quinta-feira, 21 de julho de 2011

Um Zé

De onde vêm os Zés?
Eles vêm de qualquer parte
especialmente de onde ninguém espera que saia um Zé.

Nasce um, nasce dois, nasce três e.... zás
dá de nascer um Zé.

Porém, o Zé é necessário, sem o Zé o país não anda.
Ele é ecológico, ele é econômico, ele é ergométrico, ele é aerodinâmico.
Sem Zé nada funciona.

Matem um Zé e ganhem cem anos de urucubaca.
Case com um Zé e é marido pra vida toda.
Nasça de um Zé e compartilhe do sangue da raça.

Viva o Zé! Sobrevivam os Zés!
Libertem os Zés!

Avante Zé!



(Repostado para comemorar o aniversário de um Zé muito querido)

O mistério da porta fechada


Desde pequena a mãe lhe recomendava que mantivesse a porta da frente fechada. De manhã ou à tarde, na saída ou na entrada, passasse e fechasse a porta. Olhasse pela janela antes de abrir a porta. Pergunte sempre quem é. Nunca diga que está sozinha em casa. Fale que sua mãe está ocupada e não pode atender.

Quem lavava a calçada era a chuva. O lixo era o pai que colocava pra fora quando saía para o serviço. O muro era alto e a menina brincava no quadrado de terra preenchido com plantas ornamentais sem desconfiar do que se passava na rua. A rua era de terra e a camada fina de poeira vermelha assentava nos móveis. A mãe maldizia a poeira e a rua. Gostaria de viver onde não passassem carros.

O sol baixava e a conversa das mulheres sentadas nas calçadas atrapalhava ouvir a televisão. A mãe maldizia as vizinhas e o seu conversar. Gostaria de viver onde não passasse gente.

sábado, 11 de junho de 2011

Visitas


O sol invade o biongo pelos vãos rachados das telhas. Cozinha os miolos calvos do corpo caído no chão. A poeira levanta com o sopro do vento que passeia na saleta, levanta e cai devagar e torna a levantar. É poeira luminosa, saudosa da vassoura, alegre pela luz visitadeira. O olho acompanha a luz e a poeira, só ele mexe no corpo, a vida se escondeu nele. O olho sonha com a chuva. A chuva matará a poeira, esconderá o sol e molhará as telhas. As telhas inchadas vazarão a chuva para dentro da saleta onde o olho se esconde e espera a hora de lavar das vistas a poeira.

sábado, 28 de maio de 2011

Visão de um mundo sem seiva



Os bebês ressequidos abandonados na beira das estradas sendo devorados pelos carrapatos. As mulheres arqueadas pelo peso da lenha e da água. O fogo sendo aceso para  cozinhar comida pouca.  

A roça de feijão morta no tempo das flores. As vagens deformadas, cobertas  de ferrugem preto. Os grãos apodrecidos pendentes dos sabugos. A fartura de insetos perfuradores construindo seus casulos sobre os caules. O seu único filho nascido vivo abandonando a pobreza. A  temporada de chuva  voltando sem ter quem carpisse o mato. As crias das vacas sendo amamentadas no meio da lama.

Todas as memórias, todas as boas e más lembranças, todas apodreceram juntas nos pedaços alterados de seu corpo.

A melhor parte do seu ser deteriorava-se dia-a-dia, desgraça a desgraça, segundo a segundo. Só mesmo a morte para acabar com tanta feiúra. Tristeza muita para esperança pouca é mau agouro.
Permaneceu imóvel, horas, olhando fixo para o candeeiro pendurado no teto de madeira negra. 

Tentou se mover e havia perdido o controle sobre os membros. Queria se virar e ver outra coisa além do candeeiro, faltava força. Horas. Concentrou toda a energia para mover o tronco, tombou na serragem que cobria o piso. Seu corpo era algo fora de seu controle. Mais comprido, mais pesado, as articulações funcionavam diferentes. Dentro de si tudo mudava, os ruídos das suas entranhas confundiam-se com os trovões da tempestade que se aproximava. 

Nem uma alma, nem uma alma vinha lhe visitar. Morreria só.



(A foto é do Paulo Anjos)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Mundos e mundos e mundos

Aceitar o novo, encontrar novos significados para coisas velhas. Reaproveitar o excedente em coisas úteis, transformar idéias. Somos habituados a entulhar nossas casas e nossas mentes de objetos inúteis, de valor questionável, troféus e lembranças dispendiosas de tristezas passadas. Buscamos estar em ambientes barulhentos e agitados para evitarmos a solidão de nossos próprios pensamentos vazios, mas quando encontramos o silêncio, ele nos atormenta com nossos pecados, porque acreditamos no pecado, porque acumulamos sentimentos inúteis, evitamos sentimentos sinceros, nos envergonhamos dos nossos próprios sentimentos. Então somos assombrados pelo que não compreendemos, pois não nos permitimos compreender.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Novamente o silêncio

O silêncio novamente invade o quarto.
Revira as roupas e rasga os lençóis.
De silêncio precisava em horas marcadas.
Mas não o silêncio destruidor de paz.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Revista de Cândido Sales | Cândido Sales sob um olhar curioso: fatos, impressões, retratos.

Deixo o link do meu novo blog no Wordpress, nada que vá interferir aqui com o Literatices. É só uma tentativa minha de dividir minha atenção entre a ficção e a realidade.


Revista de Cândido Sales | Cândido Sales sob um olhar curioso: fatos, impressões, retratos.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Viagem de ônibus


Detestava ônibus. O corredor de um ônibus é um palanque onde os que estão julgam os que entram e vice-versa. Cada passageiro é visto e avaliado por todos os outros passageiros. Podem nos olhar pelas costas. Podem nos ver dormindo. Somos julgados com a rapidez de um piscar de olhos e não podemos nos defender quanto a isso.

Preferia sentar nas poltronas do meio. Na frente, se é o primeiro a ser visto por todos que entrarem, nos fundos, terá que caminhar mais e ficar próximo ao banheiro, mas é melhor para se dormir. As estatísticas comprovam que a maior parte dos desastres com ônibus atingem a frente ou a traseira do veículo, no meio se está mais seguro, de preferência do lado do motorista. Em uma colisão o motorista vai instintivamente jogar o lado oposto do ônibus e proteger o próprio lado. Pelo menos era assim que pensava.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Desejos e sonhos


 (Imagem: Duas Mulheres em Silêncio, Marcília Mourão)


Os meus sentimentos represavam todos aqui por dentro,  minando com mesquinharia para fora; os dela pareciam se derramar para o exterior  de uma maneira bela e incontrolável.

Se eu estivesse perdida como ela, estaria angustiada. Sabendo para onde eu devia ir naquele momento e conhecendo o itinerário a seguir já era angustiante. Angústia da certeza de que todos os dias havia o mesmo caminho a ser repetido, com as mesmas curvas e retas. A verdade é que eu não tinha certeza se eu era dona da minha vontade e das minhas escolhas ou se elas haviam sido implantadas lá; se existia alguma Lei Superior que controlava o meu destino ou as escolhas eram legítimas.