domingo, 25 de setembro de 2011

O Todo e a Parte

Do todo entrevejo a parte
que se parte no manuseio,
em pó tudo é mais concentrado.

O que é grande demais não se vê de perto.

Afasto, me perco, nunca me acho
só na mente vizualizo a meta.

Ave, só luto!

Em absoluto
na vida só luto.

Entre o verso e o avesso
sigo resoluto.
Contra o metro e a prosa
a parede e o muro
e o nome da rosa
e o conto não conto,
luto e reluto.

Assento o concreto em bases solúveis.
Desmancho as tramas das redes onde sonho,
ao invés de dormir 
eu luto.





segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Leia a bula

Instruções para ler esse blog


Antes do depois e do mais adiante: você não receberá nenhum retorno material por ler o que aqui estiver escrito. A autora destas páginas não acredita em retorno material ou financeiro pelo seu trabalho, não o dá e não o recebe.

Este blog não tem dicas úteis. Você não vai aprender a fazer nada aqui. A autora não sabe fazer nada de aproveitável ou repassável, e o que sabe ela guarda para si.

Aqui se fala de coisas ora sérias, ora inúteis. Humor há pouco, também não prometemos lágrimas.

Pouco é pouco, muito é muito. Aqui quase sempre é pouco e não tem ninguém chorando por isso.

Os sentimentos por aqui tratados são técnica e imitação, são o fingimento sincero da dor de seus personagens. A ficção aparenta realidade, mas continua ficção. A realidade permanecerá sempre inexplicável.

 Agora é só ler.


sábado, 20 de agosto de 2011

Ah!

Ah, se eu fosse!
Se eu tivesse
Se eu pudesse
Se eu quisesse
Se eu soubesse...

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Jorge Amado

Jorge Amado foi o primeiro escritor baiano com o qual tive contato, li quase de uma vez dez obras do escritor. Viajei com sua ficção pelos terreiros de Salvador, a cidade baixa dos pescadores pobres e das meretrizes, pelo sertão seco do preconceito, pelo coronelismo dos donos das roças de cacau, de fumo, de cana. Amado mostra o baiano e o mais pobre, simpatiza com os dois, denuncia o patriarcado e o protecionismo sem se divorciar deles. Ele é ao mesmo tempo o vate que bebe nas mesas dos rotary clubs e o vagabundo que cai na sarjeta na beira do cais.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A ordem da fila

Eram 7 horas. Da manhã. O vento frio não aliviava o enjôo e a calçada ficava no caminho tentando fazê-la tropeçar. A mulher baixinha e velha do guichê respondia que "sim" à sua pergunta apertando o óculos no rosto naquele gesto clássico de quem usa óculos. 

- Sim, é hoje. Não, não agora de manhã. À tarde. Posso sim, qual seu nome? Costa? Cravo? Certo. Às duas.

Faltavam seis horas. Cinco horas e quarenta e quatro minutos. Saiu para a rua. Andava devagar para deixar o tempo andar mais rápido. O vento não soprava mais frio, nem soprava. O sol esquentara e queimava o rosto escondido atrás dos óculos escuros. Um prédio alto tapou o sol e o dia virou noite pelas lentes escuras. Passou o prédio e o sol voltou.

domingo, 24 de julho de 2011

Entre as palavras existem pausas silenciosas

No começo foi a fala aberta
sem pejo
a sinceridade infantil

Depois escolheu melhor as palavras
cortou os palavrões
e os adjetivos bobos

Então passou a selecionar as idéias
adequá-las ao contexto e ao interlocutor
conformou as frases a um público alvo

Chegou à omissão total
de idéias e palavras
adotou o mutismo cedendo à chantagem das opiniões divergentes
pronunciava somente os monossílabos da concordância


Calou-se.







sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fiascos do fim do mundo


Naquele dia por acaso resolveram promover o Fim do mundo. Em hora imprópria e sem a pompa dos símbolos bíblicos. Fim de mundo fajuto: sem anjo nem arcanjo tocando trombeta no céu, nenhum dragão de sete cabeças cuspindo pragas do Egito. Esqueceram de fazer nascerem os doze bezerros pintados de ouro com três cabeças cada. Não contrataram a Santa para se vestir de Prostituta e parir um Messiazinho ao avesso para trazer ao mundo os consolos da destruição total. 

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um Zé

De onde vêm os Zés?
Eles vêm de qualquer parte
especialmente de onde ninguém espera que saia um Zé.

Nasce um, nasce dois, nasce três e.... zás
dá de nascer um Zé.

Porém, o Zé é necessário, sem o Zé o país não anda.
Ele é ecológico, ele é econômico, ele é ergométrico, ele é aerodinâmico.
Sem Zé nada funciona.

Matem um Zé e ganhem cem anos de urucubaca.
Case com um Zé e é marido pra vida toda.
Nasça de um Zé e compartilhe do sangue da raça.

Viva o Zé! Sobrevivam os Zés!
Libertem os Zés!

Avante Zé!



(Repostado para comemorar o aniversário de um Zé muito querido)

O mistério da porta fechada


Desde pequena a mãe lhe recomendava que mantivesse a porta da frente fechada. De manhã ou à tarde, na saída ou na entrada, passasse e fechasse a porta. Olhasse pela janela antes de abrir a porta. Pergunte sempre quem é. Nunca diga que está sozinha em casa. Fale que sua mãe está ocupada e não pode atender.

Quem lavava a calçada era a chuva. O lixo era o pai que colocava pra fora quando saía para o serviço. O muro era alto e a menina brincava no quadrado de terra preenchido com plantas ornamentais sem desconfiar do que se passava na rua. A rua era de terra e a camada fina de poeira vermelha assentava nos móveis. A mãe maldizia a poeira e a rua. Gostaria de viver onde não passassem carros.

O sol baixava e a conversa das mulheres sentadas nas calçadas atrapalhava ouvir a televisão. A mãe maldizia as vizinhas e o seu conversar. Gostaria de viver onde não passasse gente.