quinta-feira, 8 de abril de 2010

Caminho

Ia pelo caminho
triste e distraída
tropeçando em pensamentos
e lembranças doloridas.

Não havia nenhum sentido
ou sabor no que eu via. Perdida,
eu esquecera meu ponto de partida.
Sem rumo... apenas ia.

Um choro despertou-me.
O teu nascer chacoalhou-me.
Para te ver respirar mais um dia
mais um dia eu desejei respirar.

Os erros do passado são só memórias.
E que importa para onde caminho?
Ou se o tédio torna insuportável a vida?
Se achamos coisas interessantes pelo caminho
Aleatórias ou acidentais
Pouco importa que não haja meta.

Terríveis ou insignificantes
o que fazemos sempre pode ser interessante.
Vazio ou significativo
pensar é sempre desperdício do agir.

Caminho... caminho...
pensar... e caminhar...
o que sopra no caminho é só o meu pensar.

E no findar do caminho
Olharei pra trás e direi
"Pelo menos fizemos coisas interessantes.
Perdemos a guerra, mas vencemos o tédio."

quarta-feira, 10 de março de 2010

Mulher multiuso: pontos e nós

Vou unir três pontas temáticas em um único nó textual, e fica testemunhado o fato de que eu não deixo pontos sem fazer os nós.

Primeiro ponto. Estamos na semana do Dia Internacional da Mulher. Primeiro nó. Esse texto fala sobre mulheres, veja lá o título "Mulher multiuso". Reparem que na Semana da Mulher os meios de comunicação ficam entre duas pautas clássicas: o elogio ao sexo feminino - sua beleza, a maternidade, a fragilidade (do colo do útero e das mamas, principalmente) e a pauta de denúncia às barbaridades ainda cometidas ao redor do planeta contra as mulheres (mães, filhas e irmãs de todo mundo que são torturadas, mortas, violentadas, abandonadas, usadas como mercadoria e mulas de carga.
 
Segundo ponto. Assisti ao "Sala de Notícias" da TV Futura (graças a Deus inventaram parabólica e internet), que exibiu um programa especial sobre "Os 50 anos da pílula anticoncepcional" (não se desesperem as partidárias da pílula, o Futura reprisa). Segundo nó. Quem estiver interessado em pesquisar sobre a trajetória do contraceptivo oral procure no Google; o nó da minha costura vai nas pontas esfarrapadas do uso da pílula: é um método 99,9% seguro se usado corretamente, dizem (eu acredito) que previne o câncer uterino, PORÉM, pílula não protege contra as DST'S, Doenças Sexualmente Transmissíveis para os (não) íntimos. É isso, mulheres e homens, quem quer se proteger DE FATO deve usar c-a-m-i-s-i-n-h-a. Quem não souber o que é camisinha, ou não souber usar, busque no Google ou em qualquer outro buscador disponível no mercado, ou no posto de saúde mais próximo da tua casa ( o Google não me paga jabá, então eu falo na concorrência mesmo).

Terceiro ponto. O meu entediado parceiro de blog, o Ted, me chamou a meia hora atrás de "Ana multiuso". Terceiro nó, com arremate do epíteto gracioso cedido a mim pelo meu generoso amigo.Não é possível ser mulher sem ser multiuso. O útero foi projetado para gerar filhos, gera também doenças. A pílula foi inventada para tratar a TPM e os problemas da menopausa, é usada como contraceptivo, e serviu para alavancar o feminismo, a liberdade da mulher e a liberação sexual do século XX.

E a MULHER? Mil e uma utilidades. Além de mãe, esposa,  domésticca, operária, agricultora e cientista pode ser: cobaia, mula de carga, saco de pancadas, banco de óvulos, útero de aluguel, matéria prima e moeda de troca do tráfico internacional de escravos brancos.


Este texto foi postado originalmente em outro blog do qual sou parceira, o Não tenho Twitter.

terça-feira, 2 de março de 2010

Poema sem métrica encontrado no fundo da gaveta

Somente Deus sabe a velocidade dos sonhos humanos,
onde se empilham objetos inúteis e deperdiçam-se neurônios.
Ó Deus! De que tecido porco teceste o coração dos homens?
De que má safra colheste estas más sementes? Transgênicos?

Culpa, solidão, abandono.
Tristeza, revolta, fraqueza.
Inveja, egoísmo, vileza.

Não, não... não se engane.

O amor só existe para amenizar o ódio.
E a inocência é a ignorância do pecado.
Por isso, só os inocentes amam e o fazem
pois ignorantes são.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Sobre a brevidade das idéias

Puxei o fio da cabeça (idéias) fora do lugar e do coração acinzentado para tecer algumas observações sobre a duração das idéias, mais especificamente, sua brevidade.

Li ontem uma notícia sobre a idade dos blogueiros desde a invenção deste espetacular espaço de exposição de idéias. No princípio a maioria deles era adolescente, hoje, os adolescentes migraram para as redes sociais em que prevalece a exposição de mensagens curtas, adequadas para quem postará de um celular ou para quem não quer perder tempo digitando textos longos.

"Perder tempo digitando textos longos", aí está uma afirmação com a qual não concordo. Escrever é captar uma idéia e desenvolvê-la primeiro em sua mente, depois transcrevê-la para o suporte de sua preferência. O passo final e mais importante é levar a sua idéia ao conhecimento de outras pessoas, que através da leitura da idéia inicial tecerão as suas próprias idéias. O diálogo entre as idéias pode não ocorrer no mesmo suporte, mas na cabeça do leitor com certeza acontecerá.

A cabeça fora do lugar ( http://naotenhotwitter.blogspot.com/2010/02/mamma-said.html ) me remete a este problema coletivo que precisamos enfrentar. Encontramos um espaço que nos dá voz para expor nossos idéias e confrontá-las com o mundo, mas preferimos abreviar a oportunidade. Substituímos a reflexão pelos anúncios fragmentados de idéias plagiadas, pela descrição de que estamos indo tomar um café na esquina.

Para exemplificar e alongar, pensemos na seguinte situação: brevemente, anuncio em uma rede social que estarei em uma passeata gay na terça feira. Convido a todos para estarem lá também. Onde está a idéia? Eu posso estar indo à passeata gay para jogar ovos, posso estar indo porque sou gay, porque sou simpatizante, porque vou trabalhar dirigindo um  carro-palanque, etc. Quem vai entender? Só quem me conhecer muito bem. Reduzo o meu público e reduzo o alcance da minhas idéias sobre o assunto.

O problema de abreviar o espaço das idéias é que as idéias nunca são curtas, são sempre longas, precisam ser explicadas, reviradas, remexidas até que se façam entender. Em definitivo, estou com o Millôr Fernandes quando ele diz que não escreverá em dez palavras o que ele pode escrever em cem.


Postado originalmente em: http://naotenhotwitter.blogspot.com/2010/02/sobre-brevidade-das-ideias.html

Prólogo "introdutório" e notas explicativas que confundirão a poesia da prosa e prejudicarão a liberdade do leitor em entender o que bem entender

Então, meu não-desprezado amigo Tadeu me convida para ser co-colaboradora (não sou gaga, é neologismo. Será que cheguei primeiro neste vocábulo ou faço um plágio involuntário das invencionices de outra pessoa? Vamos fazer de conta que fui eu quem pariu a idéia) do seu novo blog. Não tenho Twitter.  E eu não tenho mesmo. Mas posso vir a ter.

O que eu quero é esclarecer o quanto me causa admiração (apaguei “pasmo”, se aproximava mais da verdade, mas a verdade é uma coisa meio fora de moda, não acham?) a existência de gente capaz de captar a essência criativa das idéias do meu parceiro de blog. Não digo que ele seja um super gênio criativo que só nasce de mil em mil anos, eu é que ando desanimada com o grande número de bichos pouco-pensantes nascendo por este mundo.

E atendendo a única recomendação dele para me receber como co-colaboradora (!!!) “posta o que quiser e como quiser”, preparei esta singela (adjetivo babaca) postagem.

As causas obscuras e duvidosas - terríveis trocas de favores políticos, perigosas misturas entre o público e o privado - envolvidos neste conluio de mentes fica para o próximo capítulo* desta novela bloguelesca**.

(*) Anúncio enganoso
(**) Brincadeira com “novelesca”
(***) Nota das notas: estas notas são realmente necessárias?

Texto originalmente postado em:  http://naotenhotwitter.blogspot.com/2010/01/prologo-introdutorio-e-notas.html

Rio Pardo

Atravessamos em um domingo à tarde um labirinto de estradas empoeiradas.
Areias vermelhas e mata-burros constantes.
Por quê?
Nos disseram que seguindo o Rio Pardo acima encontraríamos um rio muito diferente do que o conhecido por nós.
Conhecíamos o Rio Pardo curso de água, tímido, escondido entre pedras e propriedades particulares. O rio de lavadeiras

e meninos pescando peixes de três centímetros.
O rio de água barrenta e duvidosa, comprovadamente foco de esquistossomose.
Martirizado e ao mesmo tempo tão necessário.

Encontramos,
um mar de água doce que sumia no horizonte.
Refletia o céu, fazendo a curva no meio da mata e fugia para longe dos nossos olhos.
Decidimos que não era o mesmo rio. Ou era ele em outro estado de desenvolvimento.
Com pesar, dissemos a adeus às águas que nos alimentam
e retornamos pelas estradas de areias vermelhas.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Ato de fé


Eu acredito que todo ser humano pode aprender, mesmo depois de crescido, a respeitar os outros e a lutar pelos seus direitos e interesses.

Eu não acredito em autoridades estabelecidas, não acredito em regras criadas por comissões que não sentem na pele as questões envolvidas na pauta.

Eu acredito na educação que transparece no ato das pessoas conscientes e supera as manifestações contrárias.

 Não acredito no ensino obrigatório e tendencioso das escolas, não  acredito na informação da mídia vendida. Não acredito em propaganda política eleitoral. Eu não acredito em outdoors. Eu não acredito em slogans, muito menos em gritos de guerra.

Eu acredito que colocar o meu lixo no lugar correto, reciclar e respeitar o espaço dos meus vizinhos não é ser certinha exagerada.

Não acredito em telenovelas, não acredito nos jornais nacionais; não acredito nos líderes religiosos marketeiros, não acredito em curas milagrosas, não acredito em livros de auto-ajuda, não acredito em discursos repetidos e nunca ampliados.

Eu acredito nas pessoas.

Não acredito que a aparência é tudo; não acredito em vendedores, não acredito em pregadores, não acredito em relações públicas, não acredito que vou enricar com facilidade, não acredito em profissionais sem concorrência, não acredito em anúncios institucionais; não acredito em governo sem oposição, não acredito em oposição que não se manifesta, não acredito em pessoas que  só falam bem de si mesmas.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Os problema dos outros

A maioria dos ocidentais é incapaz de compreender o que leva uma pessoa a abandonar sua pátria e arriscar a vida para chegar ao Ocidente e servir como mão-de-obra barata.

Não compreendem porque nunca possuíram uma terra que lhes pertencesse e da qual gerações de sua família tiraram o próprio sustento, nem tiveram que fugir desta terra com o a roupa do corpo para não morrer e se refugiar nas cidades, sem casa ou comida. Não olharam para os quatro cantos sem esperança de alguém que lhe cedesse um pão para matar a fome. Depois, rastejar pelo esgoto e encontrar um trabalho estafante que lhe mantém vivo, mas não garante a sobrevivência. Não garante pois inexistem leis que impeçam que atirem sobre você na rua porque você não se curvou o bastante, nem leis que impeçam dezenas de serem enterrados em valas comuns secretamente.

Os mais céticos se perguntarão: “Isto é impossível, pois existem aí os observadores internacionais, e os jornais, e a ONU, e a Cruz Vermelha, e a opinião pública.” Estes céticos são tolos como crianças. As pessoas veem quando querem ver e olham para o outro lado quando não querem. O problema do outro é do outro. Esse é o problema.

Imagem: A face da guerra, Salvador Dali

Travessia



Por que os homens julgam que as espadas e as balas foram criadas para atacar? É característico do masculino enxergar em todos os seus inventos e produções do intelecto lâminas e projéteis, prontos a ferir àqueles que se interpõe em seus caminhos. "Se algo nos incomoda, destrua-se!" Discordo dessa concepção.

Espadas e revólveres foram inventados para proteger as pessoas – de outras pessoas, infelizmente. Assim como o conhecimento científico não existe para inventar meios de matar mais pessoas com uma eficiência maior, mas, para melhorar as condições de vida da população por mais ingênuo que isto possa soar.

Os homens escrevem a história, decidem que ela deve ser contada às crianças pontualmente pelo sangue que se derramou e pelas cabeças que foram arrancadas. No imaginário masculino, quando dois homens precisam cruzar uma ponte em sentidos opostos, um deles deve morrer ou ser humilhado para dar passagem ao mais forte ou sábio. Quando dois seres humanos precisam cruzar uma ponte, o mais acertado é que ambos cedam à passagem ao outro, e o que tiver maior pressa tome a dianteira. Se o menos apressado resolver atravessar primeiro, então o mais apressado deve aguardar, pois o direito de travessia da ponte é igual para todos.

Viver em um mundo que transforma a travessia de uma ponte em um conflito bélico é angustiante. Abandonemos a ponte e atravessemos o rio a nado, talvez a correnteza nos leve para um novo mundo.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sobre a verdade das coisas


Por que duas histórias contraditórias não podem ser verdade? Afinal, todas as coisas são verdadeiras e falsas, são yin e yang. E o que importa? Se o sol nascer e se pôr todos os dias, e a chuva cair e água dos mares evaporar e tornar a chover, e as plantas crescerem, os animais as comerem, morrerem, virarem esterco para adubar as plantas, se tudo isso pode acontecer sem interferência de crenças ou explicações, então, por que questionar o mundo?

No princípio, o mundo era somente dúvida e ignorância. Não porque faltasse explicação, mas porque os homens tinham pouco conhecimento. Com o tempo, os homens substituíram o medo e a superstição pelas explicações. O universo é infinito, o saber também; sempre haverá coisas para se descobrir, portanto, dizer “isto é possível, isto não” é declarar algo sem conhecimento de causa. Tudo é possível, o verdadeiro pode ser falso e o falso verdadeiro, nada é absoluto. Hoje, podemos jurar de joelhos que uma coisa é certa. Amanhã, se nos obrigarem, juraremos que é errado. Desse jeito, certo e errado são convenções arbitrárias em alternância, uma hora são, outra hora não são. Quantas vezes assistira a tudo mudar e ficar igual outra vez?

Provas havia do seu ceticismo, porém, a sua descrença não atingia toda a realidade circundante, recaía especialmente sobre as pessoas. Sobre gente não há nada novo para acrescentar nos anais da história humana, sobre a natureza e a ordem universal sempre haverá. O Homem jamais terá conhecimento de tudo, deve, então, contentar-se com o conhecimento parcial e acostumar-se a acolher o impossível como possível quando chegarem as ocasiões.