o link do meu preferido: http://www.eyezmaze.com/eyezblog_en/blog/2005/09/grow_cube.html#monster

domingo, 13 de junho de 2010

Agulhas, agulhas, agulhas


Quando era criança eu tinha medo de vacina. Sério, eu implicava até com as gotinhas, era a mesma coisa com dentista, cheguei a me enfiar debaixo da cama para não ir ao dentista. Normal, conheço poucas crianças menores de dez anos que não odeiem vacinas, dentistas, remédios. Covardia é aceitável em crianças. E nos adultos?
Este ano eu comecei a trabalhar com saúde, a primeira campanha que encarei foi a campanha contra H1N1. Foi nesta campanha que eu descobri o grande número de adultos que se recusam a receber vacinas, qualquer uma, os “resistentes” como são chamados pelos profissionais de saúde. Sim, sim, tem marmanjo barbado correndo de agulhada. Vamos descontar os casos em que as pessoas tem argumentos aceitáveis, por exemplo, a pessoa fica receosa de se vacinar quando ouve boatos sobre reações adversas, sobre lotes problemáticos...
Mas existem os casos de total falta de argumento, a pessoa diz que não irá se vacinar porque “não precisa”, “tem uma saúde de ferro”, “não tem tempo”. Sinceridade só naqueles que admitem de uma vez: não gostam de agulhas. Justamente com estes fica difícil contra-argumentar, se o fulano disse que não precisava se vacinar tem como se apontar dúzias de motivos para fazê-lo, e para o medo, qual argumento usar?
As pessoas são esquisitas sem dúvida. Enquanto algumas exigem longas conversas sobre a necessidade e a importância da vacinação, outras exigem paciência para convencê-las de que não estão no grupo alvo da campanha, é preciso aguardar a idade certa, a extensão do privilégio a novos grupos alvos, procurar a rede particular...
Guardar e encontrar as carteiras de vacinação, sair de casa, aguardar em filas longas, arregaçar as mangas, estas são atitudes de pessoas precavidas e preocupadas não só com a própria saúde, mas também com a saúde de todos.
Para esclarecimento, passou o meu medo de agulhas, entendi que a picadinha no braço é um custo pequeno em comparação a adoecer, gastar com remédios, ir para um hospital. Além do que, ter medo de vacina é coisa de criança.

domingo, 16 de maio de 2010

Humanas Criaturas


A criatura humana entrou em decadência dois minutos após a Criação. É penoso a ela reconhecer a descentralização do Universo, é penoso reconhecer como o umbigo não atrai para si os desvelos de toda a corte celestial.
A criatura humana crê em um Criador até se por sobre os dois pés e alcançar a fruta das ilusões. Ela nega a um deus inventado, remédio para todos os males, resposta para todas as perguntas, pão para todas as fomes. A criatura humana desconhece o seu papel no cosmos: rejeita a passagem do tempo, rejeita as adversidades da vida, rejeita a inevitável morte. Mas ela clama pelo deus rejeitado quando se aproxima a hora de agonia, porque as ilusões são vazias, disfarces para uma verdade inegável. Deus existe, não existe para servir aos caprichos da presunçosa criatura, existe para que tudo o mais possa existir.
O Criador não é um ser isolado, é a obra em si e tudo que dela faz parte. A criatura humana é parte da Criação, mas ela prefere abrir mão do seu papel para se acomodar. Deseja que o Universo se expanda sem ela, deseja o fim da violência, a solução para as guerras e para a fome, o fim da poluição, contanto que não seja necessário erguer-se um dedo para isso. A criatura humana é fútil, burra e preguiçosa. Joga sobre o seu deus inventado a responsabilidade de suas omissões e egoísmos. A criatura humana sonha com uma pós-vida sob a medida de seus egoísmos. A criatura humana aprende devagar, esquece rápido, desiste cedo, reclama muito.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

De volta à raíz do medo




Eu sempre alimentara, desde criança, aquele mórbido hábito de imaginar que o pior sempre estava para acontecer, e fantasiava o telefone tocando para avisar-nos do cadáver jogado em algum beco. Eu tentava simular a dor que sentiria tendo que assistir ao enterro de minha mãe, imaginava o caixão dela baixando na cova. Era esta a visão de justiça que o mundo me inspirava, porque todos os dias nos noticiários eu ouvia crimes horríveis serem relatados e na nossa própria família já haviam acontecido crimes violentos. Na minha recém formada concepção de mundo, os maus eram sempre fortes e conseguiam vencer os fracos. Não havia quem castigasse as coisas erradas, e a única maneira de reverter esse quadro era criar um novo mundo para substituir o obsoleto.

O medo é uma coisa horrível de sentir, porque a vítima sente-se invariavelmente impotente para reagir. Eu sentia uma bolha no peito que se movia conforme eu respirasse, e tinha uma outra sensação, igual àquela que sentimos quando enchemos várias bexigas e ficamos sem ar. Sempre que esta sensação tomava conta de mim, eu apertava um crucifixo de ouro que havia sido presente da minha avó, e implorava a Deus que ele protegesse a minha mãe. Eu estava no segundo ano da catequese, e acreditava em todas as palavras que me eram ditas sobre Deus e sobre a Bíblia. Por isso mesmo, na minha lógica nascente, eu não achava impossível que Deus permitisse a morte da minha mãe, pois, afinal, ele mandara seu filho ao mundo para ser crucificado, e a minha mãe não era mais importante do que o Salvador dos Homens. Classifiquei minha mãe no time dos fracos, e seu oponente no time dos fortes: fatalmente, ela seria derrotada.

O tempo passava, e o medo enveredava por períodos de adormecimento. Nós mudávamos de casa, e os vestígios de que alguém nos vigiasse desapareciam, então, um pouco de sossego se instaurava. Como quando se está no meio de uma guerra, e as balas inimigas cessam de zumbir em nossos ouvidos. São destas tréguas que os homens aproveitam-se para imaginar que o mundo seja um lugar bom, e projetam sociedades utópicas onde reine a paz. Os menos ingênuos enxergam que trata-se apenas de uma trégua, e as guerras sempre reiniciam quando se reestabelecem as forças inimigas. Sempre éramos encontrados, e a bolha voltava a mexer-se no meu peito.

Eu aprendera a odiar, porque já me era insuportável temer. Depois que o ódio brotou, eu não me sentia mais na condição de vítima, mas na de defensora e vingadora. Nas minhas imaginações, sempre que um de nós estivesse em risco, eu surgiria grande e forte para defender-nos. Nada mais me assustava, porque o tamanho da minha raiva me fazia sentir potente como um Hércules que arrastaria o cão de Hades pelo Tártaro a fora, sem necessitar de nenhuma melodia hipnótica da flauta de Orfeu.
É sempre doloroso recordar esse período da minha vida, tudo que houve de bom se apagou, porque as coisas boas são assim, facilmente esquecemo-nos delas, enquanto que as más estão sempre voltando ao centro das atenções.

sábado, 10 de abril de 2010

Reflexões educacionais

A educação em nosso país, o Brasil, é deficitária. Conseguimos ‘escolarizar’ os nossos jovens, o que não é o mesmo que educá-los com excelência. Há gente por aí creditando essa deficiência no ensino básico de língua e matemática às escolas públicas, são os mesmos que se posicionam contra a inclusão no ensino superior de alunos da rede pública, afrodescendentes e indígenas. Eu, como educadora graduada em Língua Portuguesa e Literatura por uma instituição pública e estadual, chamo esse tipo de posicionamento de retrógrado, preconceituoso e infundado.
O problema da educação em nosso país não é só econômico – poder pagar uma escola particular ou depender da pública. O problema da educação em nosso país é metodológico, cultural e social, especialmente no que se refere ao ensino da língua.

Metodológico porque os educadores em geral são conservadores, fechados para as inovações sugeridas pelos pesquisadores e pensadores da educação. Ouve-se muito nas conferências sobre o método Paulo Freire, sobre inovação, sobre Piaget, mas na prática, tanto na rede pública quanto na rede privada, o número de educadores realmente capacitados para acolher metodologias novas é pequeno. As mudanças necessárias para fugir do feijão com arroz de “copiar do quadro” e “seguir o livro didático” estão longe de serem oferecidas pelos sistemas educacionais. Inclusive, neste ponto de dar liberdade ao professor de optar pela adoção de metodologias diferentes, a escola pública dá de dez a zero na rede particular. Escola particular é empresa com fim lucrativo, quer resultados imediatos e tem medo de ousar. Com exceção de umas poucas instituições que se propõe a oferecer uma proposta “alternativa”, restaurantes e bares também são capazes de fazer isso, a maioria se repete no inquestionável e inabalável “método tradicional”. Para mostrar uma ponta do que as não tão recentes pesquisas indicam: o estudante para aprender a escrever e ler com fluência não precisa decorar terminologia gramatical. Sujeito, Aposto, Predicado, Advérbio, Transitividade, isso tudo tem mais a ver com filosofia lingüística do que com o ato de escrever em si. Pois é, mas qual é o professor que não obriga sua turma a decorar as classes gramaticais? As questões de concursos estão mudando um pouco a cobrança de terminologias, mas nem todas as empresas adotaram a prática ainda. É perder uma vida escolar inteira para decorar uma coisa inútil.

O problema é cultura e social porque para escrever bem a pessoa precisa ler muito, não só quando está no cursinho ou já passou no vestibular, ela precisa começar a ler ainda na infância. Uma criança vai adquirir o hábito de ler se os pais não abrem nem um jornal em casa? A população não tem poder aquisitivo para comprar livros, aliás, nem para comprar gibis. Dá para escolher entre comprar um revista em quadrinhos e uma dúzia de ovos? Qualquer pai escolherá comprar a dúzia de ovos. A barriga é órgão mais essencial do que os miolos. O ministério da educação manda livros para as bibliotecas, nem sempre os professores fazem bom uso destes "quase" espaços. Nas escolas particulares não estou ciente se estes espaços chegam ao menos ao "quase".

Então, sonhamos com uma educação do futuro, com estudantes leitores e produtores de texto, capazes de argumentar e contra-argumentar, de ler os jornais e saber quando estes estão dizendo verdades ou mentiras. Mas esta educação do futuro ainda está em germe, falta adubar, regar e proteger a fragilidade de suas raízes das ervas daninhas. Para que, no futuro, não precisemos ouvir gente que se diz doutorada e mestrada discriminar os nossos estudantes por uma coisa da qual eles não tem culpa.

Estou certa de que estes estudantes, os discriminados, irão se tornar melhores doutores e mestres do que os que aí estão, porque educação não depende de nascimento ou de status social, depende de dedicação e superação de desafios.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Mulher multiuso: pontos e nós

Vou unir três pontas temáticas em um único nó textual, e fica testemunhado o fato de que eu não deixo pontos sem fazer os nós.

Primeiro ponto. Estamos na semana do Dia Internacional da Mulher. Primeiro nó. Esse texto fala sobre mulheres, veja lá o título "Mulher multiuso". Reparem que na Semana da Mulher os meios de comunicação ficam entre duas pautas clássicas: o elogio ao sexo feminino - sua beleza, a maternidade, a fragilidade (do colo do útero e das mamas, principalmente) e a pauta de denúncia às barbaridades ainda cometidas ao redor do planeta contra as mulheres (mães, filhas e irmãs de todo mundo que são torturadas, mortas, violentadas, abandonadas, usadas como mercadoria e mulas de carga.
 
Segundo ponto. Assisti ao "Sala de Notícias" da TV Futura (graças a Deus inventaram parabólica e internet), que exibiu um programa especial sobre "Os 50 anos da pílula anticoncepcional" (não se desesperem as partidárias da pílula, o Futura reprisa). Segundo nó. Quem estiver interessado em pesquisar sobre a trajetória do contraceptivo oral procure no Google; o nó da minha costura vai nas pontas esfarrapadas do uso da pílula: é um método 99,9% seguro se usado corretamente, dizem (eu acredito) que previne o câncer uterino, PORÉM, pílula não protege contra as DST'S, Doenças Sexualmente Transmissíveis para os (não) íntimos. É isso, mulheres e homens, quem quer se proteger DE FATO deve usar c-a-m-i-s-i-n-h-a. Quem não souber o que é camisinha, ou não souber usar, busque no Google ou em qualquer outro buscador disponível no mercado, ou no posto de saúde mais próximo da tua casa ( o Google não me paga jabá, então eu falo na concorrência mesmo).

Terceiro ponto. O meu entediado parceiro de blog, o Ted, me chamou a meia hora atrás de "Ana multiuso". Terceiro nó, com arremate do epíteto gracioso cedido a mim pelo meu generoso amigo.Não é possível ser mulher sem ser multiuso. O útero foi projetado para gerar filhos, gera também doenças. A pílula foi inventada para tratar a TPM e os problemas da menopausa, é usada como contraceptivo, e serviu para alavancar o feminismo, a liberdade da mulher e a liberação sexual do século XX.

E a MULHER? Mil e uma utilidades. Além de mãe, esposa,  domésticca, operária, agricultora e cientista pode ser: cobaia, mula de carga, saco de pancadas, banco de óvulos, útero de aluguel, matéria prima e moeda de troca do tráfico internacional de escravos brancos.


Este texto foi postado originalmente em outro blog do qual sou parceira, o Não tenho Twitter.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ato de fé


Eu acredito que todo ser humano pode aprender, mesmo depois de crescido, a respeitar os outros e a lutar pelos seus direitos e interesses.

Eu não acredito em autoridades estabelecidas, não acredito em regras criadas por comissões que não sentem na pele as questões envolvidas na pauta.

Eu acredito na educação que transparece no ato das pessoas conscientes e supera as manifestações contrárias.

 Não acredito no ensino obrigatório e tendencioso das escolas, não  acredito na informação da mídia vendida. Não acredito em propaganda política eleitoral. Eu não acredito em outdoors. Eu não acredito em slogans, muito menos em gritos de guerra.

Eu acredito que colocar o meu lixo no lugar correto, reciclar e respeitar o espaço dos meus vizinhos não é ser certinha exagerada.

Não acredito em telenovelas, não acredito nos jornais nacionais; não acredito nos líderes religiosos marketeiros, não acredito em curas milagrosas, não acredito em livros de auto-ajuda, não acredito em discursos repetidos e nunca ampliados.

Eu acredito nas pessoas.

Não acredito que a aparência é tudo; não acredito em vendedores, não acredito em pregadores, não acredito em relações públicas, não acredito que vou enricar com facilidade, não acredito em profissionais sem concorrência, não acredito em anúncios institucionais; não acredito em governo sem oposição, não acredito em oposição que não se manifesta, não acredito em pessoas que  só falam bem de si mesmas.