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sábado, 15 de junho de 2013

Quem tem vintém?

Quando a barriga dói
a garganta chia
seu grito de ódio
seu lema de ordem
e as cabeças explodem,
os braços sacodem
seus socos no ar.

Quem tem vintém?
Quem tem vinte?
Vinde companheiros,
vambora lutar.

Cacetete desce
o pau sacode
sobre as costelas
que querem brigar.

Capacete verde
sangue-vermelho-da-morte
a fome roxa do povo a chorar.

Olha a mãe que cai
sobre o filho grogue
é mãe de um maio em junho esmaecido
brigador de ombros caídos
que esqueceu como é reivindicar.

E a platéia agradecida
aplaude o espetáculo que não pode parar
é show da vida (?)
do telespectador otário que não sabe brigar.

Só sabe chiar, só sabe chiar
barriga vazia, da fome roxa

Não sabe gritar, não sabe gritar
cabeça vazia de sonhos ocos

Capacete verde do sangue-vermelho-da-morte
E a triste mãe de maio em junho a chorar.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A angústia de escrever

Perdi o fio do risco, emudeci. Olho a tela em branco, aguardando caracteres a serem digitados e não tenho o que dizer. Quem diria, que eu, algum dia, ficaria sem ter que dizer, eu que já disse o que os outros não queriam ouvir, o que ninguém sabia que podia ser dito, o que todos queriam, mas não diziam.

Foi assim só: calei-me. Nem calos faço mais nos pulsos por apoiá-los sem jeito na quina da escrivaninha. Perdi o jeito. Mas também, escrever para quem? Ninguém mais a desafiar com meus desaforos líricos, minhas sátiras tortas, as sandices estão morrendo todas no meu cérebro, sem contaminar a folha mágica que brilha dentro do computador. 

Para onde vão as letras depois que as escrevo? Como faz para piscarem antes da barra negra? Será verdade que alguém do outro lado pode ver os rabiscos que faço do lado de cá? E o que lê este alguém? São os sinais pretos retorcidos do indo arábico ou são os meus próprios pensamentos que ouve, perdidos dentro de sua cabeça?

Não sei. Se soubesse lhes diria. Mas eu não sei.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Mundos e mundos e mundos

Aceitar o novo, encontrar novos significados para coisas velhas. Reaproveitar o excedente em coisas úteis, transformar idéias. Somos habituados a entulhar nossas casas e nossas mentes de objetos inúteis, de valor questionável, troféus e lembranças dispendiosas de tristezas passadas. Buscamos estar em ambientes barulhentos e agitados para evitarmos a solidão de nossos próprios pensamentos vazios, mas quando encontramos o silêncio, ele nos atormenta com nossos pecados, porque acreditamos no pecado, porque acumulamos sentimentos inúteis, evitamos sentimentos sinceros, nos envergonhamos dos nossos próprios sentimentos. Então somos assombrados pelo que não compreendemos, pois não nos permitimos compreender.

domingo, 13 de julho de 2008

O Império da Vida




Ele decidiu que não mais se sujeitaria àquela droga. Cansou das cobranças absurdas, das injustiças, de toda a morte, inveja, ódio, sujeira. O mundo fedia, e não era ele que ficaria ali esperando que aquele mundo fétido apodrecesse de uma vez. Fugiu.

Pensou em ir para as montanhas, mas perto do céu estaria perto de Deus, e ele não estava pronto para ser vizinho do Onipotente. Pensou em morar num barco e navegar infinitamente. Desistiu logo. Aquele constante movimento o lembraria da correria da cidade. E a cidade agora estava morta, ele próprio a matara...

... exatamente, ele não somente fugira, ele matara toda a vida, exterminara todos os viventes, aquele mundo não merecia existir. Aqueles filhos malditos de mães envenenadas mereciam perecer. A luxúria dos homens teve um fim: a lâmina de sua faca. Mais sangue existisse, mais sangue escorreria, mais pescoços seriam talhados, mais cabeças seriam esmagadas, mais casas incendiadas... não descansou até que o último suspiro de vida se extinguisse.O último homem suicidou-se ao ver o Exterminador da raça.

O mar era muito belo, lembrava vida, movimento, fluxo e refluxo, e dali pra frente nada viria nem iria, as coisas apenas seriam. Findou a era das aparências, ele acabara de fundar a era do Ser: somente o ser.

Decidiu rumar para o grande Deserto, o deserto sem fim que hoje tinha fim, porque quem não acha fim nas coisas é o Homem, e o Homem morrera. Só restara o Exterminador, o último eterno. A aridez seria sua cama, a areia cobriria seu corpo, o vento faria companhia. Os seres rastejantes sim, compreendiam os segredos da terra, os mistérios da terra. Eles seriam a próxima raça a dominar o globo, era óbvio, qualquer tolo via, que a antiga raça era incompleta, insegura.... os rastejantes preservariam a essência.

Decidiu cavar um buraco para encontrar o centro do mundo, de onde emanava toda a vida, e começou a cavar bem no centro do grande Deserto. Cavou dias e noites, até gastar as pás... até que sua vida já estava quase toda gasta... e só alguns suspiros lhe restavam antes que sua alma estivesse liberta de seu corpo. E encontrou a fonte da vida. A fonte enfureceu-se com a visita do Exterminador. Ela perdera seus filhos e precisava da sua vingança!

A vida jorrou do buraco, para todos os lados, inundando o deserto, afogando os seres que rastejam, carregando árvores, apagando incêndios. A água queria devorar o mundo, estava sedenta por lamber toda a face da terra, e lavá-la e sentir seu gosto. Finalmente não havia quem construísse diques, finalmente a terra era fecundada novamente pela água do ventre da própria terra.

Todo o mundo cobriu-se de água, e não havia mais lugar para a morte, todos os seres podiam respirar debaixo da água, todos os cadáveres apodreceriam sob a água e alimentariam os seres aquáticos, e a raça dos Homens continuaria existindo infinitamente, pois sua seiva fluía por toda a parte, em todos os corpos, em todas as direções, num eterno fluxo de ir e vir sobre a Eterna Água.