quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Mais nada

Sem tempo o bastante para pensar
Falta liberdade para esperançar
Aqueles anos da juventude esquecida
Dois Minutos antes da saída

Não dá pra sentir mais nada
Não dá pra sentir
mais nada
Não dá.





terça-feira, 30 de setembro de 2014

Poema de um Minuto

O desafio é escrever um poema
dentro de um minuto.
Parece difícil.
Acrescento as variações de sempre:
um poema que não fale de amor,
para ficar sempre fora de moda.
Não pode falar de flores,

porque são coloridas demais.
Gotas de sangue pra temperar.
Pronto.






Pós-escrito: A borboleta é o que brota do sonho quando este se incendeia. O resultado são nuvens de borboletas cinzentas e fugidias.

terça-feira, 8 de julho de 2014

Dos sonhos

Da coisa que mais lembrava era dos sonhos. Estes sim eram interessantes, amedrontadores, sensuais. Nada daquela sonseria tola da vida diurna, hora marcada pra levantar e deitar, rota de trabalho extensa em mapa de obrigações macambúzias. 

Sonho de cobra, "gravidez na família", a vó dizia. Tinha medo então de engravidar, esquecia da idade impúbere. Corria e corria para fugir das serpentes, quando cansava parava e tentava hipnotizá-las com um impor de mãos inútil, mas que funcionava no sonho, pois era sonho. A cobra então subvertia-se em fumaça e tornava-se outra coisa, pessoa. Encontrava com a pessoa sem dúvida na manhã ou tarde seguinte. Não sabia se porque sonhava com gente conhecida ou se por premonição.

Sonho de amor, raros. Encontrava alguém, no geral desconhecido, e amava a pessoa. O que é amar? É virar um ímã bem grande que é atraído pra todo lado pela pessoa que se ama. No sonho, amar é melhor do que amar de verdade. Não importa muito se em sonho há reciprocidade, sabe como é.

Sonhar com dentes é o mais realista que há. Os dentes parecem mesmo frouxos na boca, dá a angústia de engoli-los caso caiam. É horrível se imaginar banguelo, mesmo em sonho. Talvez por isso lhe dissessem que sonhar com dente é sinal de morte. Há coisas piores do que sonhar com a morte. Morria de vez em quando, quase sempre acordando em seguida. Coisa sem novidade. Ruim era sonhar com algum erro que traria consequências, coisas proibidas, interditadas, mas que no sonho, pelo menos nele, não se resiste. Porém, até no sonho se sentia culpada e pensava, como vai ser daqui pra frente?

Bebês, noites cansativas, de repetir cuidados infrutíferos. Se assim era preferiria não ter filhos de verdade. Nunca conseguia descobrir os verdadeiros pais daqueles filhos, mas sua mãe sempre dizia que as crianças dos nossos sonhos são crianças que algum dia a gente terá que cuidar. Só teve uma filha e a sua filha nunca conseguirira ser tão chata e inconveniente quanto aqueles bebês feitos de sonho, chorões e fujões.

Foram tantas fugas, fugas bobas. Às vezes esquecia do porquê de fugir. Seus captores se aproximavam e se distraíam também, meio que esperando que ela voltasse a fugir. Um correr por correr sem razão e sem fim. O irmão menor era um companheiro constante destas fugas. Fardo, é o que era. Parecia que as fugas sempre se davam para protegê-lo, e ele teimava em ficar pra trás e quase ser capturado sempre. O irmão em seus sonhos era um complicador de tudo, um elo a dar nós. O bom destes sonhos de perseguição era quando conseguia voar. Amava tanto os sonhos de voar que com o passar dos anos aprendeu a atrair esse tipo de sonho. Antes de dormir, dizia, mentalmente, vou sonhar que estou voando. Não assim, por nada, tinha de ser uma afirmação convicta, uma ordem dada ao subconsciente. De vez em quando dava certo, com voar e com outras coisas também. Passou a preferir o sono do que o despertar.

Nunca foi uma criança muito ingênua, sabia das coisas. Sabia que sonho é sonho, pão é pão. Não dá pra trazer o pão do sonho para a realidade. Mas dá pra fechar os olhos outra vez e tentar voltar para o mesmo sonho. Isso acontece mais com os pesadelos, ainda assim, custa pouco desejar. Sonho e desejo andam assim ó, colados. Grudados, atados, enrolados nos cobertores, em sonhos molhados de inundações. O corpo boiando num rio tranquilo, os vizinhos às margens, gritando de inveja. Mentira, não conhecia os vizinhos, nem rio, mal sabia boiar.

Sabia, contudo, desejar. Antes de saber de fato, já sabia de inconsciente o que era morte, desejo, medo, amor e desespero. Era sonho.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Falsas promessas


O mundo vai ser inteirinho do jeito que você deseja. Por quê? Para te agradar, é claro. O que você acha estará sempre certo, esqueça do tempo dos erros, daqui para frente tudo vai ser acerto. Ninguém mais te questionará, pois na sua testa, lógico, vai a marca do "sei de tudo".

Só aplausos adornarão o seu caminho e risos. Flores serão jogadas aos seus pés. Será promovido duas vezes no próximo ano, reajuste salarial acima da inflação. O câncer da sua mãe vai entrar em remissão, o seu diabetes e a sua pressão vão ser iguais aos de um menino de dezoito anos.

Na sua sacola de pão, virá sempre um a mais. Em todas as lojas que entrar, será o cliente número um milhão.

Tudo será felicidade e alegria e festa, pra sempre, todos os dias, sem feriado.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Tudo o que será

Será? Será que será? 

A promessa que me fizeram foi essa: tudo será melhor. Dessa vez, tudo vai dar certo. Amanhã será muito melhor do que ontem. Alimento, assim, a esperança hoje de que amanhá será muito melhor.

A esperança faz um calorzinho aqui dentro de mim onde antes havia dor e medo. Quero chorar de felicidade, lágrimas chegam-me aos olhos. Amanhã vai ser bem melhor. Sim, eu acredito. Eu quero acreditar.

Vai ser melhor, vai ser melhor, tudo será, tudo será.

Obrigada.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O som da festa


- Essa, eu garanto, vai ser a última vez.

E o zunido na cabeça a fazia odiar o mundo, pedir a Deus para ficar surda. Não era só o som da festa, natalina, eram as vozes, os passos, os talheres batendo nos pratos, as televisões. Era aquela gente toda comemorando o nada.

Mas talvez não fosse. Talvez, quem sabe, fosse coisa só sua, isso de odiar os sons, mal querência cultivada desde sempre. Ou seriam os remédios? Odiava os remédios também, mas que direito a gente tem de odiar aquilo de que depende? Desde menina, a falta de sono, o apetite minguado, o juízo alvoroçado por qualquer barulho. Coisa fina o juízo dela. 

Honesta e trabalhadora, porém. Criou os filhos sem pai, os netos sem genros. Escovava as calçadas alheias, era o gari da rua. E o vigia, o síndico, mas nunca a fofoqueira. Só que não gostava de barulho.

Estava errado aquilo, deixar o som alto demais, acima das especificações da lei. Valia a lei? Reclamar, reclamava sempre, saía de chata. Mulherzinha reclamona. Só quem sabia de suas dores era ela própria. Outro, no seu lugar, teria pirado há muito mais tempo. Ela não, viveu ali vinte anos e só fez reclamar. Nem isso, pedir com educação. Ouviram? Não.

Agora era o basta.

Procurou, sabia que estava lá, numa caixa, esquecido. Achou, sorriu aliviada, pois se não achasse seria bem pior. Vestiu o roupão por cima da camisola e arrastou as sandálias até lá.

- Pou...

Quase ninguém notou até que alguém notasse. 

Um tiro só no meio da testa do dono da festa na frente dos filhos pra festa acabar. E o som ficou mudo.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Sermões

Não se deve esperar das pessoas mais do que a sua essência recoberta por grossas camadas de hipocrisia. Certos indivíduos, todavia, desinteressam-se de esconder suas essências, conscientes das conseqüências disso. Pode-se dizer que o padre M. fosse um destes seres conscientes de si, convicto o suficiente da sua própria identidade para não precisar chafurdar na lama do “tudo é permitido”.

Jesus andou entre as prostitutas e os cobradores de impostos? Sim. Ele pregou às suas ovelhas que se comportassem como prostitutas e cobradores de impostos? Não. Jesus disse “Amai ao próximo como a ti mesmo” e também disse “o corpo é o templo do espírito”, Ele não disse para amarmos o próximo em sua promiscuidade ou erro e não disse para seguirmos os desígnios do corpo e ignorarmos os desígnios do espírito. Jesus não disse para os homens irem às putas e amá-las em sua devassidão, ele disse para amarmos os devassos como amamos aos nossos filhos, irmãos, pais. Quem vê um filho cair na devassidão e o aplaude? Acaso um bom pai não é aquele que procura guiar seu filho pelo caminho da retidão? 

É certo que o velho padre M. não era a favor de um Estado onde se aprovassem Leis que restringissem o direito das pessoas fazerem suas próprias escolhas, porque a Deus não interessa a obediência forçada e hipócrita. A liberdade que Deus nos concede é a liberdade para seguirmos por caminhos retos e colhermos os bons frutos da nossa bondade ou a de seguirmos pelos caminhos tortos e sofrermos com o amargor de nossos maus frutos.

Por isso não são censuráveis as censuras do velho padre M., são frutos de seu amor pelo próximo e seu sofrimento pelos que são causa de seu próprio infortúnio. Feliz é o homem que não é causa de seu próprio infortúnio, este pode se considerar inocente.


(Trecho de um de vários sermões que escrevi para um antigo personagem padre. Mal creio que a cristandade sobreviva sem mim.)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A sombra das horas

Começou com a instalação do dispositivo sonoro na torre da igreja. Duvidou do que ouvia. Sinos, como? Quando? Não tivera notícia de qualquer obra nesse sentido. De fato, não houve obras, tratava-se apenas de uma saída de som ligada a um computador. Muito mais simples e barato do que um pesado sino metálico. O "para quê" ou o "por quê" não saberia explicar, sequer ousou perguntar. A existência de uma aparelhagem de som que imitava sinos, pior, imitava uma curta melodia executada por sinos seguida por respectivas batidas indicativas do número de horas dos dias, isso tudo enfim, não devia lhe dizer nada. Não devia, mas, desgraçadamente, dizia.

Hora a hora, hora a hora, o som invadia a sua privacidade e a lembrava de que mais uma hora havia passado. O tempo não corria mais livre e solto, incalculado, ele passou a saltitar, fazendo pausas contemplativas. Curto silêncio intercalado por marcações escandalosas. É tempo, é tempo. Já passou, já passou. As horas ficaram curtas após aquela marcação invasiva, curtas demais para o seu gosto. Sentia que estava desperdiçando o seu dia em coisas inúteis. Não podia se sentar para assistir TV, assim que o bater lento e metódico dos falsos sinos a alcançasse, sentiria culpa. A leitura de um livro  nunca lhe pareceu demorar tanto. Absurdo, cem páginas apenas, e se passaram quatro horas! 

Aquele peso sobre o peito, aflição antecedente de compromissos importantes, iniciava muito antes. Seus dias tornaram-se curtos, muito curtos. E estéreis. A passagem do tempo agora  só lhe trazia sentimentos negativos. Estava muito velha, não haveria mais tempo para correr atrás de felicidade ou realizações, não sobrava tempo durante o dia para se dedicar aos sonhos, as obrigações começaram a ocupar todo o tempo. As suas esperanças receberam um toque de recolher, conformava-se pouco a pouco com a aproximação inevitável da morte.

Queria chorar, sem razão, porém, até este simples extravasamento parecia luxuriante demais  para aqueles dias tão curtos. Como desejava que o tempo passasse enfim, inteiro e definitivo, corresse, que o enredo da sua vida disparasse de uma vez para um ponto mais à frente, onde não sentisse a angústia daquele arrastar macilento das horas sobre seus ombros.

A sombra das horas corria ligeira por sua vida em branco. Faltava-lhe tinta para preencher  o vazio.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Criação

Para que me criaram, pergunto. Sou obra de algum arquiteto, há propósito na minha preparação  para o mundo, quero saber. Nasci, como dizem, para ser feliz, ou nasci, como dizem, para penar. Tenho liberdade para decidir a que vim, talvez, escolher o que devo ser. Talvez não, posso ter sido criada por acaso, sem razão, fruto de um desejo incerto, largada ao léu, tornei-me o que quis, sem querer, não sei.

Qual seu sonho? perguntou a menininha. Tão inocente, quer saber o que eu sonho, mas eu não sonho, lamento. Realizei todos os meus sonhos, só que cedo demais, sobrou tempo para pensar, devia ter me demorado mais no processo, assim restaria pouco para a apreciação de mim, esta obra, sem arquiteto, sem propósito, despreparada para o mundo.

Perdi os objetivos, aliás, cumpri-lhes. O que me resta? Matar o tempo, matar o tempo, matar o tempo...

E se eu fizer, disser, quiser algo novo, que me dirão? Que não. Devo contentar-me com o realizado, estancar qualquer vontade, estacionar ali e deixar de estúcia.

Obedecerei, é claro, a mim, não a outro, não há outro, hei. Resto-me. Criei-me.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Chamada perdida

O telefone celular dava sinal de ocupado o tempo todo. Devia estar na estrada, por isso fora de área. Também tinha o hábito de desligar o celular durante as aulas, para não interromper os professores. Desistiu de tentar. Ela retornaria a ligação quando estivesse disponível.

Era um dia de agosto, o vento fazia com que aquele dia quase na primavera ficasse tão frio quanto um dos dias de junho, mas sem chuva. As nuvens escuras no céu sinalizavam o mau tempo que se aproximava. Ao que parece, a frente fria passaria por eles para ir se despejar em locais mais propícios a precipitações climáticas. Ali chovia quase nunca, as chuvas sempre passavam direto, com pressa.

A revoada de urubus ao norte combinava perfeitamente com o cinza daquela manhã. Ao menos, os jardins da praça estavam sendo bem regados, garantindo assim um verde revigorante para os seus olhos no caminho para o trabalho. A quantidade de cães vadios rasgando sacolas de lixo, contudo, denunciava o desleixo dos moradores do bairro para com a limpeza pública. O vento soprava e todos os papéis daqueles malditos sacos colocados fora do horário do recolhimento suspendiam-se sobre as cabeças dos passantes, prendiam-se aos fios de eletricidade e sinalizavam terrenos com capins altos. No meio daquele capinal da esquina, certa noite, havia erguido a saia dela às pressas, pela primeira vez, com medo de serem vistos ou ouvidos pelos bêbados do bar de seu tio.

Depois daquele dia ela foi sua sempre, onde quer que escolhesse, não importava quão perigoso fosse. Mas assim que casaram tudo mudou, ela decidiu fazer aquelas viagens estúpidas, todas as noites, sem ele. O que havia para ser feito naquele fim de mundo sem ela? Vinha tentando convencê-la de que em breve ganharia o bastante para pagar uma escola particular para ela, sem sucesso, porém. Ela desejava ser independente, se formar, ganhar tão bem quanto ele. Gostaria de vê-la contentar-se com aquilo que já possuíam, não era muito, mas era o suficiente para ele. Esse vazio de achar que não era o bastante para ela preenchia os pensamentos dele todo o tempo. Às vezes, preferia ter escolhido outra para ser sua, uma mulher com a cabeça menos cheia de caraminholas sobre independência, profissão, sonhos, viagens. Por que havia escolhido aquela mulher preocupada em subir na vida, quando a maioria delas contenta-se com roupas novas pela ocasião das festas?

Havia aquela de quadris muito largos, vivia dando mole para ele, devia achá-lo muito interessante. Tinha 5 anos mais que a sua mulher, jamais colocara os pés para fora da cidade. Não tinha cara de quem sonhava com nada, mas jeito de quem põe as mãos onde precisa e se lhe pedem.

O dia passava lento demais para ele, sempre preocupado com o que passava pela cabeça dela. Talvez ela não o quisesse mais em breve, porque ele não tinha sonhos como os dela. E se depois de formada ela arrumasse um emprego bom longe dali, em um lugar que não precisassem dos serviços dele? Não desejava ser encosto dela, muito menos gigolô. Um homem precisa ser o provedor, indispensável. Ser casado por ser não faz durar casamento. A vida seguia, assim, cheia de incertezas e medo de perdê-la.

O celular vibrou quase no final do expediente na loja. Era ela. Atendeu com um sorriso. Do aparelho saltou uma voz masculina, perguntando se ele a conhecia, qual era o parentesco e avisando que ela estava morta. Um tiro, na beira da estrada, assalto. O policial que atendia a ocorrência usava o celular da vítima para tentar localizar a família.

Era o fim de todas as dúvidas.