terça-feira, 4 de setembro de 2012

O bote do ódio

Espreita escondido atrás do olho esquerdo, depois do direito. É negro, tem a profundidade das coisas sem fim. Rodeia, atocaia, mais parece a vítima que se esconde do que o carrasco que aguarda o momento para empunhar o machado.

Houve o tempo em que passou adormecido, temeroso de se dar a conhecer à luz. Envergonhava-lhe sua figura disforme, malhada por indisfarçáveis manchas de desespero. Toda a sua força concentrada em suas convicções, aliás, crenças. O que por nada muda só pode ser medido pela régua da fé. Conhecia a razão pela qual fora criado, de certeza tão indiscutível quanto o nascer e renascer do sol todas as manhãs.

Nasceu então, brilhante, áspero, de altura inexplicável, cheio de gritos e roncos de dor. Avançou cegamente em todas as direções, bateu dolorosamente sobre a superfície dos seres, rebarbou, espumou e recuou, para voltar a se expandir e ir repelindo os sentimentos mesquinhos e de menor monta.

E rasgou e pisou, chorou um vômito amargo de afogado sem esperanças. Suas lágrimas se tornaram espinhos que rasgaram as carnes próximas. Rolou sangue e suor, e gargalhadas histéricas de incompreensão.

E riu, riu, riu, até cair. Desejou seguir de arrasto os alvos de sua dor, mas do tombo não mais se levantou. Asfixiou ali, em frente à platéia muda, com as mulheres tapando os olhos dos filhos pequenos para não verem o vexame da sua nudez esquelética.

O seu sorriso de morto eram os dentes falhos de uma caveira de olhos apodrecidos.


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Reclamar e chorar

Esse mundo é uma droga, todo mundo sabe. Mas ainda tem gente que reclama e cruza os braços. 

Adianta reclamar da droga que o mundo é? Reclamar melhora? Reclamar serve para as democracias, para os serviços de atendimento ao consumidor, para os serviços de proteção disso e daquilo outro, para os pastores e padres, para o papa, para o pai, para a mãe. Porém, reclamar não serve para melhorar o mundo. 

A vida não melhora porque você reclama. Ela melhora se você trabalha, transforma, desmonta e remonta, se arrepende, pede perdão, conserta.

A vida não é muro de lamentações. Então, é só assim, vou chorar atrás do muro e tudo irá se resolver? Tudo indo para o buraco, vou sentar no meio da estrada e chorar. Tá pensando que a vida é fácil assim, camarada? Não é não! Acorda, chorar não resolve nada. Lágrima só comove mocinho de filme de caubói, mesmo assim, só se a mocinha for muito bonita. Senta no meio da estrada e chora pra você ver se não te atropelam. Senta! Senta!

Quando eu era pequena e chorava por alguma coisa - e olhem que eu nunca fui de chorar, mas já chorei sim, para o caso de alguém duvidar - a minha vó me dizia "Tu ainda deita na cama pra chorar? Chore não minha flor, que coisa pior sempre há de vir". Em seguida me ameaçava de dar uma surra pra que eu chorasse com razão. Porque chorar sem razão é fraqueza. Chorar sem razão é fricote. E nessa vida se ganha algo com fricote?

Por isso, minhas flores, não chorem. Não vale a pena. Todo mundo sabe que chorar é só desabafo, lágrimas não movem o mundo. Tampouco lamentações. Mas se a precisão for muita, então chore. Mas não se demore muito nisso, porque o mundo gira e não espera.

E não chore na cama que é lugar quente. Nem chore no escuro, nem detrás do muro. Chore na pia onde a água é fria.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A angústia de escrever

Perdi o fio do risco, emudeci. Olho a tela em branco, aguardando caracteres a serem digitados e não tenho o que dizer. Quem diria, que eu, algum dia, ficaria sem ter que dizer, eu que já disse o que os outros não queriam ouvir, o que ninguém sabia que podia ser dito, o que todos queriam, mas não diziam.

Foi assim só: calei-me. Nem calos faço mais nos pulsos por apoiá-los sem jeito na quina da escrivaninha. Perdi o jeito. Mas também, escrever para quem? Ninguém mais a desafiar com meus desaforos líricos, minhas sátiras tortas, as sandices estão morrendo todas no meu cérebro, sem contaminar a folha mágica que brilha dentro do computador. 

Para onde vão as letras depois que as escrevo? Como faz para piscarem antes da barra negra? Será verdade que alguém do outro lado pode ver os rabiscos que faço do lado de cá? E o que lê este alguém? São os sinais pretos retorcidos do indo arábico ou são os meus próprios pensamentos que ouve, perdidos dentro de sua cabeça?

Não sei. Se soubesse lhes diria. Mas eu não sei.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Poesia apocalíptico-moderna ou As bananas



O poeta era professor,
se chama Antonio Carlos Viana,
vendia aulas na escola,
mas não conseguia poetar.

Daí ele largou o magistério
para vender hot dog
e acabou vendendo contos
para a Playboy.

E fez fama, se tornou famigerado.
Assim nos disse professor Paulo André.

E eu? E eu?
Também sou professora
mal paga, de metro,
rima e versos poucos.

Será que pra ganhar fama
terei que vender bananas na feira?


quinta-feira, 22 de março de 2012

Humana solidão





Pague amor com ódio,
atenção com indiferença,
oração com pragas,
dedicação com desleixo.

Esmague a mão que lhe estendem,
arranque os ombros oferecidos,
esmurre as flores ofertadas,
pise em túmulos recém cobertos.

Não chore pela vida desperdiçada,
Não lamente os amigos perdidos,
Segue pelo caminho estreito-

- dos sonhos minguados,
das queixas caladas,
das lembranças esquecidas.




segunda-feira, 12 de março de 2012

O ventre enterrado





"Deus condenou a Serpente a rastejar seu ventre sobre a terra por seduzir Eva e Adão. Ainda hoje, como bicho de debaixo do chão a Serpente consegue engambelar muitos Adãos e muitas Evas e socá-los no bucho. Dizem que esses pobres vivem eternamente presos por lá."


A nossa Eva teve oito filhos. Oito para dar sorte, se fossem Sete dariam na conta do mentiroso. Oito. Um de cada pai, aliás, dois de um só, foram gêmeos. Cinco nasceram mortos, dois as avós criaram e um filho, o último, foi aquele a quem Eva amou.

Esse um, o último, foi o único a quem Eva não tentou matar. Sem pular, sem tomar beberagem, sem dormir de barriga para baixo no sol quente e na pedra fria. O último não era só filho do pai e do ventre, era filho seu também. Filho do desejo, da vontade, da carência de ser mãe. Filho que não foi feito à força nem por acidente. Era filho só; sem nada especial, com a diferença de lhe ter trazido juízo.

Foi o um do choro fino e das noites longas, cheias de cólicas e chás. O das fraldas cozidas e passadas com ferro de brasa. O dos remédios caros e das febres altas. Das garatujas em papel pautado e dos rabiscos nas paredes encardidas das casas de aluguel.

Cria difícil, teimosa em minguar, reimosa de criar. Moço bom e trabalhador, dos que trazem flor nos dias de anos e levam para trocar os óculos. Forçudo, bom de render meninos, muitos dos quais Eva ninou.

Tão bom filho, tão bom moço, até vela acesa nos dedos duros da velha finada Eva botou.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A carne rasga

[POEMA ESCRITO NUM DIA DE CARNAVAL ENSANGUENTADO]


É carnaval, festa da carne. A carne é fraca 
e não pode viver só de suor e arroz com feijão, 
a carne não vive somente de pão, hóstia 
e água mineral. É carnaval, a ocasião
pede o suor da dança e da volúpia; pede
a fartura da mesa e a embriaguez do álcool.

Mas a carne é fraca, lembram? Desidrata-se 
com o sol, intoxica-se com as drogas, deforma-se 
sob o efeito dos excessos. E chora 
lágrimas de sangue quando se rasga.

A carne rasga! Não é metal, 
não é couro curtido, tão pouco é rocha sólida. 
A carne é sangue, tecido e água. Ela se rasga,
 rompe, desmancha, queima, derrete, vaporiza-se.

É fraca. Não suporta além do limite 
de seu conta-giros; arqueia 
até quase tocar o chão na dança, 
mas na queda tomba. Rodopia 
alegre e cantante sob o som da euforia 
para depois tontear com o impacto 
seco do muro de concreto.

A carne vê tudo dobrado na estrada, 
depois da dança e do álcool, mas não vê 
a outra carne que vem no sentido contrário 
dentro do seu invólucro de metal. 

Grita, uiva e homenageia a banda, 
cai em bandas pelas beiras das estradas ensanguentadas.

Levanta a poeira quando pula 
no ritmo sincopado dos tambores, 
arrasta-se na poeira dos barrancos descampados.

Ama, espuma, contorce-se de prazer 
pelo corpo amado; Retorce, engasga, 
asfixia-se na solidão da morte incerta dos acidentes.

E canta, e vibra! Os últimos acordes de dor agônica
para a Lua avermelhada que lhe espia a sorte.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Conto de Natal



Havia uma árvore grande e velha. Havia uma estrada empoeirada. Havia estrelas no céu. Mas esta não é uma história sobre árvores, estradas ou estrelas. A história é sobre uma moça sem nome. Não conto o nome da moça pela mesma razão que não dou a espécie da árvore ou o código da estrada e não digo as constelações formadas pelas estrelas: para generalizar. Essa história aconteceu em qualquer lugar ou poderia acontecer, quem sabe até acontecerá realmente, isso ninguém pode negar.

A noite estava negra como costumam ser todas as noites e a estrada mal iluminada como nem todas são. A moça caminhava sozinha e parou junto da árvore para descansar. Era Natal, mas nenhuma das duas se lembrava disto. Nem a moça, nem a árvore. A árvore, talvez porque ninguém a tivesse explicado sobre a existência da festa. A moça, porque outras coisas lhe ocupavam a mente.

Naquela manhã a moça saiu de casa cedo para ir ao mercado. Comprou ingredientes para um jantar especial. Mais tarde, na manicure, riu com as amigas. Conforme se aproximava a noite aumentava a sua expectativa. Voltou cedo para casa e cozinhou. Depois vestiu a roupa nova e foi para a sala esperar.

No intervalo entre cozinhar e se vestir o seu celular recebeu 25 mensagens de textos enviadas por seus amigos para felicitá-la pelo Natal. Na sua caixa de correios estavam cinco cartões natalícios enviados pelo comércio. Mas já era tarde e o seu companheiro não chegava. Obviamente ele teria ótimas desculpas para o atraso, pensava.

Então o telefone tocou. Ela atendeu e recebeu a notícia. Daquelas que chegam sempre depressa ou tarde demais. Precisava ir ao hospital com urgência e foi. Saiu com o carro no meio da noite para procurar o hospital onde estava seu companheiro. Os faróis se multiplicavam pelo caminho, até o ponto em que pararam de se multiplicar, simplesmente deixaram de sinalizar, porque o trânsito era uma massa só de carros parados tentando passar e levar pessoas para a ceia de natal em algum lugar. Não havia esperança de que o trânsito andasse tão cedo, dizia o rádio do carro.

Talvez, somente talvez, ela tivesse uma chance de chegar a seu destino. Atravessaria o bosque que dividia aquela via de outra, da outra pegaria um táxi ou ônibus. E assim ela fez, mas se arrependeu. O bosque era maior do que pensava. Mais escuro, mais silencioso e menos plano. Mesmo assim continuou, porque poderia já ter chegado ao meio, e como todos sabem, do meio não se volta. Ao sair do bosque estava suja, cansada e aliviada por não ter se perdido ou quebrado uma perna. Infelizmente, a outra via não passava de uma estrada de chão sem sinalização. Decidiu seguir por ela, pois não suportaria voltar ao bosque. Se não há lógica em voltar do meio pro início, muito menos haveria em voltar do fim ao começo.

Assim ela continuou andando, pés doendo, coração aos saltos, procurando pela estrada na qual desembocaria a estrada pela qual ia.

E encontrou a árvore.

E nenhuma das duas se lembrava de que era Natal.

sábado, 22 de outubro de 2011

Cantiga velha

Opa, opa, opa
a poesia virou uma zorra.
Nhão, nhão, nhão
mastigo poesia com feijão.


Ninguém lê mais ninguém lê mais
só os letreiros dos comerciais.


-Mãe, me compra um livro!
-Não somos ricos, menina!
Chora chora chora
até a hora de ir pra escola.

Não risca o livro, não dobra o livro
o livro não é de comer.

O livro é bicho papão
só falam dele na televisão.

Cantiga do recreio:
"Fui na biblioteca buscar um livro e não achei,
mas achei na internet um resumo e aproveitei."






domingo, 25 de setembro de 2011

Sem sentido

De menina não aprendi a trançar
Rezar me ensinaram, mas eu esqueci
Régua e compasso nunca soube usar
Eu não leio mapas ou olho estrelas
Faço a travessia sem guias nem nortes
De olhos fechados para melhor olhar para dentro
Surda às buzinações e ricochetes
Sigo as insinuações do pensamento.