terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ser menina

Menina
Capítulo 1

Ser Menina

           Nascera mulher e por obrigação devia portar-se como uma dama. Ser dama, na verdade, não lhe entrava na cabeça. Primeiro, porque "dama" é uma palavra medieval utilizada até hoje, século XXI, totalmente descontextualizada. Mas o fora de contexto não ia por sua mente infantil, ser dama era o mesmo que ser menina boazinha.  Quase ser princesa; gostaria de ser princesa, mas era pobre.       
         Era pequena a  ponto de brincar de balanço, porém lhe proibiam usar roupa curta ou mostrar a barriga. Era proibido ainda brincar no meio dos meninos. Tinha tantos primos, todos da sua idade, todos com brinquedos novos e novidadeiros, sabendo coisas diferentes, mas não podia brincar com eles. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

O doce e o amargo

Essas pessoas que pretendem corrigir o mundo com mordacidade e corrosão, tenho delas pena. São pequenas, porém se acham grandes detentoras da verdade. "Dou-lhes chances, dizem elas, mas não as aproveitam", são quase deusas, estes seres supremos que dão chances para que não sejam aproveitadas. Convencem com ameaças, ajudam com admoestações, ensinam  com réguas batendo pelas paredes; recebem sem agradecer, trabalham como se fizessem favor. E estão sempre certas, é lógico. Errados estão os outros, não elas. Tudo dá errado, mas não por interferência delas, é claro, está claro que elas nunca erram, apesar de nunca mudarem, de repetirem as mesmas ladainhas, trilharem as mesmas brechas, mastigarem as mesmas fórmulas. Não são seus métodos que necessitam de renovação e estratégia, mas é o mundo todo que precisa adequar-se aos seus métodos.

É como no conto de fadas, a menina de capuz vermelha há de receber um ensinamento. A mãe quer inspirar-lhe responsabilidade, para isso, entrega-lhe a cesta de doces para a vovó. A menina tem de ir e voltar pelo caminho indicado, resta-lhe tempo para aspirar o perfume das flores. Há pedras e tropeços pela estrada, distrações, mas o objetivo é bem claro, adoçar o dia da menina, da mãe, da avó. Há, contudo, o amargo. Ele espreita por trás das árvores, espera o momento em que a menina se distraiu, e trama contra a doçura.

Ele é invejoso, pois os doces sequer fazem parte da sua dieta de predador. Ele também quer dar lição, a lição do mais forte sobre o mais fraco. A lição que sobrepõe a toda justiça ou brandura, pois utiliza da força e da violência. A menina aprenderá tarde demais, já na barriga do lobo. E na história original, lembrem bem, não há caçador. Há somente a injustiça lupina.

Não sabem trabalhar em grupo, porque quando algo não é do seu gosto, cruzam os braços, fingem-se de indignadas e pousam seus traseiros sobre seus rabos para fofocar. Ah! Como fofocam as pequerruchas. Suas línguas são mais compridas do que o amargor de suas impotências. Porque já desistiram de aprender, acham que ninguém mais o pode. Somem da arena quando se trata de encarar o novo, mas do velho e do empoeirado entendem bem. Colocam-lhes bem à frente as suas ideias trazidas de casa, requentadas, prontas para pipocar de suas bocas cheias de dentes. E repetem, repetem sempre: "Como eram bons os outros tempos". 

Nos outros tempos, não havia licença para dizer o que se achava, havia só a continência surda batida frente a vista cega das ordenações. Não havia o colorido doce da diversidade, mas a mesmice tosca das cópias fiéis ao comando dado pelos profetas de um milhão de anos atrás. "O certo é a velha moda das tataravós. Qualquer outra coisa é astúcia de meninadas."

E há o doce das incertezas, das ajudas mútuas, das buscas com lampião. Há a beleza do acerto e do erro, da paciência, da consolação na queda. Há o respeito aos divergentes meios, e há solidariedade para a construção.

Há o doce novo. O amargo velho. O doce-amargo da conciliação.

D'Ajuda

     Decidi de última hora passar o fim de ano em Arraial da Ajuda. Não é a primeira vez que visito este distrito de Porto Seguro, da primeira vez ficamos em uma pousada, foram só dois dias. A pousada não era muito legal, foi cara, o ventilador não prestava, tinha pernilongos demais, eu esqueci de levar o repelente, mas em compensação visitei a praia  mais linda que já vi até hoje: Taípe. Areia rosada, água limpinha, deserta! Imagine o que é você ter uma praia linda e limpa só para você e sua família. Sem ambulantes vendendo quinquilharias, sem ninguém bebendo e falando besteira, sem grupo musical com músicas da moda feias. Dessa vez não voltamos lá. 
        Às vésperas de viajar, é óbvio, não obtive vagas em nenhum hotel ou pousada, pelo menos não um preço ao meu alcance. Não tão perto da virada do ano. Quem em sã consciência gastaria mais de 4 mil reais numa única viagem só em hospedagem? Não eu! Optamos por acampar. Meu primeiro camping, mas meu irmão estava junto, então ele nos  deu todas as dicas. Não fui picada por nenhuma cobra, aliás, nem as vi. O camping tinha água corrente, banheiros com chuveiro quente, tomadas elétricas, um gramado legal, muitas árvores e sombras. Também tinha formigas, pernilongos, besouros, pulgas, pássaros, cães, crianças e adolescentes. Nada de cobras. Ponto positivo. Inesperadamente gostei de dormir em colchão inflável, só padeci por culpa de um mosquiteiro esburacado além da conta, mas isso não é nada. Eu já vivi 3 anos em uma cidade praiana e muriçocas não me assustam. 
       Dividir a barraca com meu marido e com minha filha foi... apertado. Mas dormi bem, olhando pra lua e para as copas das árvores. Dividir banheiro com mais duas dúzias de mulheres também não é a coisa mais horrível  pela qual passei. A gente aprende a respeitar o espaço do outro, ser cuidadoso, tomar banho rápido, economizar água. Foi bom para minha filha essa experiência nova de se virar um pouco sem a superproteção da vó. Guardei essa anotação para futuras viagens: não é preciso encher a mala de coisas, é melhor levar bolsas mais leves, com coisas essenciais, saber onde cada coisa está ao invés de precisar revirar tudo para achar algo urgente. Aprendi também que muitos campistas andam com carrões importados, usam barracas que custam uns 2 mil reais.

       Mas, Arraial é praia, então vamos falar delas: visitei várias. Fomos à Pitinga, Parracho, Lagoa Azul, Praia dos Coqueiros (em Trancoso).  Algumas pessoas medem a qualidade das praias pela qualidade das barracas. Eu não. Na infância, íamos à praia sem depender de comércio nenhum. Levávamos lanches, água, toalha para forrar a areia e sentar, procurávamos a sombra das árvores. Hoje você chega na praia e é alertada de quanto deve consumir para ter direito a sentar embaixo de um sombreiro com mesas e cadeiras plásticas. Tudo é caro. De dois em dois minutos te empurram mercadorias. Não estou aqui falando contra os ambulantes, nem contra o comércio à beira da praia. Porém, ninguém pode negar que ir à praia hoje em dia implica um consumismo sem sentido, uma padronização de como se deve vestir, o que se deve comer, o que se deve visitar... E a praia em si fica pequena, apertada entre o consumir e o exibir-se. 
       A melhor praia a que visitamos dessa vez foi a Lagoa Azul. Note-se: lagoa mesmo não tinha, só um barzinho caindo aos pedaços, com uma atendente super simpática que nos vendeu as batatas fritas mais caras e murchas de Arraial, além de nos empurrar as latinhas de refrigerantes mais salgadas da minha vida: 7 reais. Apesar disso, o rústico do lugar, o fato de haver somente mais 5 pessoas num raio de 1km (um casal de rapazes, tímidos numa sombra e três surfistas aguardando nas redes ondas melhores) e o mar sem conchas me agradaram muito. Sem falar que eu e meu irmão nos embrenhamos nas falésias para buscar os últimos resquícios da lagoa azul que secou. Encontramos uma decepcionante
poça esbranquiçada entre as rochas, depois de passarmos quase de cócoras sob a vegetação densa. Fotografamos a decepção e retornamos. Mas foram as melhores fotos da viagem toda. Afinal, falésias são sempre impressionantes. Ainda mais naquele ponto em que havia delas rosa e branca misturadas. Foi idílico, especialmente pela caminhada de 3km para chegarmos até a praia. Mais 3km para voltar. Ha! São os custos da aventura.

      O retorno pro camping foi épico. Épicamente desagradável. A Sprinter que pegamos, depois de fila na saída da praia da Pitinga, que nos custou os inacreditáveis 6 reais por cabeça, pegou um engarrafamento garrafal na subida de volta a Arraial. Para completar o motorista pegou 4 turistas argentinos que foram enlatados em pé ao nosso lado, conversadores, cavaquinho a tiracolo, os coitados cozinharam junto conosco debaixo do sol até que o bom senso limitado do motorista da Sprinter pediu ao cobrador que abrisse a porta lateral para ventilar os "ticos" (notem, ventilar o turista estrangeiro, os nacionais que cozinhassem!). Numa ladeira em que o carro morreu, 10 minutos se passaram e os rapazes se pronunciaram por seguir caminho a pé foram advertidos que até ali (menos da metade do destino final) eles teriam de pagar 4 reais! Não resisti a sugerir que eles se juntassem e dessem uma sova no baixote que lhes cobrava ameaçadoramente (eles, cada um, passando uns 4 palmos de altura do moleque). Parece-me que a nossa cultura de paz os fez voltar obedientes para o transporte e aguardar pacientemente até o ponto final. Enquanto isso, minha pressão caía abaixo dos 8. E viva aos trópicos!
     Como ia me esquecer! A igrejinha de Nossa Senhora D'Ajuda! Não a visitei desta ida, mas passei por ela várias vezes. Tenho várias fotografias nos 150 degraus que subi umas três vezes em quatro dias. A vista do alto é belíssima: céu, mar, a mata, a areia, grande parte do Arraial, a sensação de ver o mesmo que Cabral...
     De resto foi a volta pra casa, aliás, a estrada em si é cheia de paisagens bonitas. Paramos em Itapetinga duas vezes: uma na ida, pra tomar um café reforçado numa padaria cujo paradeiro descobrimos por meio de um senhor que nos guiou do posto de gasolina até lá; e na volta, para procurar uma farmácia aberta. Dores de cabeça de lado, voltar para casa é o melhor de todas as viagens.
     Voltam as lembranças.
      

domingo, 28 de dezembro de 2014

Expectativas para o novo


Em breve, virá o novo. Não o Ano-Novo. O novo: novo-novo. O inesperado, o desconhecido, o depois. Ele virá. Estaremos prontos para ele? Ou vamos nos esconder embaixo de nossos cobertores, taparemos o sol com nossas peneiras e aguardaremos que o novo passe. 

O novo não passa, ele chega e permanece. Devemos estar preparados para ele, ou o passado de nada terá servido. Não desperdice o seu tempo sendo amante do passado. Ame o novo, ame-o agora, ou ele devorar-te-à.

Aprenda coisas novas. Descubra coisas novas. Invente novas maneiras de resolver velhos problemas. Olhe para a vida com novos olhos. 

Seja o novo.
Deseje o novo.
Abrace o novo.
Abra sua mente para o novo.

Porque senão, eu lamento, você ficará para trás. Desatualizado, ultrapassado, antiquado, quadrado, esquecido, fora de linha, jogado para escanteio. As crianças rirão de você, as mulheres rirão de você, seus amigos não serão exceção, eles também vão rir das suas velharias.

Você vai acabar num canto escuro, incapaz de trocar a lâmpada, porque não existirão mais lâmpadas ou caixa de força ou fusíveis. Terão inventado novas formas de iluminar os recintos.

Pense nisso.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Frágeis criaturas

         
     Não suportava, definitivamente, não suportava pessoas que pedem opinião sobre tudo. Talvez, porque sua autoconfiança fosse tão grande ao ponto de ser incapaz de aceitar a existência da insegurança. A insegurança de algumas pessoas é cansativa. Principalmente quando você se transforma no "oráculo da razão" para aquele indivíduo.
    Isso não vinha ao caso, naquele momento, mas viria depois. Precisava responder com convicção, somente assim veria-se logo livre daquela interrogação pendente, amarela de sem gracismo.
        - Você acha que eu devo?
       O   incrível é que gostava da criatura. Era incerto se gostava por pena ou por pura ternura, mas gostava. Achava-lhe bela de porte e de jeito, ao menos nisso a ingenuidade colaborava. Dava-lhe um ar de abandono e fragilidade. Uma criança grande precisando de cuidados e atenções. Impressionante, percebeu que gostava e desgostava da pobre alma pelos mesmos motivos. Não é a isso que costumam chamar de amor?
        A criatura magra e fragilizada lhe pediu pela décima vez um conselho sobre algo que claramente caberia somente a própria criatura magra e fragilizada decidir e isso lhe fez remexer-se na almofada. Usaria de sinceridade? Nunca dava certo.
      Respondeu com indiferença. Disse-lhe coisas duras da maneira mais doce que conseguia. Usou, como se imagina, de toda a hipocrisia ao seu alcance para proceder com neutralidade. Porém, as suas neutralidades jogavam sempre com cartas marcadas pelas mangas.
      Certa vez, a figura esguia lhe perguntou uma coisa do tipo.  Muito importante, muito importante. A promessa de nunca ceder à sinceridade foi esquecida e disse claramente, quem pergunta, vacila, duvida e pede conselho, é óbvio, deveria evitar decisões comprometedoras. A figura esguia que mantivesse a sua imaturidade só para si, sem comprometimentos, permanecesse morno, nem quente, nem frio, nem contratos que não pudessem ser quebrados. Estava ouvindo? 
         Nunca, nunca pedia conselhos. Sequer pensava. Comunicava, às vezes, suas dúvidas a algumas pessoas. Era mais como se expusesse em voz alta os termos de sua dúvida, para depois analisar por si a balança das opções.
            Viu aquela pessoa com quem simpatizava e antipatizava ao mesmo tempo partir cabisbaixa. Sentiu culpa. Talvez se tivesse mais delicadeza a convenceria. Mas, de quê? A questão não era deixá-la decidir por conta própria?
Aí é que estava: o fato de ocupar a função de oráculo lhe envaidecia.               Desejava secretamente influir naquelas decisões débeis. Isso lhe fazia sentir um poder crescente. Não, não deveria. Não queria se sentir responsável. Bastavam as cruzes que já carregava.
           Deixou-lhe partir, então.
           - Você sabe, se precisar, estarei sempre aqui para você...


Imagem:  José Ferraz de Almeida Júnior Título: Moça com Livro Data da Obra: s/d

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Era uma vez um burrinho


Ana Castro 

Era uma vez um burrinho que nasceu feio feito a necessidade. Não daquelas necessidades bobas, de comprar Play Station 2 ou bicicleta de marcha. Necessidade mesmo, daquelas que você passa quando não chove e o rio da sua cidade seca e você precisa tomar água de uma cacimba. O burrinho foi criado no interior, era gordo, ao ponto de ninguém perceber que era feio. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. O burrinho pensava que tudo poderia ficar pior se não houvesse mais a carga, porque o dono lhe dava comida só por causa da carga. Ele quebrava as costelas carregando as pedras que o dono mandava e o dono retribuía com a comida. Não se importava que cada dia a carga ficasse mais pesada e a comida mais pouca, contanto que houvesse carga, pensava, haveria comida. E água.
Na cabeça do burrinho, penso eu a narradora, esta devia ser a vida de todos os burrinhos, ele havia nascido para ser um burrinho cargueiro, que comia devido à bondade de seu dono. E à carga.
Mas o mundo, como todos bem sabem, não se compõe somente de burrinhos e cargas. O mundo é grande e cheio de perigos e surpresas. Um dia parou de chover, quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos. Dizem que foi por causa do desmatamento das matas ciliares, outros dizem que os gases liberados pelas vacas foram tantos que o buraco da camada de ozônio se tornou grande demais, a temperatura da terra mudou e o clima junto. Aí parou de chover. Quer dizer, ficou sem chover por muito tempo. Anos.
Sem chuva, ninguém mais precisava de pedras. O dono do burro perdeu o emprego das pedras. Ele vendeu o burro para dar de comer aos filhos, e o burrinho trocou de sina. O novo dono era dono também de uma charqueada. Lá se foi o burrinho, triste, preso na carroceria de um caminhão velho, junto com vários outros burrinhos de todas as cores e procedências. Iam para charqueada, que como todos bem sabem, trata-se do local onde se entra burro e sai-se charque. Ali, na estrada cumprida, o burrinho aprendeu que todos os burrinhos são iguais, dividem a mesma sina de animais tristes, explorados, com mais carga do que comida. Aonde iam, não sabiam, mas iam.
Chegaram. Viagem sem água, nem comida, nem sombra. O motorista manobrava para estacionar próximo à rampa de acesso. Os urros dos burrinhos incomodados formavam uma sinfonia triste de doer coração de quem ainda leva o coração no peito. Perguntas sem resposta pipocavam na mente do nosso burrinho: onde estamos? Por que não nos deram água? O que vai acontecer conosco? O novo dono precisa que carreguemos pedras? A que horas nos darão palha? Todas as respostas deixaram-se ficar sem respostas enquanto o fundo do caminhão se aproximava lentamente da entrada do matadouro. Devo aqui dizer que o destino certo do nosso burrinho e de seus companheiros burrinhos teria se cumprido não fosse a intervenção de uma força maior. Um decreto presidencial ordenava o fechamento de todas as charqueadas do Estado e a destinação imediata dos equinos, muares e asininos para um novo Ministério que acabara de ser fundado: o Ministério de Apoio Mútuo às Emergências e Desastres Naturais. Parece-me que esta nossa história ambientada em um futuro alternativo caminha para um desenlace incerto. O que não é de todo mal, pois o destino de todos nós é incerto até que se concretize.
Os burrinhos desceram do caminhão 45km a frente, equilibraram-se pela rampa bamba até um curral abastecido com água, palmas, palha e sombra para todos. No meio da noite, uma luz forte foi acesa e homens usando luvas de proteção vieram ao curral para borrifar um líquido sem cor nos burrinhos, passaram pomadas em suas feridas e trocaram as ferraduras rachadas. Os outros burrinhos eu não sei, mas o nosso ficou contentíssimo, ele entendia que estavam recebendo tratamento cuidadoso, isso só poderia significar que seriam novamente empregados. E foram.
A grande seca não atingiu apenas o negócio de pedras do seu antigo patrão, mas todo o país. Cidades com bilhões de habitantes que se amontoavam em prédios altos como as nuvens morriam de sede e fome, não havia água o bastante para gerar energia elétrica que movesse os motores de sucção de água do subsolo. O combustível fóssil se exauriu em poucos meses para aquele país que dependia de sua agricultura, agora impraticável devido à falta de chuvas (dizem que o combustível alcançou preços proibitivos, dizem até que o governo preferiu vender o combustível aos estrangeiros na mesma situação a usá-lo com seus cidadãos, mas essas histórias eram rapidamente sufocadas pela urgência do trabalho duro). No lugar de braços mecânicos e motores bebedores do óleo negro mais caro do que ouro, foram colocados braços, lombos e pernas de homens, mulheres e todo o tipo de animais de tração. O transporte era feito por animais e pessoas puxando outras pessoas, algumas vezes as pessoas e animais iam puxando as carcaças dos antigos automóveis, carregando outras pessoas ou mercadorias. Os animais giravam imensas rodas de moinhos que içavam do subsolo água para matar a sede, carregavam água salobra do mar para tanques de dessalinização e carregavam o refugo para piscinas artificiais onde se criavam peixes e outras criaturas marítimas das quais nosso burrinho nunca ouvira falar. Nas cidades, não se viam mais ônibus ou caminhões, muito menos carros pequenos, viam-se bicicletas, carroças, enormes carroças assemelhadas a barcaças sendo puxadas por 5 parelhas de touros. E pessoas, muitas pessoas, que preferiam caminhar à sombra dos edifícios colossais ao invés de cozinhar dentro deles sem refrigeração artificial. O comércio mudara rapidamente, em uma semana, o burrinho e seus companheiros não serviam para nada além da charqueada, carne barata para gente pobre comer. Na outra semana, eram mais valiosos do que qualquer automóvel de luxo.

Finalmente o burrinho sentiu-se necessário, sentiu que o que fazia era bom. E ele era bom, carregava tudo que lhe pediam. Sabia que os donos nunca deixariam de precisar da água, sempre lhe dariam um pouco desta, e teria palha e sombra. Amava os homens porque precisavam de seu trabalho, amava-os mais ainda agora: sabia que os homens também carregam as coisas quando necessitam. O burrinho pela primeira vez foi feliz e continuou sendo até o dia de sua morte.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Cratera

   

     A máquina, certo dia, começou a fazer barulhos estranhos. Como se algo dentro dela crescesse e roesse de dentro para fora. Todos na cidade sentiram muito medo de que o maquinário se erguesse do chão e se lançasse com pés e mãos mecânicas contra a população, que até ali sempre havia tratado a máquina com consideração.
      Mas não, ela não se ergueu, nem aprisionou os homens para usá-los como baterias bioquímicas mais tarde. O que ocorreu foi muito pior.
        O solo abaixo da máquina, alterado pelas vibrações constantes das entranhas metálicas, começou a ceder, centímetros e mais centímetros, dia a dia, formando depois de semanas uma enorme cratera que podia ser vista da Lua. E foi vista, segundo consta dos relatórios técnicos de satélites da Nasa.
      A cratera formada chegou, em poucos meses, até o magma da Terra, a despeito de todo o poderio militar que se acumulou em suas bordas, inúteis diante da força maior que por ali agia. Dela jorrou fumaça negra e enxofre por um mês. A nuvem tóxica e malcheirosa sufocou a todos os viventes que não conseguiram comprar máscaras de gás a tempo. Finado o mês, a fumaça cessou. Pelas paredes da cratera foram avistados seres escalando as paredes, eram feitos de puro fogo derretido e metais reluzentes. Mais tarde, foi anunciado que se tratavam dos verdadeiros habitantes do planeta Terra, refugiados há milhares de anos no interior do planeta, que voltavam somente agora para espiar o que acontecia na superfície do seu planeta. 
      Ironicamente, o seu retorno constituíra-se em novo cataclismo cósmico desencadeador de nova extinção das espécies. 
          Exceto a sua.  

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Carga perdida

     


O coronel, da cabine do submarino prateado, no fundo do Atlântico, ordenou ao cabo que taquigrafasse para a base de Havana, Cuba, a seguinte mensagem:
     "Sr Presidente, ñ recebemos turbina necessária p conclusão do míssel 33, Missão MiamiFall2642, peço que v. exa providencie este componente essencial para cumprirmos nossa missão original".

       ...

     Um cargueiro apitava no porto de Ilhéus, soltando fumaça, pedindo com urgência que os marinheiros retornassem. Mas, Manuel, o responsável pela carga misteriosa, teimava em permanecer morto no fundo do lago, sua cabeça esmagada pela quadrilha que roubara a carga preciosa e secreta extraviada do cargueiro de Havana há dois dias.

       ...

         E o caminhão pulava aos trancos nos buracos da estrada, com seus choferes mal pagos, seus endereços rasgados esvoaçando pela janela, com pressa, como sempre, para entregar a próxima encomenda, e com raiva, pelo frete perdido na última entrega, feita por engano.

       ...

       Miami permaneceu segura por mais duzentos anos, sem que nenhum míssel lá chegasse, ao menos de Cuba. O cargueiro acabou no fundo do mar, junto com o submarino nuclear desativado. O caminhão não roda mais, virou peça de museu. Somente a máquina permanece reluzente e bem cuidada, repousa adormecida e perdida naquela cidadezinha pacata do interior.


(Inspirado no conto "A máquina extraviada", de JJ Veiga)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Mais nada

Sem tempo o bastante para pensar
Falta liberdade para esperançar
Aqueles anos da juventude esquecida
Dois Minutos antes da saída

Não dá pra sentir mais nada
Não dá pra sentir
mais nada
Não dá.





terça-feira, 30 de setembro de 2014

Poema de um Minuto

O desafio é escrever um poema
dentro de um minuto.
Parece difícil.
Acrescento as variações de sempre:
um poema que não fale de amor,
para ficar sempre fora de moda.
Não pode falar de flores,

porque são coloridas demais.
Gotas de sangue pra temperar.
Pronto.






Pós-escrito: A borboleta é o que brota do sonho quando este se incendeia. O resultado são nuvens de borboletas cinzentas e fugidias.