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sábado, 29 de dezembro de 2012

A gafe


De repente, foi como se alguém tivesse cometido uma terrível gafe ali no meio do povo. Algo como baixar as calças e badalar o sino ou abrir uma bíblia e fazer pregação sobre a importância do dízimo. Notem que pregar sobre o fim do mundo não é gafe, é o arroz com feijão dos profetas darem sua própria versão de um fim que é certo e está sempre próximo. Em seu íntimo, aonde não ia a régua das averiguações cromáticas, pois lá só havia idéias puramente conceituais, daquelas limpas de sentimentos, não os sentimentos romance-água-com-açúcar, mas os sentimentos derivados dos cinco sentidos e adjacentes, bem lá nestes ideais intraduzíveis, Alice estava mais preocupada com o caminho até chegar ao fim do mundo, o devir antes do fim, o amanhã que a gente pensa que nunca chega, mas que chega todos os dias sem a gente perceber. 

Justo por isso ela se preocupou com o de repente que se instaurou, quando todos agiram como se alguém tivesse cometido uma terrível gafe ali no meio do povo, quando, na real, nada demais aconteceu. Só um cara com dúvidas ortográficas, outro perdido demais para dar atenção às incertezas próximas, porque estava mais interessado nas incertezas futuras, outro com o nariz muito sensível.

O professor partiu sem nem mesmo ter chegado. Saiu para dar espaço no palco ao novo personagem que se apresentava, atencioso ao próprio umbigo, mas que acrescentou ao cenário um novo perfume. Alice não se lembrava de ter esbarrado com o referido antes, mas isso não importava muito, achou que o rapaz tinha cara de fome e às barrigas vazias é cortês oferecer forragem.

- Como assim você convida para comer e depois dá o fora? Isso não se faz nem a um inimigo, quanto mais a quem você quer ao seu lado num Cagaço. Vamos comer! Eu pago! Quem quiser me segue. – Gritou ela, com a mão na cintura, rebolando muito para bater a mão no bolso que não estava lá e por isso mesmo estava vazio, mas que metaforicamente serviria muito bem para pagar o que quisesse a quem bem quisesse, sem medo de ser obrigada a lavar os pratos depois de terminado o banquete, o que provavelmente aconteceria, pois não tinha um níquel furado escondido em parte alguma.


sexta-feira, 28 de maio de 2010

Fábulas de HaVaNa: Cachos de uvas

Fábulas de HaVaNa: Cachos de uvas

Última postagem do Blog que eu administro para a minha filha Havana.

Trabalhar com família, é claro, só podia dar problema. Tivemos uma briga feia na última semana porque eu me recusei a publicar (ou postar, como preferirem) uma história que ela inventou. O título era "O carneirinho", texto sem princípio, meio ou fim, onde ela apenas perdeu tempo com a descrição de uma família de carneiros saltadores em que um deles se torna músico. Não me agradou pela falta de cuidado dela em explicar quais conflitos poderiam ter havido para que o carneirinho saltador não realizasse o seu sonho de ser saltador como os outros e acabou músico, e em uma banda cheia de outros animais que nem haviam entrado na história.

A briga foi feia, ela esperneou pelo chão reclamando a sua liberdade de expressão e eu bati pé firme sobre os meus direitos de editora e mãe. Consequência da briga, esta nova história, a "Cachos de uva", ela preferiu ditar para a minha mãe, vó dela, que segundo ela, a neta, não altera nada do que ela escreve. Realmente, intriga-me como ela pode saber se eu altero ou não o que ela dita levando em conta que ela não sabe ler! Concluí que ela decora o que nos pede para escrever e pede repetidamente para que nós leiamos o que já passamos para o papel. É uma tirania total, sinto-me cerceada no meu direito de censora e representante editorial desta pessoinha.

sábado, 24 de abril de 2010

Estudos cerebrais


Olhou o cérebro como alguma peça de um maquinário alienígena, e admirou a capacidade do homenzinho saber informar o que lhe contavam as partes daquela engrenagem silenciosa. Admirava mais a capacidade de entender do professor do que a iniciativa de estudar o órgão deslocado de sua função e local de origem. Alice sabia que somente através da linguagem é possível haver comunicação, e a linguagem é formada no cérebro vivo e em funcionamento, um organismo formado por minúsculas células comunicando-se entre si por sinais e códigos. Duvidava já da genialidade de Smith: como ele estudaria a linguagem de um cérebro morto? Forçoso era estudar o organismo em funcionamento para depreender as relações estabelecidas entre as partes constituintes do Todo. O que forma um Todo é a inter-relação entre os constituintes, e não os constituintes somados. O cérebro morto era tão somente uma foto de um único instante da constituição daquele sistema, portanto, insuficiente para compreender toda a complexidade de sua estrutura.

Tudo isto Alice buscou expressar ao professor enquanto o acompanhava à sala de aula, mas não encontrou as palavras exatas. É assim, as palavras são bem poucas para expressar tudo o que passa por nossas cabeças, por isso, a linguagem se utiliza de outros signos não-verbais para completar sua obra. Antes de tentar comunicar as suas impressões sobre aquilo que considerava mais recomendável para um estudo efetivo do funcionamento do cérebro – humano ou animal –, Alice decidiu permanecer com o professor e ler no comportamento dele outros sinais que a ajudassem a compreender em que nível de linguagem deveria se dirigir a ele. Isto, porque sentia que sua primeira tentativa havia sido malograda: não havia em Smith empatia, ele não se interessava por certos fenômenos, tais como a comunicação entre objetos inanimados e pessoas via correspondência datilografada. Não se magoou com o descaso do professor, porque ela própria possuía uma imensa empatia pelos outros e entendia que nem todas as pessoas são plurais em seus interesses como ela era capaz de ser. O que a movia era a curiosidade, deste modo, podia variar entre os estudos da mente e a geração espontânea de caracteres gráficos.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Operária em construção

É isto aí, meus prezados leitores que eu mal sei se existem, vocês devem ter notado que eu tenho mexido e remexido na estrutura do Literatices d'Ana C. ultimamente. As mudanças começaram depois de eu ter lido um blog sobre "como tornar o seu blog mais atraente" (não lembro o endereço do abençoado blog). Então eu pensei, "é, não custa nada por umas frescurinhas a mais na página, quem sabe alguém se digne a olhar de vez em quando.

Se existisse alguém que me conhecesse realmente, este alguém saberia que eu sou uma pessoa de péssimo gosto para cores, incapaz de traçar uma linha reta, debilóide em combinar elementos, cafona, anti-social para com as visitas. Quer dizer, as alterações foram feitas para mim mesma, para que eu achasse a minha página mais bonita e mais visitável. Se a melhora agradar a quem por aqui passar, bem. Se desagradar, bye.

Aproveito para comentar a minha trilha sonora, tentei fazer a inauguração com as minhas canções preferidas do Pink Floyd, mas acho que as músicas de dez minutos de duração cada uma foram demais para a velocidade da minha net. Por isso fiz uma segunda opção tão querida quanto a primeira: Tom Zé. Descobri o artista nas aulas de Cultura Brasileira da faculdade, o professor era super fã do Zé e me deixou curiosa sobre. Procurei, ouvi, gostei. Não sou daquelas pessoas que respondem Quiz dos seus ídolos, nem os chamo de ídolos, minhas simpatias são puramente pela melodia, pela letra, o ritmo.

Curtam aí as minhas canções preferidas do Tom Zé, na próxima semana eu faço uma seleção nova de algum outro artista e coloco no ar.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Prólogo "introdutório" e notas explicativas que confundirão a poesia da prosa e prejudicarão a liberdade do leitor em entender o que bem entender

Então, meu não-desprezado amigo Tadeu me convida para ser co-colaboradora (não sou gaga, é neologismo. Será que cheguei primeiro neste vocábulo ou faço um plágio involuntário das invencionices de outra pessoa? Vamos fazer de conta que fui eu quem pariu a idéia) do seu novo blog. Não tenho Twitter.  E eu não tenho mesmo. Mas posso vir a ter.

O que eu quero é esclarecer o quanto me causa admiração (apaguei “pasmo”, se aproximava mais da verdade, mas a verdade é uma coisa meio fora de moda, não acham?) a existência de gente capaz de captar a essência criativa das idéias do meu parceiro de blog. Não digo que ele seja um super gênio criativo que só nasce de mil em mil anos, eu é que ando desanimada com o grande número de bichos pouco-pensantes nascendo por este mundo.

E atendendo a única recomendação dele para me receber como co-colaboradora (!!!) “posta o que quiser e como quiser”, preparei esta singela (adjetivo babaca) postagem.

As causas obscuras e duvidosas - terríveis trocas de favores políticos, perigosas misturas entre o público e o privado - envolvidos neste conluio de mentes fica para o próximo capítulo* desta novela bloguelesca**.

(*) Anúncio enganoso
(**) Brincadeira com “novelesca”
(***) Nota das notas: estas notas são realmente necessárias?

Texto originalmente postado em:  http://naotenhotwitter.blogspot.com/2010/01/prologo-introdutorio-e-notas.html